O Caótico Vazio

Eu aposto que era um dia bonito. O Sol brilhava contra o céu azul escuro, por isso um casal decidiu passear em um parque próximo à Belo Horizonte. Eles estavam distraídos com a beleza da natureza, quando um bandido armado os aborda. Ameaça a mulher. O homem se enfurece. Em um momento de insanidade, tenta contra-atacar o bandido, esquece que o bandido está armado. O bandido dispara seis tiros contra o homem, ainda assim o homem não morre. Só cai. Agonizando, ele vê o bandido violentar a mulher, repetidas vezes. Amedrontada, ela não tenta se defender, já viu que o pior, de fato, acontecer. Mesmo satisfeito seu instinto primordial, seu desejo por violência continua. Agride o rosto da mulher com socos e pontapés, para depois jogá-la em um precipício de mais de cinco metros. O bandido sorri para o homem moribundo e desaparece sob a luz do Sol que continuava brilhando, impassível, contra aquele lindo céu azul escuro.

            Eu consigo ouvir as maldições não ditas do homem que agoniza. Ele não verbaliza, (está muito fraco para isso) só pensa: “vou te matar”, “Vou te caçar até o final do mundo”, “o que é seu está guardado”. Acredita nas suas maldições. Somente o ódio é capaz de mantê-lo vivo. De repente, uma luz de esperança preenche o coração daquele homem que agoniza. A mulher, que ele dera como morta, surge do abismo. Ela, apesar do rosto machucado, não apresenta nenhum ferimento grave, por isso consegue arrastá-lo até o carro. Infelizmente ele perdeu muito sangue. A visão encantada de sua amante, viva, “não acredito, ela está viva”, faz com que o homem baixe a guarda. A esperança se infiltra na barreira de ódio, única coisa que o mantinha vivo. Ele morre. A mulher chega ao hospital com o cadáver do seu amado, implorando que a vida dele seja salva. Não tem jeito. Então ela vai até a delegacia. Implora por justiça. “Qual o nome do atacante?” “Qual a altura dele?” “Onde vocês estavam?” “O que estavam fazendo?” “Por quê estavam lá?”

            “Não sei”. “Não sei”. “Não sei”. “O dia estava tão bonito…”

            “Vamos fazer o possível, mas as chances são pequenas”

            “Eu sei”.

            O bandido nunca foi capturado. O homem morreu. A mulher, com medo, não consegue sair de casa. Sabe o que é mais triste em toda esta história? Não, não é o fato de que ela é real. É o fato de que é corriqueira. Quando pesquisei um caso para escrever esta introdução, digitei no meu site de buscas preferido somente “namorada estuprada na frente de namorado assassinado” e escolhi a melhor (pior) história de um vasto buffet macabro. A verdade, que recusamos a aceitar é: a vida não tem sentido. Nos apegamos a colóquios imberbes que nos confortam. Palavras vazias que nos enganam. Deus. Destino. A vida (morte) não se importa com nenhuma destas palavras. Ela simplesmente segue seu fluxo caótico e inexorável. Destino é um presente que o Papai Noel esqueceu de entregar. Deus existe, aquele maldito pirralho com uma fazenda de formigas.

            Os contos aqui reunidos, são diferentes da vida. Eles fazem sentido. Cada rifle colocado na parede no primeiro ato, é disparado, ao final do segundo ato. Na literatura não podemos nos dar ao luxo de ser caóticos. Precisamos amarrar todas as pontas soltas, afinal, vocês esperam um enredo coeso. E, mesmo eu tendo explicado que a vida não faz sentido algum, que fatos horríveis acontecem totalmente ao acaso, vocês não aceitam palavras ao acaso neste texto, afinal, este ainda é um texto literário. Por isso, eu escuto você gritando aí no fundo, “então por que diabos você colocou aquela merda de começo?” Calma. Eu explico.

            As histórias seguintes, parecem ter sido compiladas sem sentido algum. A esmo. Como a vida. Mas, eu sei que não é isso que vocês esperam. Sei que vocês esperam mais de mim como autor. Por isso eu coloquei uma ligação entre todas as histórias. Um elo mais forte do que qualquer liga de titânio. O fracasso. Somente o fracasso é capaz de manter esta coletânea reunida, assim como somente o ódio conseguiu manter aquele homem vivo por tanto tempo. Assim como aquele ódio, o fracasso é um elo efêmero. Vago. Não é bom o suficiente. Morre. (Eu espero).

Cada uma das minhas estórias perdeu um concurso e a cada derrota eu jurei vingança aos meus juízes. Agonizando eu esbravejava maldições mentais, arquitetava minha amarga vingança contra meus algozes. “Quando minha carreira literária me alçar ao status de fenômeno de vendas vocês vão ver.” “Cada um de vocês sentirá o cheiro ácido dos meus testículos.” Isto não aconteceu. Minha carreira morreu antes mesmo de nascer.

            Desta sequência de derrotas trago para vocês meus perdedores. Sabe o que é mais triste destas derrotas? Não, não é a próxima derrota que se segue (seguirá). Minha maior tristeza é a maldita esperança. Sou como vocês. Sou humano. Gosto de me apegar a algumas centenas de história de sucesso e convenientemente esquecer dos milhões de fracassados. Escrevo esta introdução na esperança de ser como aquela mãe solteira de trinta e sete anos que virou autora do maior best seller do mundo. Conscientemente sei que esta não é minha história. É mais fácil encontrarem, anos após minha morte, uma obra prima escondida em uma lata. Isso, depois do jornal ter escrito meu nome errado no obituário.

Soldado Assustado

Introdução

            É uma sensação maravilhosa terminar de escrever seu primeiro romance. Não importa o quão ruim sua escrita seja, é uma sensação incrível digitar aquele primeiro “fim”. Os “fim” subsequentes não dão o mesmo prazer do primeiro. Você já foi rejeitado. O mundo literário cortou sua língua, colocou na frigideira, queimou todas suas papilas gustativas e a devolveu. Você ainda consegue escrever, apesar de incapaz de degustar sua própria literatura. Mas não naquele primeiro “fim”. Aquele primeiro “fim” tem gosto de chocolate com morangos. Aquele primeiro “fim” é o último marshmallow

Eu tinha acabado de escrever meu primeiro romance quando escrevi este conto. Depois de quase cinco anos lutando contra minhas próprias limitações consegui terminar um romance de pouco mais de cinquenta mil palavras. E estava me sentindo o máximo. O mercado literário dobraria seus joelhos perante à minha genialidade. Agora era só uma questão de como fazer eles reconhecerem isso. A resposta me pareceu óbvia: concursos.

Pesquisei na internet concursos literários e me deparei com o prêmio Barco a Vapor, um concurso de literatura infantil. Sempre gostei de literatura. Em minhas primeiras lembranças estamos eu e minha irmã, deitados na cama da minha mãe, escutando sua voz calma ler uma história. As que eu mais gostava eram as de Hans Christian Andersen.

O soldadinho de chumbo é um dos contos mais bonitos que já li. Mesmo depois de adulto, a história ainda me fascina. A sutileza do final, com o improvável casal se unindo no além vida me deixou marcado para sempre. Pelo menos essa era a maneira que eu via, na época que escrevi o conto. Acho que se tentasse escrever a mesma história hoje, ela sairia um pouco mais amarga.

Engraçado que, nas regras do concurso, era explícito que não seriam aceitos poemas. Quando comecei a escrever saiu uma prosa meio poética. Algumas rimas aconteceram naturalmente. Pensei: “mais uma vez, meu gênio literário aflora”. Seria impossível ignorar esta releitura de um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil.

Aparentemente, sim, era possível ignorar. Relendo o conto, vejo que eu poderia ter feito um trabalho melhor. Tive que segurar meus dedos para não editar a história. Seria mentiroso fazer isso. Seria falsificar um talento que eu não tenho. Minha parca habilidade narrativa foi adquirida com suor e lágrimas. Nenhum talento natural. Nenhum gênio indomável. Não. Não aqui. Mesmo assim escrevi e, escrevendo sem talento, lhes dou este belo perdedor, que, em segunda mão, vocês, agora, terão o prazer de desfrutar.  

Conto

            Em uma casa alaranjada vivia uma família não muito diferente da minha ou da sua. A casa ficava na rua oito do bairro oeste, onde muitas casas parecidas se enfileiravam, mas essa,  era a única casa de cor alaranjada. Dentro da casa moravam o pai, a mãe e o filho. Filho único, sem irmãos e sua idade igualava-se ao número da rua da casa. Dentro de casa a mãe trabalhava, cuidado da limpeza do chão, da sala, cozinhava e aguardava o pai. Ele saía de manhã para trabalhar, sem parar, até o fim da tarde, quando podia sentar no sofá e assistir televisão. O interior da casa, inteiramente branco, surpreendia quem adentrava a casa alaranjada. A mãe gostava de uma casa clara onde a luz podia entrar pelas janelas e iluminar todo o interior dos cômodos. Os adultos sempre andavam ocupados e o garoto ficava um pouco solitário, porque na rua oito do bairro oeste, as crianças já haviam crescido e agora só moravam os pais idosos de filhos que, há muito tempo, da rua haviam saído. Seus pais conseguiram um bom preço comprando a casa de uma viúva que se mudara para um asilo. Quando pintaram a casa e a família foi para sua nova morada, tudo parecia novo e aconchegante, menos para o menino, que tinha deixado sua turma de amigos em um prédio muito distante. Agora o menino ficava sozinho, de vez em quando a mãe brincava um pouquinho, mas era com seu videogame que mais se relacionava, porque a rua oito, ainda por cima, era movimentada e sua mãe não deixava sequer brincar na calçada.

            O menino solitário brincava com seus amigos imaginários e com o jogo do soldado. No jogo, o soldado valente buscava salvar o presente de uma horda de criaturas que invadia a cidade. Ele recebia o comando do capitão,“vá na rua, salvar cada cidadão, sempre com medo, porque o perigo estará te esperando, mas enfrente-o com coragem, porque um imbecil que não sente medo, para mim não tem utilidade,  ele seria derrotado com facilidade pelos monstros escondidos que o pegariam em desvantagem”. E o soldado assustado saía, escondendo sua covardia, distribuindo socos e pontapés para todos os lados enquanto os bichos mal-criados com suas bocarras horrendas davam baforadas esfumaçadas tentando matar o soldado asfixiado. O menino, segurando o controle com firmeza, sempre tentava levar o soldado para o lado certo, mas algumas vezes ele ia para o errado e acabava sufocado. Então tudo começava outra vez, capitão, rua, socos e ponta pés, e mais cedo ou mais tarde aparecia o bafo mal-criado e assim, seguia a luta do soldado

 Quando a noite chegava, o soldado assustado era colocado de lado, e o menino ia para seu quarto calado, enquanto o pai sentava no sofá e via o jornal. Quando era hora do jantar, todos sentavam-se à mesa e comiam, conversando. Os pais mais escutando, enquanto o garoto contava sobre soldado, ponta pés e baforada. A família não deixava de ser feliz e, sempre que podiam, saiam nos fins de semana para compensar a criança do tempo que ela sozinha passava, mesmo que, sozinha de fato ela não estava, porque o soldado assustado a acompanhava.

            A rotina seguia, soldado lutava, menino dormia, pai chegava, mãe cozinhava, menino jogava, pai trabalhava, mão limpava, soldado morria e, para o início ia de novo e outra vez. Estes movimentos,  nunca foram ensaiados, ainda assim eram com perfeição executado. Cada coisa acontecia na mesma hora todo dia, até que, em uma tarde qualquer,  a mãe, de tanto ficar em casa ficou enfadada,  pegou o garoto e saiu de mãos dadas. Quem sabe ir ao centro, comprar um vestido, talvez um enfeite. Lembrou que havia acabado o azeite, quando viu na estante, uma jovenzinha janota com vestido e bota,  uma sombrinha na cabeça e  um chapéu de senhora,  cuidadosamente de laranja pintados. “meu Deus, mas que achado, ela tem até um cajado. Preciso comprar essa moça de porcelana, mostrar para minha irmã Joana que achado danado essa moça bonita de alaranjado vestida, segurando um cajado”. O menino não se mostrou interessado. Na verdade agora era ele que estava enfadado, queria voltar para a sala e brincar com o soldado, que em todas as tardes era sua companhia e muita falta agora já fazia. A mãe pagou sem demora e vendo a cara emburrada, tratou de fazer um mimo para o filho e levou um sorvete consigo para ver aqueles dentes brancos sorrindo, o menino salivava, só no gosto do sorvete pensava.

Chegaram em casa e tomaram o sorvete e, enquanto o filho terminava o lanche,  a mãe olhava para a boneca de relance, admirada com a beleza da menina com vestido  e botas alaranjadas e pensava “que beleza ficará minha estante”. O menino lanchou em um instante e foi procurar seu amigo soldado que aguardava paciente a oportunidade de se vingar dos bichos mal-criados. Sua mãe limpou tudo velozmente e, com o rosto sorridente, colocou a moça de porcelana na estante, como para que ela velasse pelo menino  solitário a cada jogo jogado com o soldado assustado.

            Quando o jogo começou o soldado parou. O garoto mandava mas o soldado não fazia nada. Seus pixels estavam acelerados, cada comando dado, era solenemente ignorado, ele só conseguia ver a guria que sentada na estante, aquele magnífico semblante, surgida de pixels distantes, talvez de uma nuvem saltitante, aquela deusa aparecia, de alaranjado vestida, segurando um cajado, com um olhar demorado para o soldado assustado. Mas agora, quem estava incomodado era o garoto solitário que não tinha resultado. Deixou o controle de lado e colocou o videogame no modo desligado.

            A tela se acendeu, o soldado entendeu que se ficasse parado, mais uma vez seria desligado. Resolveu mostrar, para moça do cajado do que era feito aquele soldado assustado. Na primeira vez que jogou em frente àquela linda criatura, o soldado assustado errou um bocado, deixando o menino em fúria. A cada botão apertado, o soldado errava, demorando a disparar os murros e pernadas, fazendo o menino acreditar que o jogo estava estragado, enquanto na verdade o que acontecia era que o soldado se distraía com a linda figura do outro lado.

