Introdução

            É uma sensação maravilhosa terminar de escrever seu primeiro romance. Não importa o quão ruim sua escrita seja, é uma sensação incrível digitar aquele primeiro “fim”. Os “fim” subsequentes não dão o mesmo prazer do primeiro. Você já foi rejeitado. O mundo literário cortou sua língua, colocou na frigideira, queimou todas suas papilas gustativas e a devolveu. Você ainda consegue escrever, apesar de incapaz de degustar sua própria literatura. Mas não naquele primeiro “fim”. Aquele primeiro “fim” tem gosto de chocolate com morangos. Aquele primeiro “fim” é o último marshmallow

Eu tinha acabado de escrever meu primeiro romance quando escrevi este conto. Depois de quase cinco anos lutando contra minhas próprias limitações consegui terminar um romance de pouco mais de cinquenta mil palavras. E estava me sentindo o máximo. O mercado literário dobraria seus joelhos perante à minha genialidade. Agora era só uma questão de como fazer eles reconhecerem isso. A resposta me pareceu óbvia: concursos.

Pesquisei na internet concursos literários e me deparei com o prêmio Barco a Vapor, um concurso de literatura infantil. Sempre gostei de literatura. Em minhas primeiras lembranças estamos eu e minha irmã, deitados na cama da minha mãe, escutando sua voz calma ler uma história. As que eu mais gostava eram as de Hans Christian Andersen.

O soldadinho de chumbo é um dos contos mais bonitos que já li. Mesmo depois de adulto, a história ainda me fascina. A sutileza do final, com o improvável casal se unindo no além vida me deixou marcado para sempre. Pelo menos essa era a maneira que eu via, na época que escrevi o conto. Acho que se tentasse escrever a mesma história hoje, ela sairia um pouco mais amarga.

Engraçado que, nas regras do concurso, era explícito que não seriam aceitos poemas. Quando comecei a escrever saiu uma prosa meio poética. Algumas rimas aconteceram naturalmente. Pensei: “mais uma vez, meu gênio literário aflora”. Seria impossível ignorar esta releitura de um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil.

Aparentemente, sim, era possível ignorar. Relendo o conto, vejo que eu poderia ter feito um trabalho melhor. Tive que segurar meus dedos para não editar a história. Seria mentiroso fazer isso. Seria falsificar um talento que eu não tenho. Minha parca habilidade narrativa foi adquirida com suor e lágrimas. Nenhum talento natural. Nenhum gênio indomável. Não. Não aqui. Mesmo assim escrevi e, escrevendo sem talento, lhes dou este belo perdedor, que, em segunda mão, vocês, agora, terão o prazer de desfrutar.  

Conto

            Em uma casa alaranjada vivia uma família não muito diferente da minha ou da sua. A casa ficava na rua oito do bairro oeste, onde muitas casas parecidas se enfileiravam, mas essa,  era a única casa de cor alaranjada. Dentro da casa moravam o pai, a mãe e o filho. Filho único, sem irmãos e sua idade igualava-se ao número da rua da casa. Dentro de casa a mãe trabalhava, cuidado da limpeza do chão, da sala, cozinhava e aguardava o pai. Ele saía de manhã para trabalhar, sem parar, até o fim da tarde, quando podia sentar no sofá e assistir televisão. O interior da casa, inteiramente branco, surpreendia quem adentrava a casa alaranjada. A mãe gostava de uma casa clara onde a luz podia entrar pelas janelas e iluminar todo o interior dos cômodos. Os adultos sempre andavam ocupados e o garoto ficava um pouco solitário, porque na rua oito do bairro oeste, as crianças já haviam crescido e agora só moravam os pais idosos de filhos que, há muito tempo, da rua haviam saído. Seus pais conseguiram um bom preço comprando a casa de uma viúva que se mudara para um asilo. Quando pintaram a casa e a família foi para sua nova morada, tudo parecia novo e aconchegante, menos para o menino, que tinha deixado sua turma de amigos em um prédio muito distante. Agora o menino ficava sozinho, de vez em quando a mãe brincava um pouquinho, mas era com seu videogame que mais se relacionava, porque a rua oito, ainda por cima, era movimentada e sua mãe não deixava sequer brincar na calçada.

