Raposas

            Yahiko era um rapaz de sorte. Seus avós chegaram do Japão há cerca de cinquenta anos para tentar uma vida melhor no Brasil e haviam sido muito bem sucedidos, adquirindo grandes fazendas no país. Após a morte de sua avó a administração das fazendas ficara a cargo de seu pai, filho único, mas o avô decidira continuar morando na fazenda. Takanori era um bom homem e os negócios só prosperaram sob o seu comando. Havia se casado cedo e por ser filho único quis uma família bem grande. Tinha tido cinco filhos homens, todos eles motivo de grande orgulho para os pais. Yahiko era o mais novo. O garoto tinha doze anos e estudava em uma das melhores escolas de São Paulo. Com 12 anos, não tinha grandes dificuldades na escola, tinha bons amigos, mas não conseguia sentir-se sortudo. O garoto era frequentemente pego olhando pela janela para a chuva que escorria pela janela de seu apartamento melancólico. A mãe sempre perguntava o que estava acontecendo e o menino olhava com seus grandes olhos castanhos e dizia “nada”.

            Mas esta sexta feira o menino estava diferente. Estava eufórico. E todos sabiam o porque. A família ia passar o fim de semana na fazenda com o avô. Aquele era o único lugar que o garoto gostava. Desde o nascimento Yahiko fora bem diferente dos irmãos. Quase nunca chorava, era sempre quieto e teve um amor à primeira vista com o campo. A fazenda era próxima e em cerca de três horas já estavam olhando para as árvores e pastos que o menino tanto gostava.Um pequeno riacho atravessado por uma ponte de madeira marcava a entrada da fazenda. Em frente estava a plantação de soja no terreno mais plano. Seguiram pela estrada lateral por um tempo e o terreno começava se tornar mais íngreme. Ali não se via mais soja, somente grandes pastos cheios de gado. Pouco mais acima ficava a sede. Como a sede ficava em uma região mais alta, era possível se ver a fazenda inteira da varanda, e sentir o frio vento que soprava durante a noite. Atrás da sede era uma área de reserva. A nascente do riacho que haviam cruzado na entrada, ficava lá, e o velho patriarca sabia a importância de preservar as nascentes. Portanto havia uma grande área intocada de floresta logo atrás da fazenda, e era onde Yahiko passava a maior parte do seu tempo quando visitavam o avô.

            Quando chegaram, o garoto correu e deu um forte abraço no avô, um viúvo de 87 anos, com uma vitalidade que somente a sabedoria oriental seria capaz de explicar. O ancião abraçou o neto, o levantou no ar e olhou profundamente dentro dos olhos castanhos. Não disseram uma palavra. Quase nunca trocavam uma palavra, mas todos tinham a certeza de que eles compartilhavam um segredo. Um segredo que nenhum dos dois ainda sabia qual era, mas ambos sabiam que estava lá. Colocou o garoto no chão que foi logo para o quarto onde suas roupas de fazenda eram guardadas. Tirou o tênis, o boné e a calça nova que sua mãe havia comprado ontem, e colocou suas velhas botinas, um casaco de lã cinza surrado e as calças discretamente rasgadas na barra. Já ia correndo para o quintal, mas sua mãe pegou uma capa de chuva para o menino e o obrigou a usar. Deu um beijo carinhoso na sua testa e acariciou suavemente seus cabelos pretos e lisos. Enquanto observava aquela feliz criatura correr pelo quintal desejou ter o entendimento silencioso que ele compartilhava com o avô, mas logo afastou o pensamento e foi conversar com o marido sobre o que comeriam no jantar.

            Yahiko caminhava com firmeza por entre os galhos da floresta tão conhecida. Ele já conhecia as trilhas e quase chamava as árvores pelo primeiro nome. No ano passado havia descoberto um ninho de canarinhos com os filhotes ainda sem nenhuma pena. Guardou aquele segredo para si, mas todas as semanas ia ver os filhotinhos. O dia que não os viu mais foi um dos dias mais felizes. Ele sabia que eles tinham aprendido a voar. A floresta sempre trazia surpresas para os curiosos.