            O garoto logo cansou de perder e foi procurar outra coisa para fazer, enquanto o soldado assustado procurou o capitão assim que o jogo foi desligado. O capitão explicou que o caso era perdido. Quando um soldado tentava ir para fora da tela, os bytes se dissolviam e voltavam ao mundo por eles vivido.  O soldado, inconformado, perguntou insistente qualquer jeito existente para encontrar a moça do vestido alaranjado. O capitão, com calma, explicou que somente depois que fossem esquecidos, o jogo partido, e o menino crescido, poderia o soldado, com a moça do vestido alaranjado se encontrar. Quando o jogo finalmente terminava e nunca mais se reiniciava os personagens valentes, aqueles que sentiam o que a gente sente, iam para uma terra bonita com cores e brisa, sem bichos malvados. Lá, eles se encontravam com os brinquedos e bonecas, carrinhos e motocicletas das crianças crescidas. Todos os bonecos sem cabeça, os ursinhos despedaçados, os carros quebrados brincavam em conjunto com os videogames passados, vivendo em um mundo merecido para aqueles que só alegria compartilhavam. Mas não eram todos que para essa terra iriam, só aqueles que sentiam e, com isso, o soldado ficou intrigado. Ele queria saber se o sentimento que julgava ter era correspondido por aquele ser colorido que na estante o olhava, enquanto ele esmurrava os monstros com bafo.

            No dia seguinte o soldado assustado acompanhou o garoto solitário na luta contra o mal. Chutou e socou os monstros que encontrou sem se distrair enquanto pensava em um plano sensato que iria de imediato leva-lo até sua amada. Em um golpe de sorte o soldado se viu mais forte para levar a cabo o plano bolado. O menino decidiu parar de jogar mas foi descuidado, deixou o videogame ligado. O que o soldado não sabia é que o menino queria mais um gole do sorvete gelado que sua mãe havia guardado. Nesse momento sozinho, o soldado viu, pela primeira vez, o cômodo vizinho. Era uma sala ampla, com cadeira mesa, estante e um sofá reconfortante.  Agora podia ver com clareza a estante onde repousava a beleza. A estante escura com três prateleiras de cada lado, com duas portas embaixo, estava inteira ocupada. Livros à esquerda harmoniosamente desarrumados, enquanto à direita uma coleção de figuras se mostrava. Havia um índio feito de barro com um arco e flecha apontados e uma coruja de olhos esbugalhados temendo o perigo. No centro, com bolas de vidro um jarro florido, com flores de vidro, se projetava, fazendo as crianças levadas temerem a estante. Na prateleira de baixo repousava exultante a garota alaranjada pelo vazio, cercada. Era como se as outras estatuetas temessem aquela silhueta que a todas as outras ofuscava. Na prateleira final estava um cinzeiro de cristal e um fino arqueiro, vestido de amarelo, com uma pena no seu chapéu singelo, que no arco se apoiava.

            Estava decidido, o soldado faria o que era preciso, e pularia para o cômodo vizinho. Na primeira tentativa, como era esperado, aconteceu o que o capitão havia explicado. Assim que sai da tela, a forma do soldado se esfarela. Voltando para a tela, onde antes havia estado, tentou mais uma vez e conseguiu o mesmo resultado, mas, obstinado, não desistiu. Desta vez, com cuidado, colocou só o braço que, com um piscar de olhos, ruiu. Tentou novamente, colocou a mão para frente e com sua forte vontade percebeu que a mão permaneceu inteira. Com o esforço suava, e ao mesmo tempo exultava porque agora via o que era seu perdurar em um mundo que sempre o enxotava. Forçou ainda mais a vontade e com vivacidade colocou para fora a cabeça. Manteve-se inteiro e olhando daquele jeito pode ver as cores do mundo real. Nunca imaginara que a vista que a tela lhe passara pudesse ser tão diferente. O mundo não era quadriculado, mas sim verde amarelo e azulado, com as bordas redondas, algumas pontudas, outras rombas, com movimentos fluídos e inesperados, nada era programado. Tudo tão inusitado. O soldado levou a cabo sua luta e conseguiu saltar até o chão. Lá de onde estava viu que, além de correr, ainda tinha uma escalada para poder encontrar a sua amada. Correu pelo tapete e deu um grito em falsete com o susto que tomou. No tapete da sala aparecia na sua cara um monstro malvado. Mas ele não sabia que uma barata fedida não devia ser temida, sim esmagada com a sola do sapato. Mas o soldado assustado era muito pequeno e com a sola da sua bota deu um chute na cachola da barata, que saiu voando assustada.

            Depois deste pequeno contratempo o soldado foi confiante e pulou na estante para iniciar a subida. Com pouco esforço chegou ao lado da sua querida, só que ela parecia não estar interessada. Tudo que o soldado via era uma garota fria, que olhava para frente com uma expressão vazia. O soldado. Pulou e esperneou fez caretas e dançou, mas a moça alaranjada ficava parada. Era muito frustrante para um homem de guerra fazer cenas como aquela e ser ignorado. Ficou indignado, qualquer resposta seria melhor resultado, mesmo que fosse um “não” exclamado. O soldado furioso tropeçou e caiu. Ficou com tanto medo, perdeu a vontade que o deixava inteiro e apareceu na tela desolado. Neste momento voltou o garoto ávido pelo jogo e de nada suspeitou. O soldado se movia, abaixava, lutava e morria como fora programado. O que o garoto não sabia era aquilo que o soldado sentia. O soldado assustado pulava e chutava, só que por dentro, estava com o coração despedaçado. De noite novamente o soldado inteligente foi procurar o capitão. O mestre paciente explicou delicadamente que o que ele conseguira não tinha precedente. Nenhum personagem de jogo, deste ou de outro, conseguira no mundo do outro lado, dar sequer um passo. De maneira excelente, o capitão disse eloquente “a gente é o que sente, não o que sentem por você”. O soldado amuado, foi para o seu lado sem se sentir reconfortado. Pensou mais um pouco e viu razão naquele comandante aplicado. O amor era dele, e o que ele sentia não podia lhe ser roubado. Sentiu-se renovado e no outro dia viu sua amada, a garota alaranjada com o olhar congelado. Que figura fazia, apesar de fria, a moça do outro lado. Se sentiu inspirado e, com maestria, foi naquele dia que viu o jogo terminado. Com o menino no comando chutou, abaixou, levantou e socou os bichos malvados. Naquele dia tudo lhe parecia um alvo parado, para cada monstro suado um soco estava guardado. O menino solitário, vendo seu soldado assustado lutando tão inspirado mal pode acreditar. Menino e soldado, os dois lado a lado, não podiam parar. Os monstros pulavam e de dor urravam quando os socos e chutes eram aplicados.

            De noite no jantar o menino foi aos pais explicar a aventura vivida. O soldado inspirado havia o jogo terminado. E assim seguiu o dia a dia, menino e máquina sintonizados, vendo os bichos pulverizados. E todos os dias o soldado sentia seu amor revigorado, porque agora sabia que ele era o que sentia e seu lugar estava guardado. Mas a monotonia aos poucos foi chegando, enquanto a rotina se repetia, o menino solitário do jogo ficou enjoado. Logo saiu com a mãe que, com o ouvido cansado, levou o garoto para buscar um jogo não jogado.  Chegou em casa e retirou o jogo do soldado e o colocou de lado. Capitão e comandado ficaram amuados, sabiam que seu momento havia chegado. Apareceriam novamente se um amigo insistente ainda não tivesse aquele jogo zerado. E assim, no dia a dia, o soldado, no jogo enclausurado, só sentia, aquela dor tão doída que de um amor nunca encontrado.

            Em um dia inesperado o soldado foi convocado. Ele pulou de alegria porque sabia que encontraria aquele objeto tão amado. Mas para seu espanto, quando olhou para o canto não viu na estante a figura radiante da menina alaranjada. O menino solitário não imaginava que o motivo pelo qual jogava errado, era o soldado preocupado. Na cabeça dele só pensava onde será que estava a menina alaranjada. Finalmente o menino pausou e foi procurar a mãe. O soldado destemido não pensou no perigo e da tela saltou. A vontade era tanta que o soldado permaneceu intacto, nenhum pixel estremeceu. Pela sala correu escalou a estante e em menos de um instante já estava ao lado do arqueiro. Este não se movia e independente do desespero sentido, a pergunta eloquente não foi respondida. Foi quando o soldado olhou para cima, um pouco mais para o lado e viu um movimento inusitado. O índio moreno com seu arco pequeno apontou uma direção. Sem hesitar um momento, o soldado foi correndo para a porta que o índio apontara. Viu de repente, toda cheia de detergente a estátua amada. Sem medo da morte, contou com a sorte, porque a mãe do menino estava sorrindo e ao menino procurava, em um jogo de pique. Com um pulo monumental, chegou ao lado da beleza, aquela moça real estava sendo lavada na pia. O soldado cansado chegou ao seu lado e nenhum sorriso via. Tentou novamente dançar, falar suavemente, ainda assim a menina não se movia. Foi quando ouviu os passos no azulejo, passos da mãe que voltava e viu que aquele era seu momento. Olhou para a menina alaranjada com a cara espumada e pediu com fervor “me dê só uma prova do seu amor”. Foi quando, para sua surpresa, uma lágrima saiu do olho amado. O soldado aliviado deu um beijo roubado nos lábios da moça de vestido alaranjado. Quando a mãe chegou na cozinha viu a moça sozinha com detergente escorrendo. Terminou o serviço e quando foi para a estante, em um movimento hesitante a boneca se partiu. Apesar do pesar, não havia como remendar e o lixo se abriu. O menino solitário voltou para a sala e quando viu a tela não acreditou no que viu. Não havia soldado só os bichos malcriados, com seu bafo malcheiroso. O que ninguém sabia é que na terra mais linda, pelo capitão prometida, o soldado apaixonado segurava ao seu lado, uma menina, de vestido alaranjado.

Justiça de Inverno

Introdução

            Não acredito em bloqueio de escritor. Talvez isso só aconteça com pessoas realmente talentosas, não sei, o que de fato sei, é que, comigo, nunca aconteceu. Tudo que preciso para começar a escrever é a paciência para sentar na cadeira em frente ao cursor piscando e escutar o barulho de teclas sendo apertadas. Agora, para criar uma história do zero, alguma inspiração é necessária. Para isso, existem os parques.

O prêmio Barco a Vapor permitia o envio de até duas obras. Logicamente, pensei: duas obras, dobro de chances. Só que estava sem nenhuma ideia para escrever um segundo conto. Depois de ficar uma meia hora olhando para a tela em branco decidi ir até o parque e fazer uma caminhada. Quando vou me exercitar prefiro correr, só que a corrida requer concentração e concentração atrapalha a inspiração. Por isso, fiz uma caminhada lenta ao longo dos cinco quilômetros do Parque Sabiá, sentindo o aroma fresco que vinha do lago e das árvores. Comecei a pensar nas histórias dos irmãos Grimm, que minha mãe lia para mim na infância quando, de repente, surgiu a ideia para o conto que se segue. Mais uma das minhas obras primas sub valorizadas…

Conto

            Há muito tempo, um casal de fazendeiros vivia em uma fazenda afastada da cidade. Não gostavam do convívio de outras pessoas porque eram muito criticados por não terem filhos. O que ninguém sabia era que tinham tentado por vários anos gerar uma criança, sem nunca ter conseguido. Em sua fazenda havia uma horta, plantavam trigo, criavam galinhas ovelhas e porcos. Para proteger os animais da fazenda do ataque de animais selvagens cuidavam de um leal mastim marrom. O cão imenso pesava 70 kg e era bem tratado pelos fazendeiros, porque fazia um bom trabalho. Até aquele dia não tinham perdido nenhum animal por ataque dos predadores que moravam na floresta em volta da fazenda. O cão era feroz com os invasores e dócil com seus cuidadores. O mastim vivia solto pela fazenda, durante o dia dormia e à noite rondava, sempre em guarda. Ninguém, animal ou ser humano, era capaz de entrar na fazenda sem ser notado pelo cachorro.

            Naquele ano, o inverno estava muito rigoroso. A neve cobria o campo, devido às fortes tempestades que assolavam a fazenda. O telhado da casa tinha uma grossa camada de gelo, até os pinheiros da floresta estavam brancos. Os fazendeiros, que viviam há muito tempo naquele lugar, sabiam como se prevenir dos rigores do clima e possuíam uma grande reserva de alimentos, feita no outono, por isso, na fazenda, ninguém passava fome. O mastim fazia sua parte, afugentando os famintos animais que tentavam caçar na fazenda. Em uma noite, a nevasca caía volumosa, mesmo assim o mastim, incansável, continuava sua rota. Foi então que viu uma grande loba negra tentando entrar no galinheiro. O mastim investiu contra a invasora, que lutou ferozmente. A loba estava magra e cansada, apesar disso não foi uma luta fácil. Ela sabia que, se não se alimentasse, não viveria para ver a primavera. Mesmo com a perseverança da loba ela não foi páreo para o cão bem alimentado. As mordidas ferozes do cão machucaram a sua carne e em poucos instantes ela estava deitada de costas para o chão com as duas grandes patas do mastim em seu peito. Dominada, a loba disse:

            -Você defendeu seu território com bravura, agora você tem a minha vida. Só que tenho uma filha. Ela nasceu há poucos dias e meu leite não a sustenta porque eu mesma estou faminta. Aqui vocês vivem com tanto, só queria um pouco para salvar a minha filha.

            -Nesta terra eu vivo com meus senhores. Esta casa, estes animais e plantações são deles, por isso não posso te ajudar. A floresta está cheia de animais para caçar. Não vou deixar que fique com nenhuma galinha, mas vou poupar sua vida, pela sua filha.

            -Agradeço. Vou buscar minha filha para que você a mate primeiro. Depois mate a mim. Deixar que eu saia daqui sem nada é o mesmo que cortar minha garganta. Pior até. Os animais que conseguiram fugir do inverno saíram da floresta e os que ficaram estão bem protegidos, esperando o inverno acabar. Faz dias que não como e não conseguirei caçar com estes machucados. Entre morrer de fome e morrer por suas presas, prefiro a segunda opção.

