Introdução

Neste conto, retrato minha viagem em busca de iluminação, viagem que acredito só ter sido possível, devido ao isolamento social. Navegando pela internet, me deparei com histórias muito particulares de pessoas que consumiram drogas psicodélicas e fiquei muito interessado, porque, esses relatos, pareciam mostrar um atalho rumo à iluminação. Niilista inveterado, a ideia da paternidade me aterrorizava, não queria passar minha carga negativa para outro indivíduo por isso, queria melhorar quem eu sou como pessoa, porém sempre colocava isso para depois. Quando descobri que minha esposa estava grávida, percebi que não podia adiar mais. Aquele era o momento. Tomei a decisão de usar psilocibina, princípio ativo contido no cogumelo psilocybe cubensis, que é facilmente encontrado em sites de produtos naturais brasileiros. No dia do meu aniversário decidi partir em uma jornada espiritual sem sair de casa. Após a ingestão de cinco gramas de cogumelos, comecei a ter alucinações visuais e auditivas, descritas com detalhes no conto. A experiência foi além do que eu esperava e precisei deitar em um lugar com menos estímulos externos. Foi aí que a viagem de verdade começou. Singrei universos geométricos onde cores e formas eram mais importantes do que palavras e, no meio do caos universal, consegui descobrir que, não só o amor próprio, mas o amor de outra pessoa pode te levar à auto aceitação e auto apreciação. Consegui, finalmente, me aceitar como ser humano, como filho e como pai.

     Após escrever o conto, tive certeza de que seria aceito na antologia “Contos da Quarentena”, um concurso literário promovido pela livraria Lello. Pude ver as portas do mercado literário se abrindo, e já imaginava o que fazer com os mil euros do prêmio.

     Ontem recebi um e-mail: “…cabe-nos com grande pena, informar que seu conto não se encontra entre os selecionados.”

Conto

Vou apresentar o movimento childfree pra minha esposa. Ela anda tão preocupada com ecologia, usa sacolas retornáveis, evita plástico, quem sabe se, eu mostrar o lado ecológico de não ter filhos, ela desiste de ter. Já somos sete bilhões de pessoas, acho que o mundo não precisa de mais gente. Claro que sei que esse seria só o argumento que usaria para convencer, a verdade é diferente. Não quero ter filhos por que tenho medo de quem sou. Tenho medo de passar esses genes niilistas para minha prole. Não acho que mais ninguém mereça viver com essa carga emocional negativa. Precisava ser uma pessoa melhor. Acho que, por isso, aprofundei tanto nessa pesquisa sobre alucinógenos.

Estava pesquisando sobre o criador de uma série da Netflix, quando me dei conta, lia sobre um guru americano. Comecei a ver a série … Tá bom. Eu admito. Comecei e terminei de ver a série hoje. Eram só oito episódios, vinte minutos cada um! A série implorava uma maratona. Muito tempo livre, pouca produtividade. Acredito naquele velho ditado, se quiser que alguém faça alguma coisa, peça para alguém ocupado. Uma pessoa ocupada consegue gerir seu tempo, encaixar o que precisa ser feito nos intervalos. Quem não tem nada para fazer, se esquece, não se importa, ou se embaraça nos cabelos das próprias pernas, nunca conseguindo fazer o que você pediu. Eu só tinha que responder três pacientes hoje. Três e-mails. Coisa simples. Não respondi nenhum.

            Mas eu… Divago. Sobre o que queria falar mesmo? Ah. O guru.

            Surfando pelos oceanos digitais, acabei conhecendo esse cara, Ram Dass. Ele era um psicólogo, professor de Harvard, que conheceu Timothy Leary e os dois experimentaram com LSD na faculdade. Isso mesmo. Além de consumirem a substância, conduziram experimentos em humanos, antes da droga ser ilegal. Aparentemente as experiências psicodélicas mudaram completamente suas vidas. Ram Dass foi para a Índia, entrou em harmonia consigo mesmo e conseguiu guiar muitas pessoas na tortuosa jornada em busca da paz de espírito. Timothy Leary simplesmente conseguiu trabalhar com John. Lennon. JOHN LENNON, porra! E, apesar de LSD ser ilegal, qual não foi minha surpresa em descobrir que, no Brasil, temos ayahuasca e psiloscibes cubensis, totalmente legais.