            Caminhou até a nascente e observou a água cristalina do pequeno laguinho. Sempre se perguntara como os peixes conseguiam chegar até aquela nascente. Deviam ter sempre estado lá. De repente ouviu um ruído. Parecia um animal mas ele não sabia identificar qual. Inicialmente ficou com medo e correu por alguns metros na direção oposta do barulho, mas logo parou. A curiosidade superou seu medo. Escutou atentamente para tentar identificar a direção de onde vinha o som. Foi caminhando com passos cautelosos e tirou o pequeno canivete que tinha no bolso de trás da calça. Com a arma em punho o garoto se aproximou sorrateiramente do barulho.  Todo cuidado era pouco. Estava muito próximo mas ainda não conseguia ver o que fazia aquele barulho que agora já lhe soava familiar. De repente, pisou em falso e quase caiu em um buraco, mas com agilidade conseguiu se segurar em um galho próximo. Olhou para baixo e viu uma pequena raposa presa no fundo do buraco sem conseguir sair. Ela tentava pular, mas o buraco era muito fundo. O garoto imaginou que deveria ter cerca de um metro e setenta de profundidade. Mais ou menos a mesma altura que ele alcançava com os braços esticados para cima. A raposa lá no fundo parecia assustada, mas mostrava os dentes ameaçadoramente enquanto circulava o buraco, sem ter como sair.

            O menino queria ajudar a raposa mas não sabia como. Se entrasse no buraco, ele também ficaria preso, e a raposa provavelmente o atacaria. Pensou e pensou mas não conseguia achar uma solução para seu dilema. A raposa apavorada se exauria tentando pular para fora do buraco sem sucesso.  Então uma ideia apareceu. O menino procurou um galho grande o suficiente para alcançar o fundo do buraco para a raposa subir por ele. Finalmente encontrou, mas era muito fino. Viu que não ia conseguir nenhum galho adequado por ali. Tirou o canivete e tentou cortar um que seria grande o suficiente, mas logo percebeu que não tinha a ferramenta adequada. Tentou jogar seu peso em um galho que estava pendendo de uma árvore mais próxima para tentar quebra-lo, mas sua mão escorregou e acabou se cortando em um espinho da madeira. Mas não ia deixar aquilo o atrapalhar. Yahiko não percebera mas a chuva que começara de mansinho estava engrossando. De repente ele percebeu que começava a entrar água no buraco, já havendo uma grossa camada de lama no fundo. Ele percebeu que se a chuva engrossasse muito o animal poderia se afogar. Não tinha muito tempo a perder.

            Foi então que lembrou-se da reforma do galinheiro. Seu avô decidira reformar o galinheiro e havia muitas tábuas grandes atrás da estrutura que seriam perfeitas. Vendo o nível de água no buraco aumentar percebeu que não tinha alternativa. Correu o mais rápido que pode até o galinheiro, escorregando e caindo algumas vezes. Pegou a tábua e começou a arrasta-la até a floresta. A tábua era muito pesada e machucava seus dedos. O corte na sua mão latejava. Segurou a tábua com mais força e a levantou-a, usando a cabeça para ajudar a suportar o peso da tábua. Conseguiu assim prosseguir mais rápido. Caiu algumas vezes. Era só um garoto carregando uma pesada tábua no meio de uma floresta. Mas aquela raposinha não ia morrer. Não hoje pelo menos. Yahiko estava determinado.

            Quando chegou ao buraco viu que a água já estava na metade do buraco. A raposa nadava desesperada, com suas últimas forças já esvaindo. Com cuidado foi baixando a tábua até o buraco. A raposa percebeu a oportunidade, rapidamente subiu pela tábua e pulou no solo ao seu lado. Deu uma olhada rápida para o garoto e desapareceu na mata.

            O menino chegou em casa com lama até a cabeça. Literalmente. Mas tinha um grande sorriso nos lábios. Quando via aquele rosto feliz a mãe não conseguia ficar brava. Mandou o garoto tomar banho e cuidou com carinho do ferimento que ele tinha na mão. O garoto contou então animado sobre como tinha conseguido salvar a raposa para a mãe que olhou com admiração para seu filho. Deu um beijo no garoto que após o jantar já estava morrendo de sono e dormiu logo.