            O mastim não soube dizer o que aconteceu. Não sabia se era alguma coisa nos olhos ou algo na voz da loba que o fez hesitar. Ele virou as costas, como se fosse deixar aquela loba esquálida morrer de fome. Então, foi ao galinheiro, matou uma galinha velha e gorda e entregou para a loba. A loba, que já contava por certa sua morte e de sua prole, demorou meio segundo para entender o que estava acontecendo. Pegou a galinha com a boca em um movimento brusco e correu em direção às árvores, sem dizer uma palavra. Antes de entrar no meio da floresta, olhou para trás e viu o cachorro altivo que a observava. Fez um aceno com a cabeça e correu para o meio da vegetação.

            No dia seguinte os fazendeiros não notaram a ausência da galinha. Eles tinham muitos animais e aquela era uma galinha velha, que já não botava ovos, não era notada pelos donos. Continuaram sua rotina, só que perceberam um fato estranho.  Apesar do dia já estar avançado, o mastim ainda estava acordado. Após a nevasca do dia anterior, era de se esperar que o cachorro estivesse cansado, provavelmente dormindo. Mas o cão andava pela fazenda tentando sentir o cheiro de alguma coisa invisível no ar. Apesar da estranheza, os fazendeiros não deram maior atenção para aquilo. O que o cão tentava farejar, ou não, era assunto dele. O que não sabiam, era que o mastim tentava farejar o cheiro da loba negra vista no dia anterior.  Por algum motivo o cachorro não conseguia esquecer aquela loba magrela que precisava de comida. Mesmo tentando o dia todo, não conseguiu sentir nenhum cheiro até que o cansaço o dominou e foi dormir

            Enquanto isso, a loba alimentava sua filha. A lobinha ainda bebia somente leite, mas a carne de galinha que a loba comera havia aumentado o leite da mãe. As duas estavam bem alimentadas pela primeira vez em todo o inverno. Só que a experiente loba sabia que aquela não seria a solução final e, na noite seguinte, levantou-se mais uma vez para caçar. Precisava continuar se alimentando para ter esperança de sobreviver ao rigoroso inverno.  A loba procurou em cada toca e em cada galho por esquilos ou coelhos que pudesse comer, mas não conseguiu encontrar nenhum animal. Conseguia escutar seus irmãos lobos uivando, convocando a alcateia a migrar, mas ela não conseguiria participar de uma jornada longa com uma filhotinha tão pequena. Estava sozinha, na floresta nevada. Após uma semana, conseguira nada mais do que dois esquilos, tão magros como ela. A loba sabia onde era o único lugar com comida.

            Quando a loba chegou às redondezas da fazenda, foi logo abordada pelo grande cachorro. O mastim a aguardava há dias, sabia que ela procuraria a fazenda de novo. A loba sabia que não venceria o cão, por isso nem tentou. Alguma coisa no olhar da loba mexia com o cachorro. Ver aquele animal emagrecido e sofrido enquanto ele tinha comida abundante parecia injusto. Nessa noite não havia nevasca, mesmo assim o vento era frio e cortante.

            -Eu sei que não deveria te procurar de novo – disse a loba – só que não consigo achar comida. Minha filha está faminta ainda. Eu tentei caçar, não tem nada que eu possa comer nessa floresta. Aqui na fazenda tem muita comida… por favor…

            Os olhos amarelos da loba brilhavam. O cachorro sabia que, se a loba estivesse sozinha, iria preferir morrer a pedir comida. Estava fazendo isso pela filha. O mastim a vida toda fora implacável. Nunca importara para ele quem vinha tentar roubar, o invasor era rapidamente enxotado. Só que aqueles olhos amarelos faziam sentir algo que nunca sentira. Ele não seria capaz de negar comida para ela. Não disse nenhuma palavra. Não sabia o que dizer. Foi caminhando em direção ao galinheiro com a loba atrás. No momento em que adentrou o galinheiro e pegou uma galinha com a boca, o fazendeiro o surpreendeu. Não se sabe se o fazendeiro tivera um pesadelo, ou simplesmente precisava ir ao banheiro. O fato foi que o fazendeiro, enrolado em seu roupão, saiu para a varanda e viu o mastim com uma galinha na boca e, ao lado do cão, uma loba preta e magra. O fazendeiro pegou a espingarda e foi em direção ao galinheiro. A loba fugiu correndo e se escondeu em um arbusto, enquanto o Mastim olhava para o seu dono, sem abanar o rabo. O cachorro sabia o que aconteceria. A loba não fechou os olhos. Escutou um estampido e viu a neve ser tingida de vermelho. Apertando os olhos, o homem olhou para a linha da floresta. A loba guardou em sua memória aquele olhar, para então sair correndo. Nenhuma lágrima escorreu dos seus olhos.

            Quando chegou em sua toca, teve tempo de pensar, não só no que acontecera, mas no que aconteceria. Ao matar o mastim, o fazendeiro havia condenado à morte não só o cão, mas também ela e sua filha. A loba viu sua pequena cria faminta tentar sugar seu peito seco. Em um último gesto desesperado ela foi para fora, com as patas na neve e soltou um longo lamento:

            -Oh Rei do Inverno! Suas provações foram duras e eu falhei em vencê-las. Não consegui alimentar a mim nem à minha filha. Minhas ações levaram um nobre cão à morte e não sou digna de sua misericórdia. Só que o fazendeiro foi cruel com aquele que o protegeu por tantos anos. Peço, pelo menos, que ele seja punido pela sua crueldade. Se possível, também salve minha filha. Sei que eu deveria ter feito isso, mas falhei. Imploro que dê a ela uma chance de sobreviver, para que minha linhagem não acabe. Por favor, Rei do Inverno, escute essa súplica.

            No momento em que terminou de dizer a última sílaba um forte vento sacudiu os pinheiros e derrubou uma chuva de neve no chão. Do nada, surgiu um grande velho barbudo, com um casaco de peles brancas e uma coroa de gelo na cabeça. O velho, apesar da barba e cabelos brancos, tinha os ombros largos e o porte de um guerreiro. Andava com passos firmes calçados com grossas botas brancas. A loba viu que sua prece fora ouvida. Agora, restava saber se seria atendida. O velho começou a falar com uma forte voz grossa:

            -Você me chamou e eu ouvi. Eu sempre ouço. Sua súplica é justa. Mas os fazendeiros sempre suportaram minhas provações com bravura. Eles não foram para a cidade como os outros. Não fugiram de mim, conseguiram prosperar. Entretanto, foram cruéis de fato com aquele fiel cão. Vingança não fará com que sua filha seja salva. Darei uma nova chance a todos. Os fazendeiros poderão mostrar que merecem a vida que levam e você e sua filha terão uma chance de sobreviver. Sei de uma coisa que você não sabe. O desejo mais profundo do coração dos fazendeiros.

            Ao dizer isso o Rei do Inverno tirou uma longa espada que carregava na cintura e apontou para a filhote da loba. Da ponta da espada saiu um cone de vento com flocos de neve entremeados, que atingiram a lobinha em cheio. Quando a mãe olhou novamente para a filha, a lobinha não era loba mais. Era uma pequenina bebe humana. Somente os olhos mantinham o amarelo vivo dos lobos. Rei apontou a espada para a loba e, novamente, o cone de nevasca saiu da ponta da espada, curou suas feridas, colocou um pouco de carne em sua carcaça e pintou uma faixa branca em seu dorso

            -Essa é a minha marca. Os fazendeiros conhecem as velhas tradições, saberão que você foi marcada pelo inverno.  Agora vá e faça o melhor com sua nova chance.

            A loba sentiu o vigor voltar ao seu corpo. Aquele animal esquálido que uivara na neve desaparecera, só restara uma grande loba negra com uma mecha de pelos nevados que ia da cabeça até o rabo. Então ela viu sua filha, agora humana, indefesa, enrolada em uma pele branca deixada pelo Rei do Inverno. A loba pegou a filha com a boca caminhou mansamente em direção à fazenda. Sabia o que tinha que ser feito.

            Já era manhã quando os fazendeiros viram a grande loba preta chegando na fazenda. Ao verem a faixa branca no dorso do animal, sabiam que aquilo tinha um significado maior. Até que viram que a criatura carregava um pacote branco em sua boca. Eles demoraram a entender o que era. Ficaram imóveis enquanto a loba se aproximava tranquilamente. Quando o canídeo chegou bem perto e deixou o pacote no chão, os fazendeiros viram que o pacote branco continha uma criança. A fazendeira, ao ver aquele presente de inverno, ficou emocionada e começou a chorar. O fazendeiro segurou suas lágrimas e abraçou a esposa enquanto ela pegava a garotinha no colo. A loba deixou a criança com os novos pais e se deitou na varanda. Só aí que os fazendeiros perceberam que não tinham ganhado somente uma filha. Ganharam também, um novo cão de guarda.

            Aquela manhã foi incomparável naquela fazenda solitária, localizada na mais profunda clareira da floresta. Os fazendeiros exultavam de alegria com a criança. Trataram de pegar um pouco de leite de cabra aqueceram e deram para a menina, que mamou com avidez. A fazendeira brincava com a menina e a abraçava. A criança até já sorria para os novos pais e se divertia com as tentativas deles de entretê-la. Só não chorava.

            O inverno passou rápido com todos bem alimentados e aquecidos. Como nos tempos do mastim, nenhum animal ousava se aproximar da fazenda, agora que a grande loba marcada pelo inverno a protegia. Os poucos predadores, que ousavam tentar abocanhar algum dos bichos, ao ver o tamanho da loba que vigiava, fugiam. Em retribuição, fazendeiros alimentavam-na bem e a respeitavam. Enquanto isso, o deslumbramento por terem conseguido uma filha, ia passando aos poucos. Logo perceberam que a garota trazida para sua casa pela loba era diferente. A garota se desenvolvia muito rápido e, ao final do inverno a menina conseguia andar pela casa toda e dizer algumas palavras. A menina não se assustava, era quieta e obediente, mas inquiria seus pais com seus olhos grandes e amarelos. Nunca chorava.

            Quando chegou o inverno seguinte a situação na fazenda havia mudado. Os animais se multiplicaram sob a vigilância constante da loba. O bebê recebido no inverno anterior já tinha o desenvolvimento de uma criança de quase dez anos. A menina tinha cabelos pretos, a pele muito branca, era magra e formosa. Os fazendeiros a colocavam para fazer quase todas as tarefas, algo que ela sempre fazia com um sorriso no rosto, apesar de alguma coisa inefável em seu olhar. Os fazendeiros pareciam se incomodar com aqueles olhos. Nunca a agradeciam. Como não podiam reclamar, já que o trabalho era feito com perfeição, arranjavam mais alguma coisa para ela fazer. A garota colocava comida para as galinhas, colhia o trigo, fazia o pão, cozinhava o café da manhã, tirava a neve da porta da casa, colocava água para os porcos e lavava a louça. Quando tinha algum tempo livre ela o usava para brincar com a loba lá fora. As duas corriam pela neve, pulavam e, nos raros dias totalmente livres, entravam na floresta e iam até um pequeno riacho de águas velozes que nunca se congelavam, tentar pegar algum peixe. Por mais que estivesse frio, a menina era sempre vista com roupas leves e parecia não precisar dos grossos casacos de pele que os fazendeiros usavam. Além disso, gostava de deixar os cabelos pretos soltos enquanto corria entre as árvores.

            O inverno daquele ano não fora nem de longe tão rigoroso quanto o anterior. Houve poucas nevascas e o frio foi menos intenso. À medida que os dias passavam, a convivência entre os fazendeiros e a menina ficava cada vez mais estranha. Eles haviam visto o desenvolvimento assustador daquela menina, que olhava pra eles com seus grandes olhos amarelos e sorria quando a mandavam fazer alguma coisa. E nunca chorava.

Quando se sentavam à mesa de jantar, sentiam que ela estava os observando, testando. Era como se o próprio senhor do inverno olhasse através dos olhos dela. Em pouco tempo ela foi convidada a comer sozinha na cozinha, coisa que a menina aceitou com um sorriso e um olhar. Agora, os fazendeiros comiam e olhavam apreensivos para a porta da cozinha, esperando ver a garota a qualquer momento.

            Na primavera, não só a floresta, mas a garotinha também floresceu. A medida que a neve descongelava ela ficava mais formosa. Um dia, chegou a hora de fazer a primeira viagem para reabastecer os estoques de sal, comprar frutos, sementes e vender os animais que se multiplicaram no inverno, sob a proteção da loba. A fazendeira mandou a menina arrumar a carroça com os produtos para troca, arrear o cavalo, fazer o almoço, tudo tinha que estar preparado para a viagem do casal. Só que, na hora da viagem, o fazendeiro pediu para a mulher ficar em casa e pediu para que a moça o acompanhasse. A fazendeira ficou com ciúme, mas não disse nada. Deixou aquele sentimento dentro dela, o que fez o ciúme se transformar em rancor. Ao chegarem a cidade, todos ficaram assustados com a visão da jovem vestida de branco. A moça parecia deslizar pelas lojas ao lado do fazendeiro. Enquanto eles faziam suas trocas, todos olhavam para a garota, que respondia aos olhares com um sorriso. Se alguém perguntava, o fazendeiro respondia dizendo que ela era uma moça que haviam encontrado faminta na floresta e agora os ajudava na fazenda. A menina sempre confirmava a história com um aceno de cabeça. Quando o fazendeiro foi comprar sementes, deixou a garota na carroça. O filho do dono da loja, que aparentava ter a mesma idade da menina, aproveitou que ela estava sozinha e começou uma conversa. Ela conversava com o garoto animada, contando sobre a floresta cheia de neve, sobre os pássaros e estrelas que via na fazenda. O garoto havia tocado no ombro da menina no exato momento que o fazendeiro voltou com as sementes. Ele afugentou o garoto, o ameaçando com uma enxada enquanto vociferava que aquela moça estava sob seus cuidados. A jovem somente sorriu para o fazendeiro. Esta foi a primeira e última viagem da menina ao vilarejo.