            O menino solitário brincava com seus amigos imaginários e com o jogo do soldado. No jogo, o soldado valente buscava salvar o presente de uma horda de criaturas que invadia a cidade. Ele recebia o comando do capitão,“vá na rua, salvar cada cidadão, sempre com medo, porque o perigo estará te esperando, mas enfrente-o com coragem, porque um imbecil que não sente medo, para mim não tem utilidade,  ele seria derrotado com facilidade pelos monstros escondidos que o pegariam em desvantagem”. E o soldado assustado saía, escondendo sua covardia, distribuindo socos e pontapés para todos os lados enquanto os bichos mal-criados com suas bocarras horrendas davam baforadas esfumaçadas tentando matar o soldado asfixiado. O menino, segurando o controle com firmeza, sempre tentava levar o soldado para o lado certo, mas algumas vezes ele ia para o errado e acabava sufocado. Então tudo começava outra vez, capitão, rua, socos e ponta pés, e mais cedo ou mais tarde aparecia o bafo mal-criado e assim, seguia a luta do soldado

 Quando a noite chegava, o soldado assustado era colocado de lado, e o menino ia para seu quarto calado, enquanto o pai sentava no sofá e via o jornal. Quando era hora do jantar, todos sentavam-se à mesa e comiam, conversando. Os pais mais escutando, enquanto o garoto contava sobre soldado, ponta pés e baforada. A família não deixava de ser feliz e, sempre que podiam, saiam nos fins de semana para compensar a criança do tempo que ela sozinha passava, mesmo que, sozinha de fato ela não estava, porque o soldado assustado a acompanhava.

            A rotina seguia, soldado lutava, menino dormia, pai chegava, mãe cozinhava, menino jogava, pai trabalhava, mão limpava, soldado morria e, para o início ia de novo e outra vez. Estes movimentos,  nunca foram ensaiados, ainda assim eram com perfeição executado. Cada coisa acontecia na mesma hora todo dia, até que, em uma tarde qualquer,  a mãe, de tanto ficar em casa ficou enfadada,  pegou o garoto e saiu de mãos dadas. Quem sabe ir ao centro, comprar um vestido, talvez um enfeite. Lembrou que havia acabado o azeite, quando viu na estante, uma jovenzinha janota com vestido e bota,  uma sombrinha na cabeça e  um chapéu de senhora,  cuidadosamente de laranja pintados. “meu Deus, mas que achado, ela tem até um cajado. Preciso comprar essa moça de porcelana, mostrar para minha irmã Joana que achado danado essa moça bonita de alaranjado vestida, segurando um cajado”. O menino não se mostrou interessado. Na verdade agora era ele que estava enfadado, queria voltar para a sala e brincar com o soldado, que em todas as tardes era sua companhia e muita falta agora já fazia. A mãe pagou sem demora e vendo a cara emburrada, tratou de fazer um mimo para o filho e levou um sorvete consigo para ver aqueles dentes brancos sorrindo, o menino salivava, só no gosto do sorvete pensava.

Chegaram em casa e tomaram o sorvete e, enquanto o filho terminava o lanche,  a mãe olhava para a boneca de relance, admirada com a beleza da menina com vestido  e botas alaranjadas e pensava “que beleza ficará minha estante”. O menino lanchou em um instante e foi procurar seu amigo soldado que aguardava paciente a oportunidade de se vingar dos bichos mal-criados. Sua mãe limpou tudo velozmente e, com o rosto sorridente, colocou a moça de porcelana na estante, como para que ela velasse pelo menino  solitário a cada jogo jogado com o soldado assustado.

            Quando o jogo começou o soldado parou. O garoto mandava mas o soldado não fazia nada. Seus pixels estavam acelerados, cada comando dado, era solenemente ignorado, ele só conseguia ver a guria que sentada na estante, aquele magnífico semblante, surgida de pixels distantes, talvez de uma nuvem saltitante, aquela deusa aparecia, de alaranjado vestida, segurando um cajado, com um olhar demorado para o soldado assustado. Mas agora, quem estava incomodado era o garoto solitário que não tinha resultado. Deixou o controle de lado e colocou o videogame no modo desligado.

            A tela se acendeu, o soldado entendeu que se ficasse parado, mais uma vez seria desligado. Resolveu mostrar, para moça do cajado do que era feito aquele soldado assustado. Na primeira vez que jogou em frente àquela linda criatura, o soldado assustado errou um bocado, deixando o menino em fúria. A cada botão apertado, o soldado errava, demorando a disparar os murros e pernadas, fazendo o menino acreditar que o jogo estava estragado, enquanto na verdade o que acontecia era que o soldado se distraía com a linda figura do outro lado.