Preciso ser uma pessoa melhor. Na minha cabeça dou entrevistas em talk shows americanos, explicando minha opinião sobre os mais diversos assuntos. “Essa dor da vida que devora, a ânsia de glória o doloroso afã”. Como se, algum dia, eu fosse ficar famoso. Hoje, no Late Show com Stephen Colbert vamos entrevistar um médico brasileiro famoso por ter se masturbado em todos hospitais que trabalhou. “Did you really masturbate in all those hospitals?” “I gotta admit Stephen, that I did. Not in front of everyone. I was alone, in the bathroom. Pretending to take a shit.” “Weren’t you afraid to get caught?” Well, in Brazil we have a revolutionary invention called lock.” A plateia vai ao delírio. Por que fantasio com isso? Por que ser famoso é importante? Por que meu ego precisa do reconhecimento de estranhos? Tenho um bom trabalho, tenho uma boa família, será que nada vai ser suficiente? Nada exterior é suficiente, se você não consegue se encontrar no interior.

Talvez os psicodélicos me tragam alguma epifania. Uma jornada de autoconhecimento, seria essa minha chance? Eu poderia parar de ser esse narcisista arrogante que acredita que os não niilistas são idiotas. Queria parar de ser esse cara. Quando minha esposa fala em ter filhos, só consigo pensar em como uma criança vai acabar com minha vida. Na minha cabeça, só entram preços de berço, preços de mensalidade, tempo gasto criando uma criança. Não. Eu não estou preparado para ter um filho. Minha esposa quer tanto… Eu não. Não queria, não quero e provavelmente não quererei. Não acho que meus genes sejam tão preciosos para serem mantidos na linhagem humana. Na verdade, acho que nenhum gene seja algo que mereça ser passado pra frente. Não sei. Isso é provavelmente só mais um das minhas justificativas egoístas para negar o sonho da maternidade à minha esposa. Sempre tenho uma pra tudo e pesquiso para fundamentar meus argumentos. Eles fazem sentido, pelo menos pra mim. O que eu queria de verdade …

            – Oi amor.

            – Meu deus. Que susto. Não vi que tinha chegado.

            – Também, não tira esse fone. Tá escutando o que?

            – Come together. Conseguiu ir à farmácia?

            – Fui sim. Pessoal de lá tá bem cuidadoso. Colocou álcool gel na porta, todo mundo de máscara

            – É. Tem que tomar cuidado mesmo. Tô meio com medo. E olha que a gente é médico, né? Tinha que estar mais preparado.

            – Doença nova, todo mundo fica meio apavorado. Vai pensando no que vamos jantar enquanto vou ao banheiro.

            – Jantar?

            – É. São quase nove horas.

            Caramba, o tempo passou rápido. Espera. Deixa eu estralar minhas costas. Comprei uns mini charutos, do tamanho de um cigarro. Bem bonitinhos. Combina bem com whisky. Hoje é sexta, tá? Me deixa. A vista da minha varanda sempre me surpreende. Gosto de ver as luzes da cidade. Gosto de ver a igreja no morro, lá na frente. Não que eu acredite em alguma coisa, mas parece que a visão da igreja me deixa mais calmo. Do que eu tava falando mesmo? Antes… Ah. Lembrei. Tava falando do que eu queria. Bom, o que eu…

            – Amor!

            – Oi!

            – Vem cá!

            – Pra que?

            – Vem logo amor.

            Aposto que acabou o papel higiênico. Ela sempre esquece de conferir se tem papel higiênico. Não vou reclamar. É ela que tem que conviver com meu mau humor, então tem o direito de esquecer a porra do papel higiênico.

            – Trouxe o papel higi… o que é isso?

            – Eu tô grávida.

            Sinto o choque roubar a força das minhas pernas e dos meus braços. Agora sei porque nos filmes as pessoas deixam cair as coisas quando recebem uma pedrada dessas. Mas, isso não é um filme. Aperto com força o papel higiênico como se, com a força das minhas mãos, eu conseguisse espremer o pavor para fora. Tendo absoluta certeza do que ouvi, digo:

            – O que?