Quando o verão chegou, a menina já era obrigada a dormir na cozinha e fazia sozinha todas as tarefas da casa. Dormia em um pequeno colchão sujo próximo ao fogão, mas nem isso conseguia diminuir a beleza da garota, que parecia aumentar a cada dia. Por mais que ela trabalhasse, seu vestido estava sempre alvo, como a neve, e seus cabelos pretos, como a noite. A fazendeira tentava dar o máximo de trabalho para que a menina ficasse mais feia, só que não adiantava. O fazendeiro, começava a jogar olhares duvidosos para as curvas da jovem, curvas que o vestido de verão não escondia. Alheia a tudo isso, a loba corria pelo gramado verde e úmido, aproveitando o tempo livre, já que no verão a comida era abundante e não havia nenhum animal tentando matar as galinhas e porcos da fazenda. Durante as noites mais quentes, apesar do grande número de tarefas a serdesempenhadasna casa, quando todos estavam dormindo, a garota deitava no gramado com a loba e juntas procuravam estrelas cadentes.

            No outono as preparações para o inverno começavam, e com isso todos tinham que trabalhar dobrado. Salgavam os porcos, colocavam as frutas em conserva, curtiam o couro, cortavam lenha, colhiam a horta. Era tanto serviço, que os fazendeiros foram obrigados a ajudar. Com o trabalho a velha fazendeira ficava cada dia mais velha, enquanto a jovem fazia suas tarefas com um sorriso e um agradecimento. A velha via o fazendeiro levantar-se no meio da noite e só voltar para a cama de manhã. Ela sabia o que estava acontecendo. Só não disse nada.

 A loba algumas vezes sumia no meio da floresta só voltando tarde da noite. Mesmo assim não sofreram nenhuma perda causada por predadores selvagens, portanto os fazendeiros não tinham o que reclamar. Como o outono estava se prolongando um pouco mais do que o normal, era esperado que o inverno daquele ano fosse mais frio que o anterior. Isso só fazia com que todos trabalhassem mais e ficassem a cada dia mais mal-humorados.  No outono a loba negra começou a engordar. Inicialmente ninguém notou, a não ser a jovem mulher de olhos amarelos, porém não disse nada. Nos primeiros dias do inverno o peito da loba já estava inchado. Após alguns dias todos viram a loba ficar deitada e bem quieta. Logo os fazendeiros finalmente entenderam o que estava acontecendo. A loba estava entrando em trabalho de parto. Ao ver que a grande loba negra com sua faixa branca nas costas dera a luz a dois lindos lobinhos o fazendeiro ficou possesso.

            -NÃO ACREDITO. Não vamos poder alimentar mais duas bocas nesse inverno. Essa loba irresponsável tinha que engravidar!

            -Não tem problema – disse a fazendeira. – É só pegar aquele saco de linho e colocar os dois lobinhos dentro. Nós podemos soltar os dois no meio da floresta onde ninguém nunca vai achá-los.

            – Você está certa mulher, pegue o saco pra mim.

            A velha voltou com o saco de linho na mão e entregou ao fazendeiro. Assim que o homem pegou o saco a menina pegou na mão do fazendeiro e disse:

            -Você vai deixar aqueles dois filhotes morrerem de fome e frio no meio da floresta?

            -O que mais eu posso fazer, não posso alimentar mais duas bocas nesse inverno. Logo esta fazenda irá se tornar um canil.

            – Tem comida para todos nós. Assim que eles crescerem eles sairão daqui. Lobos são animais independentes.

            -A comida que temos é para mim e para minha esposa. Já temos que dividir com você e com essa loba. Não posso arcar com mais duas bocas para alimentar. Vou pegar os dois lobinhos e soltá-los no meio da floresta.

            O fazendeiro se desvencilhou da moça e caminhou em direção aos filhotes, quando ouviu uma voz rouca dizer:

            -ACHO QUE NÃO!

            O fazendeiro virou para trás e viu os olhos amarelos da garota, só que o rosto ao redor dos olhos não eram mais o de uma garota, mas os de uma imensa loba negra. O homem correu em direção à sua espingarda, só que a loba foi mais rápida. A fazendeira viu as paredes tingidas com o sangue de seu marido ajoelhou-se e pediu piedade à loba. A criatura ignorou a velha ajoelhada à sua frente. Depois, correu pela fazenda, soltou todos os animais espalhou a comida armazenada ao relento, chamou sua verdadeira mãe para que voltassem para a floresta. A loba perguntou:

            – O que você vai fazer com a velha?

            Sua filha respondeu, enquanto lágrimas afloravam em seus olhos pela primeira vez em sua vida:

            – Vou fazer por ela, o mesmo que ela fez por mim. Nada.

            Uma figura familiar pairava no ar, observando a alcateia retornar para a floresta. Ele repousava a mão esquerda na enorme cabeça de um cachorro marrom e sua mão direita no punho da espada. O Rei do Inverno virou-se para o cão e disse:

            – Você acertou ao salvar a vida daquela loba, não foi mesmo?

            O mastim não disse nada. Só observou a imensa loba com a faixa branca no dorso entrando na floresta ao lado de sua filha mais velha, seguida pelos dois filhotinhos, sentindo saudade daquilo que nunca teve.

Fotografia

Introdução

            Câncer é uma doença que me apavora. Desde a época da faculdade tenho um medo patológico de neoplasia. Não é a doença mais grave do mundo. Não é a doença mais cruel. Ainda assim é a doença que mais tenho medo. Acho que porque, durante meu segundo ano de faculdade, o primeiro paciente que atendi tinha uma neoplasia pulmonar inoperável, sinônimo de sentença de morte, não uma morte qualquer, mas uma morte lenta e dolorosa. Aquele primeiro contato deixou marcas profundas na minha alma, marcas que se refletem na minha escrita até hoje.

            Somado a esse medo patológico de câncer, li um estudo que mostrava que mais de cinquenta por cento dos casais são adúlteros. Um dia, minha esposa tinha que ir para um plantão e, logo antes dela sair, tivemos uma discussão. Uma típica briga de casal, ou seja, uma coisa banal que tomou proporções inimagináveis. Ela foi trabalhar com raiva, eu fiquei em casa com raiva. Sentei em frente a televisão, abri uma cerveja enquanto zapeava os canais. Acabei encontrando uma raridade. Um show de música em um canal que tem música no nome, mas atualmente está especializado em reality shows. Era um artista novo, que eu acreditava não gostar muito, só que eu simplesmente não conhecia muito. Nesse dia conheci a canção Photograph do cantor Ed Sheeran. Logo que o show terminou, desliguei a televisão e, sentindo os efeitos iniciais do álcool, comecei a escrever.

            Quando reli o conto sóbrio, gostei do resultado. Poucos dias depois descobri o Prêmio OFF FLIP. Foi necessário editar um pouco o conto, ele tinha ficado maior do que as especificações do prêmio, nada muito dramático. Gostei mais do conto editado do que do original.

Conto

            Três horas da tarde. Finalmente sozinho. Tomou um grande gole de whisky e olhou novamente para a foto que segurava na mão direita. Lembrava do dia que ela tinha comprado aquela moldura. A moldura simulava madeira envelhecida, com ranhuras horizontais e uma cor de carvalho realmente bonita. Anita chegara em casa com um sorriso, uma sacola e foi para o quarto revirar as antigas fotografias, “comprei isso pra você não esquecer de mim nem enquanto estiver trabalhando”. Voltou segurando a foto na mão e enlaçou um braço em volta de seu pescoço “essa imagem não é perfeita? Para sempre ficaremos aqui, atrás desse vidro, abraçados, nos amando.”

            Agora ela estava a sete palmos. Mesmo assim, continuavam abraçados, dentro daquela moldura.  Na maior parte das fotos de casais existe um terceiro. Quando não é o fotógrafo, é a pose que se obrigam a fazer para eternizar uma imagem de perfeição. Aquela era diferente. Nenhum dos dois viu que estavam sendo observados. Estavam em uma praia inglesa com um grupo de amigos e os dois tinham se afastado um pouco para ficar sozinhos. O vento cortava de tão frio, ela vestia um casaco branco e o cachecol de lã rosa. Lembrava de tê-la carregado e brincado que ia jogá-la na água, enquanto ela gritava com alegria. Acabou chegando perto demais até que uma onda mais forte veio. Ele bem que tentou se afastar, mas desequilibrou e caíram na areia grossa da praia enquanto a onda molhava suas pernas. Ficaram sentados rindo com força. Ela deu alguns tapas em seu ombro, enquanto o ajudava a se levantar até que ele se aproveitou e deu-lhe um abraço. Envolveu os braços, os seios e as costas de Anita em seu abraço de urso, a levantou e deu um beijo em sua bochecha enquanto ela gargalhava. Era esse momento que estava na foto. Esse momento que nunca voltaria. Mas eles pra sempre ficariam dentro daquelas quatro paredes cor de carvalho, congelados… apaixonados…

            Tomou outro gole do whisky. Cowboy. Não conseguia sentir a bebida fazendo efeito. Ainda não. Os dedos manchados de nicotina seguravam a moldura com uma força desnecessária. Anita tinha insistido tanto para que ele parasse de fumar, sem sucesso. Agora, eternamente sem sucesso. Podia dizer isso. Eterno… era muito tempo…

            De repente levou um susto, que o tirou de seu transe. Pousou a foto na escrivaninha e pegou o celular. Era seu filho. O mais velho. Sempre se fingindo de preocupado. Colocou o telefone no silencioso e deixou que chamasse. Não queria falar com ninguém. Nunca mais. Os filhos, de uma forma instintiva já estão prontos para enterrar os pais. Por mais doloroso que possa parecer ver uma criança, que acabou de perder a mãe, chorando enquanto a cova é preenchida com terra vermelha, a dor desse garoto não se compara à dor do pai que está enfiando as unhas com força nas mãos para não chorar. Portanto, pra que falar com o idiota do filho? Ele sempre achava que tinha todas as respostas. Quando o câncer foi diagnosticado, há dois anos, ele foi o primeiro a apontar o dedo. “Foi culpa sua, que fumou na cara dela a vida inteira”. Os outros irmãos o seguraram e levaram-no para fora. Marcos ficou em silêncio. Se era culpa dele, porque seu pulmão estava limpo? Por que Deus não dera o câncer a ele? Ele era o fumante, ele merecia morrer. Ela que deveria ter que aplicar a morfina enquanto ele gritava pela dor das metástases ósseas. Era ela que deveria ter que carregar o corpo emagrecido da sala para o carro e de lá para o hospital, após a crise convulsiva. Ela que devia ter sentido os ossos frágeis se mexendo através da pele frouxa, enrugada, sentindo o cheiro de suor e sangue que escorria da boca dele, porque durante a crise seus dentes tinham encontrado seu lábio inferior com violência. Era ela que ficaria a noite passada acordada, vendo a batalha vã das doze costelas se esforçando para colocar um pouco de ar dentro dos pulmões. Era ela que devia ter suspirado com um alívio primitivo quando a batalha finalmente acabasse. Ela deveria ter que escutar o choro dos filhos no telefone. Mas Deus é um cara engraçado e sua diversão é doentia. Todo o futuro que se esforçara para conseguir fumando duas carteiras de cigarro por dia fora transferido, dele, para ela. E as manchas de nicotina estavam lá. Para mostrar quem era o culpado…

            Pegou a garrafa, encheu o copo de novo e pegou a foto com as duas mãos. Meu Deus, Anita era bonita. Fora bonita. Por mais que nosso cérebro saiba que vamos envelhecer, nosso coração reluta em aceitar isso. Se alguém dissesse para aquela garota loira que as covinhas de seu sorriso iam se afundar e se perder em um mar revolto de pele e rugas ele sabia exatamente o que aquela menina ia responder… “eu vivo o momento, amanhã eu me preocupo com o amanhã.” Anita era assim. Aos 25 anos, não sabia que, 30 anos mais tarde ia chegar em casa ao meio dia de domingo e levar um tapa que quebraria seu nariz. Se achava tão esperta, tão sorrateira, mas ele podia lê-la como a um livro. Marcos havia aprendido a reconhecer os olhares da esposa no início do relacionamento e os anos só os deixaram mais evidentes. Há dois meses ele começara a ver algo estranho nos olhos dela quando dizia que ia sair. Uma escapada rápida da íris para a direita. Não era necessário ser um detetive para descobrir quando a mulher estava traindo. Bastava ter vontade de saber. Ativou o GPS do telefone dela e foi até o lugar. Na vida real ninguém tem um sexto sentido quando está sendo seguido. Ninguém espera ser descoberto. Todos se acham capazes de fazer o crime perfeito. Quando viu que ela estava na casa do colega de trabalho que ele odiava fez sentido. Seu ódio era certeiro. Seu amor aparentemente não fora. Mas seu ódio nunca o decepcionara. Voltou para casa e esperou ela chegar, com o revólver na mão. Quando escutou a chave ser girada na porta, escondeu a arma embaixo da almofada do sofá. Não teria coragem de atirar. Levantou-se e deixou seu braço descer com toda a força. Ela não lhe deu aquele clássico olhar de “o que foi isso?”. Não foi aquele olhar. Foi o olhar de “ele descobriu”. Ficou deitada no chão, pedindo desculpas com o nariz sangrando. Anita ficou imóvel, chorando, não dizia mais nada. Não fez qualquer coisa para se defender de outros ataques, ataques que nunca vieram. Aquele tapa doía em sua mão. Como pudera fazer aquilo? Foi obrigado a fazer a única coisa possível. Única coisa que seu orgulho deixava. Disse que ia fazer as malas para sair de casa, ela se levantou, imediatamente, pedindo para que ficasse. Disse que nunca mais faria aquilo etc, toda aquela hemorragia de palavras que o coração classicamente sangra. Quando percebeu que não estava funcionando, pegou o porta-retratos cor de carvalho no escritório, correu para sua frente empunhando a foto como um pastor empunharia a bílblia ao exorcizar um demônio. Entre lágrimas gritou “vamos voltar a ser este casal, nós nos afastamos, me desculpe, eu sinto saudade desse casal, nós somos este casal, não me deixe”. No final ele não deixou. Tinha muito medo de morrer sozinho. Por mais que todas as células do seu corpo gritassem a palavra “corno” em uníssono ele não conseguiu ignorar aquela mulher sangrando e chorando. Não quis abandoná-la. Abraçou-a e ficaram assim por um longo tempo, antes de irem ao hospital. Disseram que ela havia caído, e os médicos não perguntaram de novo. Se tivessem insistido talvez tivessem ouvido a verdade. O merdinha do filho mais velho sabia disso? Não, não sabia. A mãe tinha sido enterrada como uma santa. E continuaria assim.