            O garoto logo cansou de perder e foi procurar outra coisa para fazer, enquanto o soldado assustado procurou o capitão assim que o jogo foi desligado. O capitão explicou que o caso era perdido. Quando um soldado tentava ir para fora da tela, os bytes se dissolviam e voltavam ao mundo por eles vivido.  O soldado, inconformado, perguntou insistente qualquer jeito existente para encontrar a moça do vestido alaranjado. O capitão, com calma, explicou que somente depois que fossem esquecidos, o jogo partido, e o menino crescido, poderia o soldado, com a moça do vestido alaranjado se encontrar. Quando o jogo finalmente terminava e nunca mais se reiniciava os personagens valentes, aqueles que sentiam o que a gente sente, iam para uma terra bonita com cores e brisa, sem bichos malvados. Lá, eles se encontravam com os brinquedos e bonecas, carrinhos e motocicletas das crianças crescidas. Todos os bonecos sem cabeça, os ursinhos despedaçados, os carros quebrados brincavam em conjunto com os videogames passados, vivendo em um mundo merecido para aqueles que só alegria compartilhavam. Mas não eram todos que para essa terra iriam, só aqueles que sentiam e, com isso, o soldado ficou intrigado. Ele queria saber se o sentimento que julgava ter era correspondido por aquele ser colorido que na estante o olhava, enquanto ele esmurrava os monstros com bafo.

            No dia seguinte o soldado assustado acompanhou o garoto solitário na luta contra o mal. Chutou e socou os monstros que encontrou sem se distrair enquanto pensava em um plano sensato que iria de imediato leva-lo até sua amada. Em um golpe de sorte o soldado se viu mais forte para levar a cabo o plano bolado. O menino decidiu parar de jogar mas foi descuidado, deixou o videogame ligado. O que o soldado não sabia é que o menino queria mais um gole do sorvete gelado que sua mãe havia guardado. Nesse momento sozinho, o soldado viu, pela primeira vez, o cômodo vizinho. Era uma sala ampla, com cadeira mesa, estante e um sofá reconfortante.  Agora podia ver com clareza a estante onde repousava a beleza. A estante escura com três prateleiras de cada lado, com duas portas embaixo, estava inteira ocupada. Livros à esquerda harmoniosamente desarrumados, enquanto à direita uma coleção de figuras se mostrava. Havia um índio feito de barro com um arco e flecha apontados e uma coruja de olhos esbugalhados temendo o perigo. No centro, com bolas de vidro um jarro florido, com flores de vidro, se projetava, fazendo as crianças levadas temerem a estante. Na prateleira de baixo repousava exultante a garota alaranjada pelo vazio, cercada. Era como se as outras estatuetas temessem aquela silhueta que a todas as outras ofuscava. Na prateleira final estava um cinzeiro de cristal e um fino arqueiro, vestido de amarelo, com uma pena no seu chapéu singelo, que no arco se apoiava.

            Estava decidido, o soldado faria o que era preciso, e pularia para o cômodo vizinho. Na primeira tentativa, como era esperado, aconteceu o que o capitão havia explicado. Assim que sai da tela, a forma do soldado se esfarela. Voltando para a tela, onde antes havia estado, tentou mais uma vez e conseguiu o mesmo resultado, mas, obstinado, não desistiu. Desta vez, com cuidado, colocou só o braço que, com um piscar de olhos, ruiu. Tentou novamente, colocou a mão para frente e com sua forte vontade percebeu que a mão permaneceu inteira. Com o esforço suava, e ao mesmo tempo exultava porque agora via o que era seu perdurar em um mundo que sempre o enxotava. Forçou ainda mais a vontade e com vivacidade colocou para fora a cabeça. Manteve-se inteiro e olhando daquele jeito pode ver as cores do mundo real. Nunca imaginara que a vista que a tela lhe passara pudesse ser tão diferente. O mundo não era quadriculado, mas sim verde amarelo e azulado, com as bordas redondas, algumas pontudas, outras rombas, com movimentos fluídos e inesperados, nada era programado. Tudo tão inusitado. O soldado levou a cabo sua luta e conseguiu saltar até o chão. Lá de onde estava viu que, além de correr, ainda tinha uma escalada para poder encontrar a sua amada. Correu pelo tapete e deu um grito em falsete com o susto que tomou. No tapete da sala aparecia na sua cara um monstro malvado. Mas ele não sabia que uma barata fedida não devia ser temida, sim esmagada com a sola do sapato. Mas o soldado assustado era muito pequeno e com a sola da sua bota deu um chute na cachola da barata, que saiu voando assustada.