            – Tô grávida. Comprei o teste de farmácia agora.

            Merda, merda merda merda merda merda merda!

            – Tem certeza?

            – Comprei dois. Você me conhece né? Sabe que eu ia duvidar do primeiro. Comprei duas marcas diferentes. Os dois vieram positivos.

            Raiva, e indignação fazem meu rosto ficar vermelho. Movimento childfree, genes ruins, se esvanecem no furor da minha mente. Argumentos bons. Argumentos racionais. Não tenho chance de usar nenhum. Meu planejamento egoísta voa pela janela e só consigo dizer:

            – Você não tava tomando anticoncepcional?

            – Parei. Em setembro.

            A fúria impotente emite uma fumaça caricata acima da minha cabeça. Adagas nos meus olhos penetram na carne macia da minha esposa e vejo as primeiras lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos. Forço a raiva para fora da minha cabeça em busca de clareza e percebo que não tenho direito de fazer isso. Não tenho direito de roubar esse momento. Ela não merece minha cara de idiota. Não merece minha insegurança, meus argumentos, meu egoísmo. Sempre falou que sonhava em ser mãe. Sempre. Eu que não queria. Eu que não quero. Não quero? Não é verdade. Acho que, de alguma forma, sempre soube que esse dia chegaria, só não pensei que seria hoje. Merda. Eu tô com a boca aberta ainda? Ela tá chorando. Faz alguma coisa. Faz alguma coisa! Fala alguma coisa!

            – Por que você parou?

            – Parei, só parei! Tenhoovariopolicisiticonaopenseiquefosse

            Para. Conserta. Ela tá apavorada. Corrige essa merda de reação. Vira homem. Não deixa ela chorar desse jeito.

            – Desculpa.

            Sorria. Não esse sorriso de idiota. Sorriso e abraço. Solta a porra do papel higiênico, imbecil. Não. Não faz igual em filme. Coloca na pia. A pia tá do seu lado. Isso. Agora abraça. Com as duas mãos. Respira fundo. Não deixa ela perceber que você tá completamente apavo…

            – Seu coração tá acelerado.

            – Não tem como não ficar, né?

            Olha nos olhos dela. Sorria, naturalmente. Tadinha. Os olhos tão vermelhos.

            – Não chora. Vai dar certo.

            – Eu sei que você não queria.

            – Queria sim. – mente, melhor mentir, igual naquela música do Jamie Commons “don’t tell me no truths I want all of your lies” – Me pegou meio de surpresa, mas achei ótimo. Vamos pedir uma pizza pra comemorar?

            – Você acha que a gente conta pra todo mundo?

            – Acho que não. Vamos esperar 12 semanas.

            Ela sorri. Eu digo:

            – O que?

            – Vai dar no dia do seu aniversário. As 12 semanas.

            – Verdade! Bom, vou pedir a pizza e você coloca roupa. Tá engraçado você com essa calcinha arriada.

            Ela riu. Que bom. Ela riu. Sai do banheiro. Com calma pra não cair. Pernas trêmulas fazem o melhor que podem para caminhar. Enfio as unhas nas minhas palmas até sentir dor. Dor eu reconheço. Dor é um sentimento familiar. O que sinto, agora? Não sei. Caminha até a varanda. Isso. Mata o resto do whisky. Isso. Meu coração tá descendo da boca e voltando pro peito. Ansiedade? Insegurança? Raiva?  O que tô sentindo? Que porra de sentimento é esse? Vejo o charuto no cinzeiro, ainda aceso. Puxo o ar e vejo a brasa do charuto ficar vermelha. Mais vermelha. Solto a fumaça e ela me acalma. Me acalma só o suficiente para saber o que estou sentindo. Estou apavorado!

Olho para a igreja. Nada vai dar certo. Meus genes amaldiçoados driblaram minhas barreiras imaginárias. Espera. Uma ideia aparece na minha cabeça e é a única coisa que consigo pensar. A única solução. Penso comigo mesmo. “Sério? Essa é sua definição de boa ideia?” Pode até não ser boa, mas é única.