            O casamento não foi o mesmo depois daquilo. Mesmo após terem feito amor naquele dia, os dois sentiram alguma coisa se partir. O elo começou a ficar mais fraco com o início do caso e terminou de se partir com o tapa. Por mais que naquela noite ainda tivessem conseguido rir do gesso no nariz, o sentimento de cumplicidade não estava mais lá. E o engraçado é que aquele sentimento ressurgiu, após dez anos. Não ressurgiu com o nascimento do primeiro neto, com a segunda lua de mel, mas apareceu de repente, junto com o câncer. Só depois do diagnóstico que voltaram a ser o antigo casal de namorados. Quando o médico disse as palavras ela segurou seu braço, enfiando o rosto no seu ombro e começou a chorar. Se ele pudesse colocar o dedo no momento em que voltaram a ser um casal, seria aquele. Após o choque e a tristeza inicial, a rotina começa a voltar. E com a rotina voltaram os sorrisos, as piadas. Aquele dia em que foram experimentar perucas após a queda do cabelo. Não conseguiam segurar as gargalhadas. Cada um acabou comprando uma e foram jantar no restaurante mais caro da cidade para estreá-las. Lembrava-se do jeito que deram as mãos, até seus olhares e sorrisos se encontrarem. Anita deixou cair uma lágrima, e sorriu de novo, “estava com saudade” disse. Marcos ficou engasgado. A puxou para mais perto e deu um beijo sorvendo a lágrima que escorrera para seus lábios, sentindo o gosto salgado. Foi naquela noite que decidiram fazer uma viagem. Tiveram aqueles quinze dias na Argentina, um mês após o fim das sessões de quimioterapia. Quimioterapia inútil por sinal. Não destruiu uma célula cancerosa sequer. Mas eles tiveram aqueles quinze dias. Aquilo fora especial. Por mais que seus filhos não quisessem que fossem, o casal insistiu. Os filhos viram que estavam errados quando notaram o bom humor e a vida que aquela viagem trouxe para a face da mãe. Que audácia tentar roubar aquele momento dela. E dele também. Marcos merecia um descanso tanto quanto ela. Uma pena que 27 dias depois os sintomas começaram a piorar. Foi diagnosticada a primeira metástase óssea. Começaram as dores que os acompanharam até o fim.

            Esvaziou o copo mais uma vez. Ainda olhava a foto. Repousou-a um momento na mesa para encher o copo de novo. Começava a sentir o álcool alterando seu raciocínio. As lágrimas tinham embaçado seus óculos. Arremessou-os na parede, afinal nunca mais iria usá-los. Deus poderia abençoá-lo com uma parada cardíaca, naquele exato momento, enquanto bebia seu whisky e segurava a foto com as mãos trêmulas. Seus filhos estavam formados, casados e empregados, ele não era mais necessário. Mas Deus sempre fez ouvidos moucos às suas preces, por que dessa vez seria diferente? Ainda bem que Deus não é o único capaz de conceder paradas cardíacas. Pela última vez repousou a foto e o copo. Tirou o paletó, a gravata e levantou a manga da camisa. Com a gravata fez um torniquete eficiente. Viu as veias de seu braço envelhecido se ingurgitarem com seu sangue espesso. Enfiou a agulha com precisão e usou seu polegar, seu velho polegar manchado de nicotina, para empurrar o êmbolo da seringa.

O Prisioneiro

Introdução

            A inspiração para a história é muito clara. Eu tinha acabado de ir ao Chile e, na viagem, lido On the Road, do Kerouac. Nenhum dos resultados dos outros concursos tinha saído, quando escrevi este conto, por isso minha confiança continuava alta. Quis experimentar um pouco e escrever sobre minhas próprias lembranças, talvez praticar um pouco mais as descrições (minha maior dificuldade, até hoje), na tentativa de melhorar minha técnica de escritor, me tornar um profissional ainda melhor (eu tinha certeza de ser bom… sinto falta dessa certeza).

            Escrevi este conto para participar de um concurso de contos da minha cidade, chamado Flor do Ipê. Um dos jurados tinha sido meu professor de literatura durante o segundo grau e sempre elogiava minhas redações. Eu sinceramente acreditei que este concurso estava no papo. Como era um concurso promovido pela universidade, eles não lançariam simplesmente os nomes dos vencedores, mas sim, dariam notas para todos os participantes, por isso, o resultado do prêmio demorou mais de um ano.

            Quando o resultado finalmente saiu, fui olhar com o coração pulando freneticamente. Vi que meu nome não estava entre os premiados. Decepcionado, conferi as notas, na esperança de ter ficado bem colocado, pelo menos. Tirei seis, redondo. Catalão jogara um filho de suas entranhas na sarjeta. Aquela nota quase me fez desistir de escrever. Talvez fosse melhor se tivesse desistido…

Conto

Guilherme já estava há mais de 2 horas no aeroporto de Guarulhos e ainda faltavam outras 3 horas até que saísse o voo para Santiago. Pegara um voo pela manhã em Goiânia bem mais cedo do que o necessário, mas preferia esperar no aeroporto do que correr o risco de perder o avião. Além disso, esperar nunca fora um problema. Havia previsto o tempo ocioso e, exatamente por isso, não levou nenhum livro. Gostava de ir à livraria no aeroporto, examinar as possibilidades de aventuras que poderiam acontecer no caminho. Em viagens, preferia ler coisas mais leves, nada que o fizesse pensar muito. Depois de ficar olhando para os livros por um bom tempo, optou por uma bonita edição de “On the Road” de Kerouac. Havia visto o filme há poucos meses e aquela ansiedade louca por viver dos protagonistas era emocionante. Algo bem diferente da vida que ele tinha planejado tão cuidadosamente, vida que, agora, parecia tão distante.

Era um bom arquiteto, tinha ideias que, além de boas, eram originais, porém sabia que nunca chegaria a ser genial e não se importava com isso. Com a ajuda do pai conseguiu bons contatos, portanto, sempre havia algum projeto esperando para ser começado assim que o anterior terminava. Gostava muito do que fazia, por isso não se preocupava tanto em tirar férias. Se tivesse pensado mais nisso, talvez estivesse fazendo essa viagem acompanhado, mas estava sempre preocupado com o dinheiro que precisava para começar a construir sua casa, pagar a festa de casamento, ajudar a noiva a trocar de carro. Essa economia toda foi boa, porque tinha muito dinheiro guardado quando pegou Letícia em flagrante com um homem que nunca tinha visto. A primeira reação de choque foi seguida pela fúria, que rendeu ao amante três ossos da face quebrados e cinquenta mil reais de indenização, pagos relutantemente por Guilherme.

A viagem não fora cuidadosamente planejada. Estava sozinho em casa, bebendo após o término do longo relacionamento e viu na televisão um especial sobre o Chile. Desde o longo drama dos mineiros que ficaram aprisionados embaixo da terra por mais de três meses tivera um interesse especial no país. O programa mostrava as diferentes paisagens que iam da Patagônia gelada ao deserto do Atacama, passando por lagos cristalinos e vulcões ainda em atividade. Após uma rápida pesquisa na internet decidiu pousar em Santiago, conhecer a cidade, depois alugar um carro e sair em direção a Puerto Montt, pegando o caminho mais longo para poder conhecer as três casas de Pablo Neruda. De lá pegaria o avião que o levaria de volta para a capital, daí para casa. As passagens foram compradas na mesma madrugada que vira o programa, porém só reservou hotel em Santiago. Queria ter a ilusão de liberdade, por pelo menos 15 dias.

Devido à longa espera conseguiu adiantar-se bastante na leitura e, felizmente, o avião saiu na hora exata. O tempo estava bom e a viagem não teve muita turbulência. Ficou no assento próximo à janela e torceu para ao seu lado sentar uma mulher bonita. O desejo foi atendido, mas a mulher estava com o namorado, ou marido, não conseguiu ver se tinha aliança no dedo. Da próxima vez elaboraria melhor seu desejo. Dormiu a maior parte da viagem, não acordou sequer quando passou o serviço de bordo. A passagem pela alfândega não foi nenhum problema nem se demorou no “duty free”, preferiu deixar as compras para o retorno.

Comprou o ticket do táxi no aeroporto e partiu rumo ao hotel que ficava no bairro Providencia, uma região nobre de Santiago com fácil acesso ao metrô e aos pontos turísticos. Andava com o vidro aberto, sorvendo aquele ar estrangeiro que tinha um cheiro diferente, uma emoção diferente. Absorvia o clima chileno a cada inspiração. Olhou com entusiasmo para o céu e viu a Lua crescente sorrindo para ele. Devolveu instintivamente o sorriso. Alguma coisa dentro dele sabia que, depois daquela viagem, sua vida não seria a mesma.

            Na manhã seguinte, acordou sem precisar de despertador. Engoliu seu café com velocidade, pediu informações sobre como chegar ao metrô em um “portunhol” razoável e saiu animado. Em pouco tempo caminhava pelo centro examinando o mapa turístico que tinha em mãos. A “Chascona”, casa onde vivera o poeta Pablo Neruda, não era muito longe da estação de metrô de onde descera. Pagou a entrada e pegou o fone que o guiaria pela visita. Dentre as várias opções de língua, estava o português. Colocou-o nos ouvidos e adentrou a casa-museu.

            Depois de começada a visita percebeu que aquela talvez não tivesse sido a melhor escolha para alguém que acabara de ser traído pela noiva. Tudo na casa exaltava o amor do casal que ali vivera. Até mesmo as grades das janelas. Era horrível. Enquanto passeava pela casa só conseguia se lembrar do sorriso de Letícia e do jeito manhoso que ela tinha quando acordava. Pensava naquele tempo, quando ainda iam ao cinema, ela esmagava seu braço durante os filmes de terror. Estas imagens eram sobrepostas pela imagem de outro homem em cima dela. Apesar de ter conseguido segurar o choro, preferiu não terminar a visita. Saiu e foi em direção ao cerro San Cristovão.

            Chegando lá existia a opção de subir pelo “funiculair”, um pequeno trem que levava e trazia as pessoas do topo do monte, porém optou por subir a pé. Precisava da companhia de seus pensamentos por mais tempo e, um pouco de suor, deixaria sua mente mais aguçada. Iniciou a subida deixando o fluxo de imagens boas e ruins fluir. Não fez grandes elucubrações, não procurou uma epifania. Só precisava deixar que aquele fluxo se esgotasse até que, sem perceber, começaria a pensar em outra coisa. Quando concluiu a longa subida só queria beber uma garrafa de água. Sentou-se enquanto degustava o líquido insípido e sentiu a calma que o lugar transmitia. Alto falantes emitiam uma suave música sacra, que combinava com o ar religioso do lugar. Chegou à beirada e viu Santiago inteira abrindo os braços para ele. Admirou por um breve período a vista da cidade, até ouvir o clamor de seu estômago, que pedia por comida há algumas horas. Nem percebeu que seu plano para pensar em qualquer coisa que não Letícia havia funcionado, porque, se percebesse, voltaria a pensar nela de novo. E, também sem perceber o porquê, desceu pelo funiculair.

            Quando saiu do Cerro São Cristovão começou a caminhar em direção ao Pátio Bela Vista, um lugar próximo ao cerro com diversos restaurantes e lojas, como lera em uma matéria sobre o Chile. No caminho, achou um restaurante roxo que lhe chamou atenção…hesitou por um momento, mas decidiu entrar e foi agradavelmente surpreendido. O interior do restaurante lembrava uma hacienda dos antigos filmes de faroeste, tinha até mesmo uma fonte. Letícia adoraria aquele lugar. Por um momento toda a dor que ele suara para fora de si quis voltar, entretanto obrigou-se a aproveitar o momento. Pediu uma cerveja e deixou o barulho da água da fonte e a beleza do lugar ajudarem o álcool a inebriar lhe os sentidos.

            Após o almoço saiu andando em direção ao centro da cidade. Aproveitou a alegria da cerveja e passeou sem destino, virava à esquerda em uma rua, à direita na outra, passou por lugares feios, bonitos, mas todos com uma coisa em comum: estavam abarrotados de pessoas e barulho. De repente, virou à esquerda em uma esquina e chegou numa calma rua chamada Paris. Parecia um oásis no meio da cidade. Era possível ouvir o som abafado do trânsito, só que ali as pessoas andavam devagar. Mesmo os carros estacionados eram poucos e os prédios apresentavam uma arquitetura benevolente que parecia harmonizar com o ambiente. Comprou mais uma cerveja em um armazém próximo e recostou-se em uma árvore, degustando a bebida com calma. A claridade do dia ia diminuindo aos poucos, por isso decidiu pegar o metrô de volta ao hotel. Chegou ao hotel, bêbado, cansado, tirou os sapatos e dormiu vestido.

            Os dois outros dias em Santiago não foram tão bons quanto o primeiro. Ele achou que seria mais fácil conhecer pessoas viajando, só que sua timidez o atrapalhava, só conseguia conversar o necessário para pedir informações. A tentativa de ir à uma boate na esperança de conhecer alguém interessante não trouxe resultado. Após um longo período sentado no banco do bar, sem trocar uma palavra com ninguém a não ser o barman, decidiu ir embora. Aquele não era o dia dele. Saiu em direção ao hotel um pouco decepcionado consigo mesmo, porém animado pela promessa que um novo dia em um país estrangeiro trazia…

            Acordou ansioso. Chegara o dia de alugar um carro e partir em direção ao litoral para depois seguir rumo ao Sul até Puerto Montt. Passaria pela região dos lagos, um dos trajetos mais bonitos do Chile, mas não era o destino que o animava. Sim o caminho. Adorava dirigir, andar de carro. Queria se sentir um “Dean Moriarty”, talvez até dar algumas caronas no caminho. O carro era pequeno, mas como viajava com pouca bagagem sobrava espaço. Comprou um mapa das estradas chilenas e estava pronto para partir.