            Depois deste pequeno contratempo o soldado foi confiante e pulou na estante para iniciar a subida. Com pouco esforço chegou ao lado da sua querida, só que ela parecia não estar interessada. Tudo que o soldado via era uma garota fria, que olhava para frente com uma expressão vazia. O soldado. Pulou e esperneou fez caretas e dançou, mas a moça alaranjada ficava parada. Era muito frustrante para um homem de guerra fazer cenas como aquela e ser ignorado. Ficou indignado, qualquer resposta seria melhor resultado, mesmo que fosse um “não” exclamado. O soldado furioso tropeçou e caiu. Ficou com tanto medo, perdeu a vontade que o deixava inteiro e apareceu na tela desolado. Neste momento voltou o garoto ávido pelo jogo e de nada suspeitou. O soldado se movia, abaixava, lutava e morria como fora programado. O que o garoto não sabia era aquilo que o soldado sentia. O soldado assustado pulava e chutava, só que por dentro, estava com o coração despedaçado. De noite novamente o soldado inteligente foi procurar o capitão. O mestre paciente explicou delicadamente que o que ele conseguira não tinha precedente. Nenhum personagem de jogo, deste ou de outro, conseguira no mundo do outro lado, dar sequer um passo. De maneira excelente, o capitão disse eloquente “a gente é o que sente, não o que sentem por você”. O soldado amuado, foi para o seu lado sem se sentir reconfortado. Pensou mais um pouco e viu razão naquele comandante aplicado. O amor era dele, e o que ele sentia não podia lhe ser roubado. Sentiu-se renovado e no outro dia viu sua amada, a garota alaranjada com o olhar congelado. Que figura fazia, apesar de fria, a moça do outro lado. Se sentiu inspirado e, com maestria, foi naquele dia que viu o jogo terminado. Com o menino no comando chutou, abaixou, levantou e socou os bichos malvados. Naquele dia tudo lhe parecia um alvo parado, para cada monstro suado um soco estava guardado. O menino solitário, vendo seu soldado assustado lutando tão inspirado mal pode acreditar. Menino e soldado, os dois lado a lado, não podiam parar. Os monstros pulavam e de dor urravam quando os socos e chutes eram aplicados.

            De noite no jantar o menino foi aos pais explicar a aventura vivida. O soldado inspirado havia o jogo terminado. E assim seguiu o dia a dia, menino e máquina sintonizados, vendo os bichos pulverizados. E todos os dias o soldado sentia seu amor revigorado, porque agora sabia que ele era o que sentia e seu lugar estava guardado. Mas a monotonia aos poucos foi chegando, enquanto a rotina se repetia, o menino solitário do jogo ficou enjoado. Logo saiu com a mãe que, com o ouvido cansado, levou o garoto para buscar um jogo não jogado.  Chegou em casa e retirou o jogo do soldado e o colocou de lado. Capitão e comandado ficaram amuados, sabiam que seu momento havia chegado. Apareceriam novamente se um amigo insistente ainda não tivesse aquele jogo zerado. E assim, no dia a dia, o soldado, no jogo enclausurado, só sentia, aquela dor tão doída que de um amor nunca encontrado.

            Em um dia inesperado o soldado foi convocado. Ele pulou de alegria porque sabia que encontraria aquele objeto tão amado. Mas para seu espanto, quando olhou para o canto não viu na estante a figura radiante da menina alaranjada. O menino solitário não imaginava que o motivo pelo qual jogava errado, era o soldado preocupado. Na cabeça dele só pensava onde será que estava a menina alaranjada. Finalmente o menino pausou e foi procurar a mãe. O soldado destemido não pensou no perigo e da tela saltou. A vontade era tanta que o soldado permaneceu intacto, nenhum pixel estremeceu. Pela sala correu escalou a estante e em menos de um instante já estava ao lado do arqueiro. Este não se movia e independente do desespero sentido, a pergunta eloquente não foi respondida. Foi quando o soldado olhou para cima, um pouco mais para o lado e viu um movimento inusitado. O índio moreno com seu arco pequeno apontou uma direção. Sem hesitar um momento, o soldado foi correndo para a porta que o índio apontara. Viu de repente, toda cheia de detergente a estátua amada. Sem medo da morte, contou com a sorte, porque a mãe do menino estava sorrindo e ao menino procurava, em um jogo de pique. Com um pulo monumental, chegou ao lado da beleza, aquela moça real estava sendo lavada na pia. O soldado cansado chegou ao seu lado e nenhum sorriso via. Tentou novamente dançar, falar suavemente, ainda assim a menina não se movia. Foi quando ouviu os passos no azulejo, passos da mãe que voltava e viu que aquele era seu momento. Olhou para a menina alaranjada com a cara espumada e pediu com fervor “me dê só uma prova do seu amor”. Foi quando, para sua surpresa, uma lágrima saiu do olho amado. O soldado aliviado deu um beijo roubado nos lábios da moça de vestido alaranjado. Quando a mãe chegou na cozinha viu a moça sozinha com detergente escorrendo. Terminou o serviço e quando foi para a estante, em um movimento hesitante a boneca se partiu. Apesar do pesar, não havia como remendar e o lixo se abriu. O menino solitário voltou para a sala e quando viu a tela não acreditou no que viu. Não havia soldado só os bichos malcriados, com seu bafo malcheiroso. O que ninguém sabia é que na terra mais linda, pelo capitão prometida, o soldado apaixonado segurava ao seu lado, uma menina, de vestido alaranjado.