            Eu sabia que se colocasse um filme ela ia dormir. Que dia maluco. Acho que a melhor parte foi a pizza. A marguerita deles é muito boa. Será que vou fazer isso mesmo? Será que vou comprar os cogumelos? Será que é essa a maneira de me conhecer, de ser melhor? O site é tão fácil de achar. Aparentemente a psiloscibina é a substância mais segura. Só um clique. Quem diria que o site aceitaria cartão de crédito. Agora é só esperar…

            Hoje não acordei me sentindo diferente. Só mais um dia comum. Mais um dia sem nada de especial. Igual aquela frase do Leonardo Padura sobre o ano dois mil. “Além de uns números de merda, nada muda. E, se mudar, muda para pior.” Trinta e seis anos. Sou mais maduro do que era cinco anos atrás? Dez anos atrás? Fui uma criança egoísta, um adolescente arrogante, agora sou um filho da puta pedante. Não que o egoísmo tenha diminuído. Infelizmente, não. Estou depositando boa parte da minha confiança nesses cogu…

            – Parabéns! Nosso neném fez 12 semanas também. Vamos espalhar a notícia hoje?

            Óbvio, vamos contar pra todo mundo que você está grávida e vou ficar chapado

            – Claro. Vamos sim. Mas antes eu quero comer isso.

            – Você vai comer mesmo?

            – Eu vou. Eu preciso. Acho que preciso. Não sei. Você não acha que é uma boa ideia?

            – Sei lá. Você que sabe. Parece importante, pra você.

            – Tá. Acho que é. Li muito sabe…

            – Sei sim. Sei que leu muito. Você não parou de falar sobre isso um minuto. Não falou nada sobre que nome quer para nosso filho, mas não parou de falar um minuto sobre essa merda de psiloscibina.

            – Desculpa. Mas a gente nem sabia se ia segurar. A maior par..

            – A maior parte dos abortos acontece no primeiro trimestre blá blá blá. Não aconteceu. Agora, vamos contar pro pessoal? Tô doida pra contar.

            – Vamos. Deixa eu comer isso primeiro.

            – Tá cer… O interfone. É o café da manhã.

            – Você pediu café da manhã?

            – Claro. Seu aniversário, você merece.

            Eu não mereço. O que um cara igual eu fez pra merecer uma pessoa como você? Sério…

            – Obrigado amor. Obrigado mesmo.

            – Vamos, comer logo, senão esfria. Mais tarde vou passar no supermercado. Nosso álcool em gel está acabando.

            Depois que ela saiu fiquei olhando para os cogumelos. Me pareceram falsos. Será que é assim, tão fácil, comprar psicodélicos? Só pedir pela internet que eles chegam. Ainda bem que não comprei ayahuasca. Já li que muita gente vomita. Com a barriga cheia desse jeito, certeza que ia vomitar. Agora é hora. Não adianta adiar isso. É melhor comer logo. Que gosto ruim! Vou pegar um copo d’água. Não tem como descer no seco. Desde que tomei a decisão de tomar os cogumelos sabia o que ia fazer. Ver Turandot. Em todas as experiências que li, o pessoal falava sobre as cores, eu preciso ter alguma coisa colorida pra olhar. Muita gente fala que é bom tomar no campo, mas, a gente faz o melhor com o que tem.

            É. Acho que não tá fazendo efeito. Efeito nenhum na verdade. Se bem que tem pouco tempo que comi. Acho que são no mínimo trinta minutos para fazer efeittttooo.. Uou. Será que o chão mexeu: Os padrões. As estrelas girando. As estrelas no chão marrom. Calma. Melhor ficar sentado. Olhar para minhas mãos. Ainda dá pra diferenciar o que é real do que não é. Ainda tenho controle. O chão parou de mexer. As cores da televisão começaram a sair da tela. Parece que estou em um mundo de cores. As estrelas estão girando ainda. As cores da tela começaram a se misturar com a estante. Será que consigo voltar? Será que consigo diferenciar o que é normal? Sim. Olho pras minhas mãos. Olho pros meus pés. Sinto o frio do chão. Se concentra naquilo que é normal que as coisas voltam. Que barulho foi esse? Parece que veio da cozinha.

            – Oi amor. Comeu os cogumelos?

            Nossa. O rosto dela está velho. Envelhecido. Minhas mãos estão envelhecidas.