            A estrada era movimentada, mesmo sendo um dia de semana. Era sempre assim no verão, todos buscavam o Pacífico. Reservara um hotel pela internet, na noite anterior e fez questão de pegar um quarto com vista para o mar, apesar do preço. Há tantos anos não viajava que valia a pena aproveitar. A estrada era bonita, com uma paisagem diferente daquela que estava acostumado no centro do Brasil. Passava por vinícolas e florestas de pinheiros enquanto subia gradualmente a cordilheira em direção ao poente. Pensou que a serra seria mais difícil, porém naquela região as montanhas não eram tão altas e a viagem foi tranquila.

            Quando chegou ao hotel, foi para a varanda do seu quarto e ficou maravilhado com a visão. O Pacífico se desfraldava à sua frente, revolto e cinzento. Não era uma beleza exuberante e voluptuosa, à la Rita Hayworth, sim uma beleza refinada, estilo Lauren Baccal, com seus dentes suavemente desalinhados e olhar penetrante que conseguiam deixar até Humprey Boggart babando. Abriu a garrafa de vinho que estava em seu frigobar e degustou o horizonte. Inebriado pela beleza sentiu uma inquietação em seu peito que não podia guardar para si. Pegou o laptop e começou a escrever. Escreveu sobre o que sentia e o que via, escreveu sobre si, escreveu sobre o vento e viu como era difícil descrever o céu. Quando o surto de inspiração passou, já era noite e tinha 10 páginas escritas. Ao reler, viu que não estava tão ruim, apesar de precisar de alguns ajustes. Com a sensação de dever cumprido e uma pitada de inspiração ainda sobrando, foi perguntar ao recepcionista onde poderia achar um bom bar por ali.

            Não precisou andar muito para encontrar um lugar legal para tomar cerveja. Naquela noite estava se sentindo confiante. Olhou para uma garota que lhe retribuiu o olhar e devolveu-lhe um sorriso de troco. Foi o que bastou. Com pouco tempo de conversa já estavam se entendendo apesar de não falarem a mesma língua. Ela era peruana, estava viajando com duas amigas há uma semana e ainda tinha mais duas semanas para viajar. Meus Deus, aqueles olhos negros seriam capazes de fazer um homem se afogar. E o jeito que ela tirava o cabelo do rosto para colocá-lo atrás da orelha! Os dois ficaram conversando até os garçons começarem a empilhar as cadeiras. A garota olhou para os lados percebeu que suas amigas já tinham ido embora. Guilherme começou dizendo que podia acompanha-la até o hotel onde as amigas estavam, mas, em um ato de coragem, disse “a não ser que prefira vir até o meu”. Isabella disse sim.

            Ao chegarem ao hotel, os dois sabiam o que iria acontecer, entretanto nenhum dos dois sabia por onde começar. Ele abriu a janela e viram o oceano se desfraldando à sua frente. Ela segurou na borda da sacada e inspirou o ar marinho, enquanto ele a envolveu por trás e cheirou os seus cabelos. Fizeram amor ouvindo a serenata das ondas e a percussão do vento.

            Pouco antes do amanhecer ela disse que tinha que ir embora, Isabella e as amigas pegariam um ônibus bem cedo. Os dois ainda se beijaram mais uma vez, para nunca mais se encontrar. Ele não conseguiu mais dormir. Estava muito animado para dormir por mais tempo. Decidiu ir à Valparaíso e ver a segunda casa de Neruda. Optou pelo trem. porque o trânsito do lugar para um estrangeiro não parecia ser nada fácil.

            Chegou à La Sebastiana sem dificuldades. A casa era linda, apesar de aquela nem de longe ser a vista do Oceano que mais lhe agradava. O porto ficava bem à frente abarrotado de máquinas e navios cargueiros. Sentou-se em um café e não conseguiu deixar de pensar em Letícia. Fora ela que lhe emprestara “Confesso que Vivi” antes de começarem a namorar. Pensou que ficar com Isabella iria ser uma boa maneira de superar a antiga noiva mas estava enganado. Deixou o lugar e andou a esmo pelo centro de Valparaíso. Quando se deu conta já estava de volta à estação de trem. Voltou para Viña, e foi direto ao hotel. Transformou a tristeza em criatividade. Começou a escrever e as palavras fluíram com a mesma facilidade do dia anterior, apesar de não estar sentindo toda aquela inspiração. Algum tempo depois pegou o exemplar de “On the Road” e foi jantar no restaurante do hotel.

            No dia seguinte conheceu as outras praias de Viña e entrou pela primeira vez no Pacífico. Como a água estava muito fria, acabou saindo logo, optando por ficar em um bar próximo admirando o mar enquanto degustava uma cerveja local. As pessoas pareciam não se importar com a água fria. Surfavam, construíam castelos de areia, as crianças gritavam, corriam, a praia fervilhava com a vida. Contemplou por um longo tempo até que o dia começou a escurecer. Decidiu ir logo para o hotel, porque no dia seguinte pegaria a estrada novamente

            Antes das sete horas já estava na estrada rumo à Isla Negra. Fecharia o circuito “Neruda” da sua viagem e depois seguiria em direção à região dos lagos. O caminho até lá era curto e sinuoso, com belas paisagens. Antes que se desse conta já tinha chegado ao seu destino. Muito cedo por sinal. A casa só abriria para visitação às dez horas e o relógio acabara de marcar nove. Como não havia muito o que fazer na pequena cidade, decidiu conhecer a praia que o poeta observara tantas vezes em sua vida. Chegando lá, entendeu a paixão do poeta pelo mar. O oceano se chocava contra as rochas da margem, com ritmo e violência. Ali, a vista não era de um porto, mas do Pacífico em sua magnitude, com suas águas rebeldes, areia grossa e a música agressiva das ondas. Haviam esculpido um busto de Pablo Neruda com o olhar calmo rumo ao infinito. Ele teria aprovado aquilo. Ficou somente sentado olhando para o mar acompanhado de seus pensamentos. Só que o único pensamento digno de nota foi aquele que não teve: em nenhum momento se lembrou de Letícia.

            Quando olhou para o relógio já eram dez e meia. Levantou-se para conhecer a casa e parou subitamente. Já tinha visto o mais importante. Olhou para frente, viu a varanda da casa, virou-se para ver o oceano. Um leve sorriso lhe veio aos lábios, sem que sequer percebesse. Saiu em direção ao carro para seguir viagem.

            Provavelmente não conseguiria chegar até Pucón, mas queria chegar perto. O trajeto rumo à “carretera” foi lento, apesar de curto. A estrada era estreita e o tráfego pesado. Quando finalmente pegou a estrada principal se admirou. O asfalto era invejável e todo o trajeto duplicado, com a cordilheira fazendo-lhe companhia à sua direita. Percebeu que a viagem seria mais tranquila do que imaginara.

            Parou para almoçar em um posto na estrada, preferiu comer um lanche rápido para não demorar muito. Quando estava saindo, viu dois garotos com pesadas mochilas nas costas pedindo carona. Havia visto muitos destes aventureiros pelo caminho todo, alguns em grupos outros sozinhos. Teve a sensação de que as rodovias chilenas eram mais seguras que as brasileiras, pelo número de mochileiros que via. Encostou e disse aos dois que entrassem.

            Os garotos agradeceram e colocaram a bagagem no carro. Eram dois argentinos que haviam chegado ao Chile há uma semana com pouco dinheiro e muita animação. Não pode deixar de invejar o espírito dos meninos. Desde pequeno planejara cautelosamente suas ações, quanto da mesada gastaria com doces, quanto compraria em briquedos e quanto guardaria. Seguiu este estilo por toda a vida, sempre acreditando que era o jeito certo de se viver. Porém, uma ponta de dúvida algumas vezes aparecia no fundo de sua mente: como seria andar no fio da navalha? Surfar a borda da pobreza, arriscar uma refeição por um dia de viagem a mais. Será que esse estilo de vida seria mais feliz? Mais despreocupado com certeza. Enquanto conversava com aqueles dois estrangeiros em uma linguagem mista de português com espanhol, permeada por muita gesticulação, via naqueles garotos algo que ele nunca tivera. Uma vontade de viajar, desbravar, conhecer. Não, não era isso. Via nos garotos uma vontade urgente de viver.

            Por volta de 6 horas viu uma placa que dizia “Temuco a 30km”. Já estava cansado de dirigir e não tinha pressa de chegar. Os garotos ainda queriam prosseguir viagem, por isso deixou-os na estrada principal antes de pegar a saída para Temuco. Como a cidade não era muito grande nem muito turística, conseguiu um hotel rapidamente. Depois de um breve caminhada pela cidade, deitou-se mais cedo, ansioso por prosseguir viagem no dia seguinte.

            A viagem até Pucón foi curta e, antes do almoço tinha chegado ao seu destino. A cidade estava lotada, sem nenhum lugar para estacionar. Não tinha deixado nenhum hotel reservado, imaginou que, em uma cidade daquele tamanho, não deveria ter problemas em encontrar algum lugar para dormir. Estava enganado. A cidade estava abarrotada de turistas, carros parados dos dois lados das ruas, além de um trânsito absurdo. Quando viu diversos hotéis próximos à avenida principal, decidiu parar o carro em um estacionamento e procurar um quarto a pé.

            Bateu na porta de diversos hotéis e pousadas, porém todas estavam lotadas. Na sétima tentativa conseguiu achar um quarto por um valor muito mais alto do que estava disposto a pagar porém, comparado à alternativa de dormir no carro, pareceu um bom negócio. Quando chegou ao seu quarto não se arrependeu da escolha. Ao olhar pela janela viu o vulcão Villa Rica exalando sua fumaça constante ao longe, e ficou em silêncio, hipnotizado pela imagem. O vulcão era muito mais do que esperava. Fez uma reverência solitária ao gigante nevado e foi conhecer o lago homônimo.

            A visão da margem do lago não deixou de surpreendê-lo. Com todo o movimento da cidade, era de se esperar que as margens do lago estariam cheias, ele só não esperava que estivessem tão cheias. A praia estava abarrotada de guarda-sóis. Podia ver lanchas, moto aquáticas, “banana boats”, mulheres tomando sol, crianças brincando na água. Com dificuldade conseguiu encontrar um lugar perto da margem e estendeu a toalha que havia levado. Ficou admirando o lago cristalino (o mais cristalino que já vira) e decidiu entrar na água convidativa. Arrependeu-se em instantes. A água era gelada. Guilherme não conseguiu entender como as crianças brincavam com tanta tranquilidade naquela temperatura. Só queria sair dali para se enrolar em um cobertor, porém se obrigou a suportar um pouco mais. Logo a sensação de frio intenso foi passando e se acostumou com a temperatura da água. Aos poucos o tremor que o frio lhe trazia foi sendo substituído por uma sensação suave de relaxamento. Mergulhou com os olhos abertos para admirar aquela borrada paisagem subaquática por alguns instantes e emergiu revigorado.

            Aproveitou o lago por algumas horas, sozinho, antes de decidir voltar ao hotel. Quando entrou no seu quarto o Villa Rica o convidou a sentar-se e abrir uma cerveja. Com calma o gigante lhe contou sobre a vida que havia levado enquanto exalava a fumaça de seu cigarro ancestral antes de lhe pedir calmamente para que ele contasse uma história. Guilherme, obediente, pegou seu computador e contou.

Iniciou seu relato escrevendo sobre a vontade de viajar. Começou a contar a história desde o princípio e percebeu que o nome Letícia apareceu somente em uma fração do que imaginou inicialmente. Começou escrevendo sobre o Chile e terminou escrevendo sobre si. Quando terminou, releu o que escreveu e uma lágrima de alívio escorreu do olho direito. Sentindo-se pela primeira vez inteiro, em muito tempo, adormeceu.

             Pela manhã foi conhecer os Olhos do Calburga para depois ir às termas. Aproveitou a noite em um bar sozinho. Com o avançar das horas encontrou um grupo de ciclistas que estavam indo na manhã seguinte à Puerto Varas. O grupo de cinco jovens brasileiros estava viajando há três meses de bicicleta. Paravam quando queriam parar e continuavam quando a estrada chamava. Ficaram um longo tempo conversando até que os garotos decidiram voltar ao hotel para poderem acordar cedo no dia seguinte para viajar.

            Guilherme decidiu ficar no bar até a madrugada e pagou o preço por isso. Sua cabeça latejava pela manhã. Depois de tomar o café e dois analgésicos dormiu de novo. À tarde havia pensado em subir o vulcão, mas desistiu. Não conseguiria fazer nada com aquela ressaca. Foi ao lago, mas rapidamente voltou ao hotel. Decidiu descansar para a viagem a puerto varas e pensou que seria bom se encontrasse novamente os ciclistas.

            Após a curta viagem viu o lago Llanquihue com o vulcão Osorno dormindo ao fundo. Chegou já na hora do almoço e escolheu um restaurante à margem do lago. No dia anterior reservara um hotel na cidade pela internet, para evitar a dificuldade que tivera em Pucón. Próximo à entrada da cidade havia visto um outdoor que dizia: “aqui começa a Patagônia”. Sentiu uma pontinha de tristeza. Ali era só o começo da terra do fogo, mas o fim da sua viagem. Puerto Montt, onde entregaria o carro e pegaria o avião de volta para casa, era a cerca de 40 minutos dali.

            Após deixar as malas no hotel foi conhecer os saltos de Petrohue e o lago Esmeralda, que supostamente tinha a melhor vista do vulcão. Pegou uma bela estrada que margeava o Llanquihue para chegar ao seu destino. Os saltos não o impressionaram, já o lago fez jus ao nome. A cor verde irradiava das águas calmas, enchendo os olhos e os corações dos visitantes. Fez um pequeno passeio de barco pelo lago, com o Osorno se elevando majestoso ao fundo. Em um ponto mais afastado da praia, viu uma casa de madeira de uma beleza singela, observando o lago. A casa parecia convidá-lo a ficar e conhecer a magia da mata que circundava as águas esmeraldas. Olhou longamente para aquela casa, até ela finalmente sumir de seu campo de visão. Já era hora de voltar ao hotel.