            No meio da noite, Yahiko teve uma sensação estranha. Não sabia exatamente o que era, mas alguma coisa o fez levantar. Tomou um copo de água e viu, pela janela, que algo se movia na varanda pela janela. Abriu a porta, com o coração saltando pela boca e viu uma linda garota em pé na grama a frente dele:

-Você me salvou hoje. Eu teria com certeza morrido naquele buraco. Eu te concedo um desejo, em recompensa. Farei qualquer coisa que você me pedir.

Aquela era a menina mais bonita que Yahiko já vira. Quando olhou nos seus olhos, de alguma forma já sabia que ela era a raposa. Aquela garota com os olhos castanhos como os seus, o fitava ardentemente.  Mal ouviu as palavras que saíram da sua boca:

-Você não me deve nada. Eu fiz o que tinha que ser feito. Se existisse alguma dívida ela foi paga quando eu te vi. Você é a criatura mais bonita do mundo. Sua visão já é recompensa o suficiente.

-Eu insisto. Me peça alguma coisa. Qualquer coisa. E eu te darei.

-Eu não desejo nada que você seja obrigada a me dar. Mas gostaria de um beijo.

-Um beijo? Um beijo é um pedido delicado. Porque este beijo eu nunca mais poderei dar. Ele será o meu primeiro.

-Então você vai ganhar algo na mesma moeda. Porque é o meu primeiro beijo também.

A menina se aproximou mais um passo do garoto. O menino achou que seu coração ia explodir fora do seu peito e sair pulando pelo gramado. Segundos antes dos seus lábios se encontrarem um grito sobressaltou os dois.

-Pare! Yahiko me escute, você não pode beijar esta garota.

Os dois olharam para trás e viram o avô do garoto andando rapidamente na direção deles. Ele fez uma reverência na direção da menina-raposa e com um educado pedido de desculpas se dirigiu a Yahiko:

-Eu sei que o seu coração anseia por este beijo. Mas este não será um beijo qualquer. Será uma escolha. Eu tive que fazer esta mesma escolha quando era um jovem errante. Quando eu vi sua avó eu sabia que não queria ficar longe daquela linda figura por um segundo. Quando nossos lábios se tocaram eu nunca mais pude correr pela floresta, e sentir o vento balançando minha cauda. Eu não me arrependo dessa decisão nenhum segundo da minha vida. Mas eu sabia do que eu estava abrindo mão. Dos meus descendentes você foi o único que herdou minha linhagem. Este será o primeiro beijo de ambos. Se ele se concretizar, será selado um poderoso encantamento de amor quando seus lábios se tocarem. Como você é um mestiço, não sei se ela vai ficar ao seu lado ou se você vai ficar ao lado dela. Vai depender de qual lado seu falar mais alto.

O garoto entendeu o que o avô falava. Olhou demoradamente para a casa onde dormia sua família. Pensou no seu apartamento em São Paulo, uma caixa de concreto que só mostrava uma paisagem cinza pela janela. Lembrou-se das manhãs serenas passadas na fazenda e do olhar da raposa assustada prestes a se afogar. Olhou para a garota, e depois olhou longamente para o avô. Antes que Yahiko dissesse qualquer coisa seu avô já entendera:

-Eu sei o que você precisa fazer. Eu te dou a minha benção.

-Sou grato. Mas minha escolha não foi feita agora. Eu a fiz hoje quando a salvei.

O garoto pegou na mão da menina e a puxou para junto de si. A menina envolveu o pescoço de Yahiko e seus lábios se encontraram. Logo, uma densa névoa começou a se formar em torno daquele beijo enquanto um poderoso vento soprava. O ancião olhou para aquele vórtice mágico e não foi surpresa quando viu duas raposas no gramado, após a névoa se dissipar. O velho sorriu para os dois, agachou e afagou com carinho as orelhas de ambos. Levantou-se e viu as duas raposas correndo para a floresta, e não pode deixar de sentir um misto de inveja e alegria. Voltou para o quarto e sonhou com sua esposa. Nunca mais acordou deste sonho.