            – Por que você está olhando pra mim desse jeito? Você comeu, né? O que tá vendo?

            Os lábios dela têm um gosto tão diferente. Tive que me concentrar pra conseguir acertar o beijo. A cabeça dela está aumentando e diminuindo. Continua velha. Será que também estou velho? Minhas mãos estão velhas. Minha pele transparente. Consigo ver a veia cefálica subindo pela lateral do antebraço até meu bíceps.

            – Por que você não tá falando nada?

            – Vamos deitar no sofá? Estou vendo uma ópera.

            Melhor parar de olhar pra ela. Quando sorriu foi estranho. Pareceu que os dentes tinham alguma coisa errada. Não eram pontiagudos, ou assustadores, nada disso, só não pareciam caber dentro da boca. Mas o som ainda é bom. O som é aquele mesmo som que me fez apaixonar. A sensação do colo dela é tão boa. Tão quente. A perna dela é tão quente. Tão macia. Quando fecho os olhos vejo mandalas multicores dançando. Melhor ficar com eles abertos.

            – Você tá bem?

            – Tô sim. Acho que comi uma dose meio alta.

            – Qualquer coisa me fala

            Aparentemente eu consigo conversar ainda. Será que vou voltar ao normal? Será que minha vida vai ser assim? O som tá muito alto. Muito alto. A música tá muito alta. As cores. Meu deus. São muitas cores. Elas estão na sala inteira. Preciso levantar. Eu preciso levantar. Eu preciso levan…

            – Onde você vai?

            – No banheiro.

            Calma. Você ainda tá conseguindo controlar. Mas é muito estímulo. A profundidade dessa pia aumentou? Essa pia era marrom mesmo? A água está com um gosto esquisito, mas eu lembro desse frescor. Quem é esse no espelho? Sou eu? Sou eu no espelho? Estou velho. Achei que ela estava velha mas quem está velho sou eu. Olha a profundidade dessas rugas. Acho que esse no espelho não sou…

            – Por que você tá demorando? Tá tudo bem?

            Calma. Você só tá no banheiro. Vai ficar tud.. Olha as cores dessa sala. Olha a altura dessa música. É muito estímulo. Eu não devia ter comido tanto. Não estou perto de epifania nenhuma, isso aqui é uma merda. Ninguém tem controle sobre isso. Não é como ficar bêbado. Não tem jeito de controlar, preciso sair dessa sala.

            – Tudo bem. Vou só deitar um pouco. Estou meio com sono.

            Fui eu mesmo que falei? As palavras saíram de um jeito meio estranho. Acho que não fui eu que falei. Foi outra pessoa. Minha cama. Eu preciso chegar na minha cama. Só preciso chegar na minha cama. Acho que eu tô com sono. É só isso. Eu tô com sono.

            Deitado. Menos estímulo. Vou me concentrar nas coisas que sei que são reais. Meu coração batendo. Meus dentes rangendo. Isso eu sei que é real. Isso eu sei que é verdade. Se eu me concentrar nessas coisas que são reais eu consigo saber o que é real.

            Vejo minha esposa abrir a porta do quarto. Ela é real. Escuto seus passos. Lá longe escuto a ópera. Acho que tá passando. Ela vai deitar comigo. Será que vai deitar comigo? Será que vai brigar comigo? Ela deita e me abraça, me beija no ombro. Eu não mereço. O corpo dela é tão quente.

            – Tá tudo bem? Tendo uma bad trip?

            – Não. Tudo bem.

            Não tá tudo bem. Eu preciso de ajuda. Quero fazer isso parar. Não devia ter tomado essa merda. Eu nunca mais vou voltar ao normal. Não vou ver meu filho nascer.

            – Quer ficar sozinho?

            – Acho que sim. Sono…

            Finalmente ela vai embora. Porque eu queria que ela fosse embora? O calor do corpo dela era tão bom. Tão quente. Será que sonhei com a presença dela. Será que o que eu sinto é real. Será que alguma coisa é real? Ao longe pareço escutar Turandot, mas a entonação não muda. Sempre a mesma nota monótona. Sempre. Sempre. É melhor tentar dormir.

            – Se entregue.