            À noite, saiu a pé, caminhando à margem do Llanquihue. Viu o cassino, mas não teve a menor vontade de entrar. Caminhou por alguns minutos até que viu o grupo de ciclistas que conhecera em Pucón sentados em um bar. Quando o viram convidaram-no a se juntar a eles. Guilherme não hesitou. Conversaram animados sobre como fora a viagem de bicicleta e sobre as preparações que estavam fazendo para enfrentar a “Carretera Austral”.

            Em algum momento da conversa surgiu o assunto de como fazia falta um carro de apoio. Guilherme tinha dinheiro sobrando. Não estava com a menor vontade de voltar para casa. Sem perceber se ofereceu. Trocaria a passagem pelo site hoje à noite e substituiria o carro pequeno por uma caminhonete 4×4 em Puerto Montt. Podia prolongar sua viagem por mais quinze dias. Talvez um mês. O projeto em que estava trabalhando não era difícil, conseguiria fazê-lo na estrada. Todos ficaram animados com a decisão do companheiro e o aceitaram como um deles. Mais um viajante andando sem rumo pelas estradas chilenas. Guilherme saiu do bar exaltado e combinou de encontrar com o grupo dois dias depois em Puerto Montt. Quando chegou ao hotel entrou na internet para olhar em qual cidade poderia entregar o carro e pegar o avião para ir pra casa. Subitamente parou e percebeu uma coisa. Não pretendia voltar mais.

Tengu

Introdução

            Eu fracassara nos primeiros concursos que participei. Uma editora tinha enviado sua negativa para meu romance e o restante havia me ignorado. Começava a perceber que a jornada pelo mercado literário seria um pouco mais árdua do que imaginei inicialmente. Estava procurando mais concursos de contos para participar quando me deparei com o prêmio Bunkyo.

            O tema do conto inscrito tinha que ser o contato entre o folclore brasileiro e o japonês. Quando estava na faculdade me interessei muito pelas religiões e mitos de diversos países. Tinha ido além da mitologia grega e lido sobre a cultura popular africana, japonesa, indiana, nórdica. Não tinha me aprofundado muito, mas acabei conhecendo muitas criaturas interessante e os tengus tinham me deixado fascinado.

            Criaturas mitológicas, mestres na arte da espada, que, além disso, tinham uma pitada de malícia. Na época que escrevi o conto, estava lendo um mangá chamado Lobo Solitário, uma obra prima em quadrinhos sobre um ronin assassino de aluguel. Somado a isso, na infância, tinha sido um ávido leitor de Monteiro Lobato. Tive certeza de que fora o destino que colocara aquele concurso na minha frente e não a busca do google por “concursos literários”.

Conto

            Takezo não estava em sua cama. Megumy foi acordar o garoto que precisava se arrumar logo para ir à escola, mas não o encontrou. Inicialmente acreditou que o menino acordara mais cedo, talvez estivesse no banheiro, mas em uma busca rápida não conseguiu encontrá-lo em qualquer lugar da casa. Seu coração começou a acelerar e a mulher começou a gritar histericamente.

            – O que foi que aconteceu? – disse Ujio, pai de Takezo.

            – Takezo! Ele não está em lugar algum.

            -Você procurou direito?

            – Claro que procurei. Ele não foi te ajudar no curral?

            -Claro que não. Ele nunca faz isso.

            -Ai meu Deus! Onde será que ele se meteu?

            -Calma que eu vou chamar os rapazes que vieram me ajudar a separar o gado. Vamos encontrá-lo

            Não encontraram. Ficaram o dia todo procurando pelo campo, adentraram o bosque, procuraram no pasto. A mãe avisou os professores, os colegas de sala, além de procurar em hospitais e ir à delegacia, mas o garoto parecia ter evaporado. Após um longo tempo de trabalho duro, a vida do casal estava começando a ficar mais tranquila. Eles só não contavam com o acaso. A vida sempre nos reserva provações quando menos esperamos. O sol se punha, quando a esposa viu o marido voltando do campo acompanhado de dois homens adultos.  Nenhuma criança. Megumy acreditou que conseguiria não chorar mais, que suas lágrimas tinham se esgotado. Enganou-se. Seu marido, quando viu a esposa em prantos, disse:

            -Vamos achá-lo, tenho certeza. Venham rapazes, as lanternas ficam por aqui.

            Após a saída dos homens Megumy ficou novamente sozinha em casa. Tentava repensar os passos do filho, alguma coisa que pudesse ajudá-la. Quando se acalmou, lembrou-se das antigas histórias que seu avô lhe contava. Percebeu que precisava de ajuda. Uma ajuda inumana. A mulher iria procurar todos os meios para encontrar seu garoto. Tirou os sapatos, cuidadosamente colocou as meias dentro, olhou pela janela e viu o monte que ficava a cerca de dez quilômetros da sede. Deixou um bilhete para o marido e saiu descalça na direção do monte. Logo começou a chover. Melhor assim.

             Caminhou com a chuva fria assolando suas costas.  Parou por um momento para tirar o quarto espinho que se alojara na sola de seus pés.  Quanto maior a dificuldade, mais certeza tinha que seu sacrifício seria ouvido. O terreno ficava mais íngreme à medida que adentrava a mata. Ao cruzar o pequeno riacho, sentiu alívio misturado à ardência, quando a água fria tocou seus pés. Agradeceu silenciosamente e prosseguiu. O final da subida foi o mais difícil. Uma parede de pedras impunha-se à sua frente. Ela tentava procurar frestas com as mãos e pés, enquanto as rochas eram manchadas pelo seu sangue. Venceu o último obstáculo estoicamente e, quando percebeu, suas roupas já estavam secas. A chuva parara há mais de uma hora, ela sequer percebera. Seus joelhos reclamaram quando se sentou com as pernas cruzadas. Engoliu a dor e disse:

            -Pássaro que anda em forma de homem. Só posso oferecer meu suor e meu sangue em sua honra. Encontre meu filho. Encontre meu filho. Pelo meu suor, pelo meu sangue, encontre a criança perdida.

            A prece pareceu estranha quando dita em português, mas não sabia se os espíritos daqui entenderiam japonês. Para garantir, preferiu falar nas duas línguas. Escutou um forte vento e, ao longe, ouviu uma revoada de pássaros. Continuou com as pernas cruzadas e fechou os olhos com o esboço de um sorriso. Sua prece fora ouvida.

            Atrás da mulher uma sombra moveu-se silenciosamente. Uma sombra que só seria vista por olhos humanos se quisesse. A sombra fez uma reverência à mulher à frente sem que ela percebesse. Caso ela tivesse se virado poderia ver uma esguia criatura vestida com um quimono preto, coberta por um manto, também preto. Um olhar atento conseguiria distinguir o cabo prateado de uma kataná escondida no manto, mas a surpresa maior estava reservada para quem encarasse o rosto. No lugar de uma face humana estava um longo bico de corvo com dois olhos negros e profundos. Após a breve reverência, a criatura saiu em disparada rumo à casa de onde a mulher saíra.

            O tengu sabia que, para localizar a criança, tinha que ver o lugar de onde desaparecera. Instintivamente sabia que a casa estaria aberta. Foi até o quarto do garoto. A cama estava desarrumada, ou seja, o menino dormira ali na noite anterior. A janela fora fechada por dentro, o tengu conseguiu discernir as marcas dos dedos femininos que tocaram-na. A mulher demorara mais de 24 horas para chamá-lo, tinha dúvidas se conseguiria encontrar Takezo com vida, apesar de ter certeza que o encontraria. Abriu a janela com dedos ágeis e empoleirou-se no parapeito. Olhou cuidadosamente o chão próximo da janela e viu marcas sutis, semelhantes a pés, porém com uma forma grotesca, inumana. Conseguiu discernir os rastros que chegaram e os que iam embora. As pegadas, que eram estranhamente grandes, à medida que se afastavam da janela, iam tomando uma forma arredondada, semelhante a cascos. Com seus olhos afiados viu a assinatura sobrenatural nas pegadas da criatura, agora, assim que pousasse os olhos no raptor o identificaria. Seguiu a trilha monstruosa com velocidade.

            À medida que se aprofundava na floresta a trilha ficava mais difícil de ser seguida, mas os olhos hábeis do tengu sempre conseguiam localizar aquela estranha pegada em meio à vegetação coberta de lama e, quando não conseguia, os pássaro apontavam a direção correta. Apesar de não conhecer muitas das espécies que viviam por ali, um pássaro é um pássaro, portanto conseguia se comunicar sem dificuldades. Estava prosseguindo com cautela quando sentiu que estava sendo observado. Ficou imóvel em posição de batalha, com a mão esquerda pousada cuidadosamente na bainha de sua espada.  Destravou-a com um movimento firme do polegar. O clique ressoou no silêncio etéreo que se fez. A mão direita segurou o cabo da kataná firme, enquanto seus olhos procuravam seu observador misterioso. Então ouviu:

            -Ei amigo. O que você procura na minha floresta?

            O tengu olhou para cima e viu um garoto com os cabelos vermelhos,vestido somente com uma bermuda feita de vegetais, sentado displicente em um galho de árvore. Na escuridão, viu que havia algo de errado com os pés da criatura, porém sabia que aquele não era quem procurava. Disse com firmeza, sem tirar a mão da espada:

            -Vim procurar um garoto. Quem é você?

            -Pode tirar a mão dessa espada – disse o estranho, descendo da árvore com um salto – eu não quero lhe fazer mal, só não gosto de quem vem caçar meus animais.

            -Não vim caçar. Só quero encontrar Takezo. Se você não ficar em meu caminho também não lhe farei mal – disse o tengu soltando a katana.

            -Você é um sujeitinho estranho. É novo por aqui?

            -Minha terra é muito longe. Vim com o espírito dessa família. Não conheço estas árvores, mas os pássaros estão me ajudando. Não terei problemas em concluir minha missão.

            -De fato os passarinhos falaram de você. Mas a criatura que você procura não vai te entregar o menino. E ele não é tão legal quanto eu.

            -Você sabe quem raptou a criança?

            -Sei. Se você morasse aqui, também saberia, assim que visse as pegadas. Você vai precisar de ajuda contra ele.

            O tengu ponderou em silêncio por um momento. O garoto com os pés estranhos na sua frente, não parecia ser muito poderoso, mas qualquer um que consegue observar um tengu sem ser visto, merece respeito. Além disso, estava de em um terreno que não conhecia, procurando um inimigo cujas habilidades eram um mistério para ele, habilidades que o garoto parecia conhecer. Por mais que confiasse na sua espada, ajuda oferecida de boa vontade nunca deve ser rejeitada:

            -Eu aceito de bom grado sua ajuda, pequeno. Sabe por onde temos que ir?

            -Claro que sei. O Touro Negro não faz questão de se esconder. Ele quer ser temido. Como posso te chamar?

            – Os humanos nos chamam de tengu. Minha família me chama de Karasu.

            -Pode me chamar de Caipora. Me siga… se conseguir!

            O garoto com seus pés esquisitos corria na velocidade do vento. O tengu pulava, pegava impulso nos troncos e galhos, desviando-se com acrobacias, das árvores e arbustos. Não seria deixado para trás. O Caipora foi reduzindo sua velocidade, olhou para trás e colocou os dedos entre os lábios pedindo silêncio ao companheiro. Subiram em uma árvore e, quando olharam para baixo lá estava Takezo, dormindo em uma cama de folhas. Parecia um sono agitado, o garoto se debatia sem parar. Ao seus pés um grande homem estava sentado, com uma enorme cabeça de touro, completamente negra, com chifres igualmente negros. A criatura observava o menino à sua frente e tinha algo parecido com um sorriso em seus lábios. O Corvo pulou de seu observatório com agilidade e caiu logo atrás do homem-touro, sentado à sua frente, sem fazer questão de ser silencioso. A criatura à sua frente se pôs de pé em um instante, seus olhos se inflamaram e disse:

            -QUEM É VOCÊ? O QUE FAZ AQUI? VÁ EMBORA!!!

            -Me chame de Corvo. Se você não me entregar Takezo, eu serei sua morte.

            -Pequenino, ousa me desafiar? Há alguns anos eu teria te matado com o olhar. Mas as mães não se lembram mais de mim. Os garotos não temem o boi da cara preta. Mas eu te digo uma coisa… EU NÃO SEREI ESQUECIDO.

            Com esse grito final, o corpo masculino foi se transformando em um corpo de boi, preto como a noite. Era possível escutar o bufar da respiração forte que saía de suas narinas. O Caipora observava, estupefato, a audácia de seu amigo. Não acreditou que ele estava pensando em enfrentar o Touro Negro em um combate.

            O grande animal investiu contra Corvo, que teve somente um instante para se desviar. O rasgo em seu manto mostrou a ele que seu adversário era rápido e perigoso. Quando passou pelo tengu, o touro desferiu um poderoso coice que foi defendido pela katana, manejada habilmente. Quando tentou usar novamente os chifres, Karasu estava preparado e desferiu um golpe certeiro arrancando o chifre direito do touro. Mesmo assim, a criatura não desistiu e acertou a pata dianteira no rosto do adversário. O tengu caiu de costas para o chão e Touro Negro se preparou para esmagar seu inimigo, porém este foi mais veloz e rolou para a esquerda. Quando as patas do touro encontraram o chão macio, o tengu deu um golpe certeiro com a katana e arrancou sua pata direita. O grande bovino foi adquirindo novamente a forma humana, enquanto urrava de dor. O tengu esperou seu inimigo vencido se recompor. O Touro então disse:

            – Só queria que as mães voltassem a cantar minha canção. Não me importo em ser o vilão. Só não deixe que me esqueçam.

            Karasu viu quando o Touro Negro abaixou a cabeça, lhe oferecendo o pescoço, mostrando orgulho na hora da sua morte. Ele fora um inimigo honrado. Merecia uma morte honrada. Com um movimento rápido de sua espada decepou a cabeça do animal gritando:

            – Gomenasai

            O Tengu pegou o chifre decepado e colocou nas mãos do garoto, que agora acordava. Sem entender ainda direito o que estava acontecendo o garoto ouviu:

            – Este chifre pertenceu ao seu captor. Ensine seus amigos a teme-lo.