            Quem falou isso? Fui eu que falei isso? Eu estou falando sozinho. Será que estou no meu quarto agora? Será que minha esposa viu que eu estava passando mal e decidiu me levar pro hospital? Talvez seja melhor assim. Não. Estou aqui, ainda. O colchão é real. O travesseiro é real. Consigo ranger meus dentes. Eu sou real. Meu coração. Meu coração ainda está batendo no meu peito. Consigo sentir meu coração batendo, ele é real.

            – Nada é real. Não importa o que é real.

            É minha voz? Eu estou abrindo a boca e falando isso. Será que estou dormindo ou acordado agora?

            – Isso importa?

            De onde eu vim. O que está acontecendo comigo.

            – Aniversário. Cogumelos.

            O que é isso. Porque essas palavras fazem sentido? Ah. Eu comi. Cogumelos. Foi para isso que eu comi os cogumelos. Para ter uma experiência transcendental. Para me entregar. Para me descobrir. Por que focar no real? Quem disse que todas as bad trips começam quando você luta contra a droga? Tenho que aceitar. Eu tenho que aceitar que isso é quem eu sou agora. Esse sou eu. Eu derreti para dentro do colchão. Eu estou dormindo? Estou sonhando?

            – That’s it sir, alright, I am an animal man.

            Inglês? Por que minha voz está em inglês

            – Oooplalubpalaaladlala

            Será que estou em uma maca de hospital me debatendo e as enfermeiras querem me segurar? Melhor pedir pra minha esposa pegar o carro. Ouço o criado mudo falar com uma voz amadeirada:

            – O que é carro? Se entregue.

            Tá. Me entrego.

            Não estou mais no meu corpo e, fora do corpo, consigo ter clareza. Um pouco de clareza. É claro que ouvi minha voz falando inglês. Sempre dou entrevistas em inglês. Fora do corpo, não consigo mais ouvir a ópera na sala. Não consigo ouvir meu coração bater. Estou vivo? Estou morto? Estou gritando em uma sala de emergência? Não sei. Não importa. Fora do corpo, data, lugar, fatos, não fazem sentido. Não lembro como cheguei aqui. Não sei onde é aqui. Flutuo em um universo multicolorido sem conseguir encontrar qualquer caminho. Viajo através do multiverso, passando pelo azul, verde, chego ao arco íris. Eu não sou médico. Não sou homem. Não sou nada. Ao mesmo tempo me sinto conectado com tudo. Mergulho no roxo e passo através de linhas geométricas, quadrados, pirâmides, tetraedros, octaedros, poliedros com bordas lilases e fundos escurecidos. Através de um portal, finalmente consigo encontrar a resposta que sempre procurei:

            – Eu vou morrer?

            – Importa?

            – Você criou tudo?

            – Criou o que?

            – Onde estou?

            – Está aqui. Por agora, está para sempre.

            – Obrigado. Deus existe. É lilás.

            – Volta.

            Me sinto no banco de um trem vendo as cores e linhas retrocederem em uma velocidade vertiginosa. Tento abrir os olhos e vejo minha cama, meu quarto, meu piso, todos se mexendo, dizendo “ainda não é hora”. Fecho os olhos e as cores voltam para o foco, voltando, voltando, voltando, olho para trás e vejo uma grande luz branca. É o meu destino, mas não quero chegar. Não posso chegar até a luz branca. Quero voltar. A luz branca vai me pegar. A luz branca vai me devorar. Não. Não.

Abro os olhos e estou em uma cama de hospital. Tudo branco. Uma mulher com vestido cinza se aproxima, preocupada. Com um forte sotaque em inglês ela diz:

Need anything, Mr Huxley?

Huxley? Como em Aldous Huxley? Tento falar, mas minha boca não se move. Olho para meus braços e pernas. Não consigo sair dessa viagem. Não consigo voltar para o meu corpo. Transcendi o tempo e espaço, não tenho mais volta. Não tenho mais salvação. Olho para minhas mãos envelhecidas e manchadas de tinta. Meus dedos se movem. Tento mostrar com as mãos que quero uma caneta. A senhora à minha frente se move com velocidade e coloca uma caneta na minha mão e um bloco embaixo. Cogumelos. Vou escrever cogumelos. Não. Vou escrever mushrooms. Meus dedos doem. Não vou conseguir escrever tantas letras. Mais fácil escrever três. LSD. Ela sorri e traz uma seringa. Eu tento sorrir, mas minha boca não se move. Sinto a agulha entrar na minhas nádegas. Sou mandado de volta para o turbilhão.