            Os primeiros raios de sol estavam aparecendo quando Megumy abriu os olhos. Alguma coisa no vento a fez interromper sua meditação. Olhou para casa e viu um garotinho correndo ao encontro do pai. Levantou-se da sua posição de lótus somente para ajoelhar-se novamente e dizer:

            -Obrigada! Não esquecerei o que fez por mim. Virei a este monte todos os anos, neste mesmo dia, para reverenciá-lo.

            O tengu observou aquela nobre senhora escondido pela sombra de uma grande árvore que crescia no cume do monte. Olhou para Caipora e fez um afago nos cabelos ruivos do garoto. Podia aprender a amar este novo lugar.

Raposas

Introdução

            O conto anterior, escrevi com o tema do concurso em mente, tentando me adequar o máximo possível. Já esta história, surgiu de dentro de mim. Tive a ideia para escrevê-la, logo após ler Caçadores de Sonhos, um trabalho magnífico de Neil Gaiman, ricamente ilustrado por Yoshitaka Amano. Depois que li este livro, fiquei fascinado pelas raposas na cultura japonesa, e esta história apareceu na minha cabeça quase que formada por inteiro. Foi um conto gostoso de escrever e, enquanto escrevia, consegui sentir que estava escrevendo alguma coisa especial. Talvez por isso esse tenha sido o conto que chegou mais perto de se tornar vencedor.

            No prêmio Bukyo, era permitido enviar dois contos. Enviei “Raposas” e “Tengu’, com uma esperança real de que algum dos dois fosse premiado. Não foram. Como eu disse, esse conto só chegou perto de se tornar um vencedor, não foi um vencedor de fato. Aconteceu o seguinte: depois de dois anos, recebi um e-mail da organização do concurso. Eles disseram que tinham recebido cento e setenta e um cotos e tinham selecionado trinta e uma histórias para compor uma coletânea, e este conto estava entre elas. Fiquei muito feliz, sorvendo as escassas gotas de reconhecimento que me ofereciam.

            A antologia se chamou “Quixote Sama”, nome do conto vencedor do concurso. Na noite de lançamento, os trinta e um autores compareceram a uma reunião mal organizada, na esperança de haver algo parecido com uma festa de lançamento. O que ocorreu foi uma elegia ao meu ego, enterrado sob olhares esperançosos de tantos outros autores fracassados.

Conto

            Yahiko era um rapaz de sorte. Seus avós chegaram do Japão há cerca de cinquenta anos para tentar uma vida melhor no Brasil e haviam sido muito bem sucedidos, adquirindo grandes fazendas no país. Após a morte de sua avó a administração das fazendas ficara a cargo de seu pai, filho único, mas o avô decidira continuar morando na fazenda. Takanori era um bom homem e os negócios só prosperaram sob o seu comando. Havia se casado cedo e por ser filho único quis uma família bem grande. Tinha tido cinco filhos homens, todos eles motivo de grande orgulho para os pais. Yahiko era o mais novo. O garoto tinha doze anos e estudava em uma das melhores escolas de São Paulo. Com 12 anos, não tinha grandes dificuldades na escola, tinha bons amigos, mas não conseguia sentir-se sortudo. O garoto era frequentemente pego olhando pela janela para a chuva que escorria pela janela de seu apartamento melancólico. A mãe sempre perguntava o que estava acontecendo e o menino olhava com seus grandes olhos castanhos e dizia “nada”.

            Mas esta sexta feira o menino estava diferente. Estava eufórico. E todos sabiam o porque. A família ia passar o fim de semana na fazenda com o avô. Aquele era o único lugar que o garoto gostava. Desde o nascimento Yahiko fora bem diferente dos irmãos. Quase nunca chorava, era sempre quieto e teve um amor à primeira vista com o campo. A fazenda era próxima e em cerca de três horas já estavam olhando para as árvores e pastos que o menino tanto gostava.Um pequeno riacho atravessado por uma ponte de madeira marcava a entrada da fazenda. Em frente estava a plantação de soja no terreno mais plano. Seguiram pela estrada lateral por um tempo e o terreno começava se tornar mais íngreme. Ali não se via mais soja, somente grandes pastos cheios de gado. Pouco mais acima ficava a sede. Como a sede ficava em uma região mais alta, era possível se ver a fazenda inteira da varanda, e sentir o frio vento que soprava durante a noite. Atrás da sede era uma área de reserva. A nascente do riacho que haviam cruzado na entrada, ficava lá, e o velho patriarca sabia a importância de preservar as nascentes. Portanto havia uma grande área intocada de floresta logo atrás da fazenda, e era onde Yahiko passava a maior parte do seu tempo quando visitavam o avô.

            Quando chegaram, o garoto correu e deu um forte abraço no avô, um viúvo de 87 anos, com uma vitalidade que somente a sabedoria oriental seria capaz de explicar. O ancião abraçou o neto, o levantou no ar e olhou profundamente dentro dos olhos castanhos. Não disseram uma palavra. Quase nunca trocavam uma palavra, mas todos tinham a certeza de que eles compartilhavam um segredo. Um segredo que nenhum dos dois ainda sabia qual era, mas ambos sabiam que estava lá. Colocou o garoto no chão que foi logo para o quarto onde suas roupas de fazenda eram guardadas. Tirou o tênis, o boné e a calça nova que sua mãe havia comprado ontem, e colocou suas velhas botinas, um casaco de lã cinza surrado e as calças discretamente rasgadas na barra. Já ia correndo para o quintal, mas sua mãe pegou uma capa de chuva para o menino e o obrigou a usar. Deu um beijo carinhoso na sua testa e acariciou suavemente seus cabelos pretos e lisos. Enquanto observava aquela feliz criatura correr pelo quintal desejou ter o entendimento silencioso que ele compartilhava com o avô, mas logo afastou o pensamento e foi conversar com o marido sobre o que comeriam no jantar.

            Yahiko caminhava com firmeza por entre os galhos da floresta tão conhecida. Ele já conhecia as trilhas e quase chamava as árvores pelo primeiro nome. No ano passado havia descoberto um ninho de canarinhos com os filhotes ainda sem nenhuma pena. Guardou aquele segredo para si, mas todas as semanas ia ver os filhotinhos. O dia que não os viu mais foi um dos dias mais felizes. Ele sabia que eles tinham aprendido a voar. A floresta sempre trazia surpresas para os curiosos.

            Caminhou até a nascente e observou a água cristalina do pequeno laguinho. Sempre se perguntara como os peixes conseguiam chegar até aquela nascente. Deviam ter sempre estado lá. De repente ouviu um ruído. Parecia um animal mas ele não sabia identificar qual. Inicialmente ficou com medo e correu por alguns metros na direção oposta do barulho, mas logo parou. A curiosidade superou seu medo. Escutou atentamente para tentar identificar a direção de onde vinha o som. Foi caminhando com passos cautelosos e tirou o pequeno canivete que tinha no bolso de trás da calça. Com a arma em punho o garoto se aproximou sorrateiramente do barulho.  Todo cuidado era pouco. Estava muito próximo mas ainda não conseguia ver o que fazia aquele barulho que agora já lhe soava familiar. De repente, pisou em falso e quase caiu em um buraco, mas com agilidade conseguiu se segurar em um galho próximo. Olhou para baixo e viu uma pequena raposa presa no fundo do buraco sem conseguir sair. Ela tentava pular, mas o buraco era muito fundo. O garoto imaginou que deveria ter cerca de um metro e setenta de profundidade. Mais ou menos a mesma altura que ele alcançava com os braços esticados para cima. A raposa lá no fundo parecia assustada, mas mostrava os dentes ameaçadoramente enquanto circulava o buraco, sem ter como sair.

            O menino queria ajudar a raposa mas não sabia como. Se entrasse no buraco, ele também ficaria preso, e a raposa provavelmente o atacaria. Pensou e pensou mas não conseguia achar uma solução para seu dilema. A raposa apavorada se exauria tentando pular para fora do buraco sem sucesso.  Então uma ideia apareceu. O menino procurou um galho grande o suficiente para alcançar o fundo do buraco para a raposa subir por ele. Finalmente encontrou, mas era muito fino. Viu que não ia conseguir nenhum galho adequado por ali. Tirou o canivete e tentou cortar um que seria grande o suficiente, mas logo percebeu que não tinha a ferramenta adequada. Tentou jogar seu peso em um galho que estava pendendo de uma árvore mais próxima para tentar quebra-lo, mas sua mão escorregou e acabou se cortando em um espinho da madeira. Mas não ia deixar aquilo o atrapalhar. Yahiko não percebera mas a chuva que começara de mansinho estava engrossando. De repente ele percebeu que começava a entrar água no buraco, já havendo uma grossa camada de lama no fundo. Ele percebeu que se a chuva engrossasse muito o animal poderia se afogar. Não tinha muito tempo a perder.

            Foi então que lembrou-se da reforma do galinheiro. Seu avô decidira reformar o galinheiro e havia muitas tábuas grandes atrás da estrutura que seriam perfeitas. Vendo o nível de água no buraco aumentar percebeu que não tinha alternativa. Correu o mais rápido que pode até o galinheiro, escorregando e caindo algumas vezes. Pegou a tábua e começou a arrasta-la até a floresta. A tábua era muito pesada e machucava seus dedos. O corte na sua mão latejava. Segurou a tábua com mais força e a levantou-a, usando a cabeça para ajudar a suportar o peso da tábua. Conseguiu assim prosseguir mais rápido. Caiu algumas vezes. Era só um garoto carregando uma pesada tábua no meio de uma floresta. Mas aquela raposinha não ia morrer. Não hoje pelo menos. Yahiko estava determinado.

            Quando chegou ao buraco viu que a água já estava na metade do buraco. A raposa nadava desesperada, com suas últimas forças já esvaindo. Com cuidado foi baixando a tábua até o buraco. A raposa percebeu a oportunidade, rapidamente subiu pela tábua e pulou no solo ao seu lado. Deu uma olhada rápida para o garoto e desapareceu na mata.

            O menino chegou em casa com lama até a cabeça. Literalmente. Mas tinha um grande sorriso nos lábios. Quando via aquele rosto feliz a mãe não conseguia ficar brava. Mandou o garoto tomar banho e cuidou com carinho do ferimento que ele tinha na mão. O garoto contou então animado sobre como tinha conseguido salvar a raposa para a mãe que olhou com admiração para seu filho. Deu um beijo no garoto que após o jantar já estava morrendo de sono e dormiu logo.

            No meio da noite, Yahiko teve uma sensação estranha. Não sabia exatamente o que era, mas alguma coisa o fez levantar. Tomou um copo de água e viu, pela janela, algo se movendo na varanda. Abriu a porta, com o coração saltando pela boca e viu uma linda garota em pé na grama a frente dele:

-Você me salvou hoje. Eu teria com certeza morrido naquele buraco. Eu te concedo um desejo, em recompensa. Farei qualquer coisa que você me pedir.

Aquela era a menina mais bonita que Yahiko já vira. Quando olhou nos seus olhos de alguma forma já sabia que ela era a raposa. Aquela garota com os olhos castanhos como os seus, o fitava ardentemente.  Mal ouviu as palavras que saíram da sua boca:

-Você não me deve nada. Eu fiz o que tinha que ser feito. Se existisse alguma dívida ela foi paga quando eu te vi. Você é a criatura mais bonita do mundo. Sua visão já é recompensa o suficiente.

-Eu insisto. Me peça alguma coisa. Qualquer coisa. E eu te darei.

-Eu não desejo nada que você seja obrigada a me dar. Mas gostaria de um beijo.

-Um beijo? Um beijo é um pedido delicado. Porque este beijo eu nunca mais poderei dar. Ele será o meu primeiro.

-Então você vai ganhar algo na mesma moeda. Porque é o meu primeiro beijo também.

A menina se aproximou mais um passo do garoto. O menino achou que seu coração ia explodir fora do seu peito e sair pulando pelo gramado. Segundos antes dos seus lábios se encontrarem um grito sobressaltou os dois.

-Pare! Yahiko me escute, você não pode beijar esta garota.

Os dois olharam para trás e viram o avô do garoto andando rapidamente na direção deles. Ele fez uma reverência na direção da menina-raposa e com um educado pedido de desculpas se dirigiu a Yahiko:

-Eu sei que o seu coração anseia por este beijo. Mas este não será um beijo qualquer. Será uma escolha. Eu tive que fazer esta mesma escolha quando era um jovem errante. Quando eu vi sua avó eu sabia que não queria ficar longe daquela linda figura por um segundo. Quando nossos lábios se tocaram eu nunca mais pude correr pela floresta, e sentir o vento balançando minha cauda. Eu não me arrependo dessa decisão nenhum segundo da minha vida. Mas eu sabia do que eu estava abrindo mão. Dos meus descendentes você foi o único que herdou minha linhagem. Este será o primeiro beijo de ambos. Caso ele ocorra, será selado um poderoso encantamento de amor quando seus lábios se tocarem. Como você é um mestiço, não sei se ela vai ficar ao seu lado ou se você vai ficar ao lado dela. Vai depender de qual lado seu falar mais alto.

O garoto entendeu o que o avô falava. Olhou demoradamente para a casa onde dormia sua família. Pensou no seu apartamento em São Paulo, uma caixa de concreto que só mostrava uma paisagem cinza pela janela. Lembrou-se das manhãs serenas passadas na fazenda e do olhar da raposa assustada prestes a se afogar. Olhou para a garota, e depois olhou longamente para o avô. Antes que Yahiko dissesse qualquer coisa seu avô já entendera:

-Eu sei o que você precisa fazer. Eu te dou a minha benção.

-Sou grato. Mas minha escolha não foi feita agora. Eu a fiz hoje quando a salvei.

O garoto pegou na mão da menina e a puxou para junto de si. A menina envolveu o pescoço de Yahiko e seus lábios se encontraram. Logo uma densa névoa começou a se formar em torno daquele beijo enquanto um poderoso vento soprava. O ancião olhou para aquele vórtice mágico e não foi surpresa quando viu duas raposas no gramado após a névoa se dissipar. O velho sorriu para os dois, agachou e afagou com carinho as orelhas de ambos. Levantou-se e viu as duas raposas correndo para a floresta, e não pode deixar de sentir um misto de inveja e alegria. Voltou para o quarto e sonhou com sua esposa. Nunca mais acordou deste sonho.