Não estou fora do corpo, mas não estou dentro também. Em algum lugar no intervalo vejo meu pai fumando, bebendo e gritando. Gritando comigo. Começo a gritar de volta, mas vejo que um coração cartunesco, vermelho, bate em seu peito emanando energia vermelha. Minha mãe está encolhida entre os gritos. Eu te amo. É o que quero dizer. Não sei se digo. Não sei o que é isso. No fundo dos meus ouvidos ouço pneus de carro cantando? Eu sou médico, apesar de não lembrar o que isso significa. Minha família tá me levando pro hospital. Cogumelos. Aniversário. Mais uma vez penso nisso e mais uma vez isso não faz sentido. Pai, mãe. Te amo. Eu te amo. Eu os amo. Amo. Meu pai sorri. Minha mãe sorri. Me sinto mais leve. Será que disse isso? Será que alguma vez disse isso? Volto a sentir meu coração bater no peito. Está mais calmo. De repente acelera. Para de bater no peito e começa a andar pelo meu corpo. Não é mais meu coração que bombeia, ele é bombeado através das minhas artérias, passa pela minha cabeça, meus braços e literalmente sai pela minha boca. Consigo ver meu coração, mas ele não é vermelho. É preto, com pernas peludas. Meu coração corre pelo chão e começa a crescer, suas pernas peludas se retorcendo de dor. Suas oito pernas colocam seu corpo disforme de pé e ele se vira para mim com um rosto humano e pergunta?

– Você é gay?

Eu não respondo. Lembro de um filme do Woody Allen. “That’s my homossexual anxiety”. O rosto se aproxima de mim, abre a boca e me engole. Dentro da negridão do meu coração começo a ver a pessoa que realmente sou. Em cada câmara do meu coração passa um filme com meus piores momentos. Liderando minha turma de quinta série aponto o dedo para um menino loiro e grito “Você é bixa?”. A turma inteira, menos um, se desaba em gargalhadas. As risadas aumentam o volume até eu não conseguir escutar mais nada. Percebo. Não. Eu não sou gay. Quem dera fosse. Minha sexualidade reprimida poderia ser uma justificativa para meu comportamento abominável. Não. Eu queria que todos rissem comigo e não de mim, mais fácil rir do outro. Vejo o rosto da minha esposa flutuando na minha frente. É a melhor parte de mim. Quero sair daqui. Minha esposa joga uma corda e me agarro. “Eu te amo”.” Eu te amo”. Ela sorri, mas não responde. Vai me tirar dali. Não quero as pessoas que fui antes por perto. Estamos saindo da garganta da aranha, que é meu coração, mas antes que consiga passar pela garganta, suas quelíceras cortam o fino fio que me liga à minha esposa e caio numa pilha de substância negra e imunda. Procuro meus óculos tateando no chão, mas só consigo sentir o cheiro da lama estuprando minhas narinas. Lama que entra pela minha garganta e me deixa no escuro. Tudo escuro. Só preciso encontrar meus óculos. Se conseguir encontrar meus óculos vou sair da escuridão. Tateio freneticamente o piso mas não existe piso. Começo a cair. Os óculos estão no meu rosto, sempre estiveram e o filme de minhas ações ignóbeis continua. Tento tirar os óculos mas eles estão grudados na minha cabeça. Tento fechar os olhos mas o filme continua nas minhas pálpebras. Quantos choros provocados. Quantas confianças traídas. A ilusão que eu tinha de ser um homem bom se desvanece à minha frente. Lembro de uma coisa, lembro de um nome. É minha salvação. Se disser o nome dela vou sair, vou fugir. Não pode ser um sussurro, um sussurro não será suficiente. Grito:

– Lidiane, eu te amo!

Uma luz acende. Depois outra. Estou em um lago cintilante, caminhando sobre as águas e vejo lulas minúsculas nadando. Caminho em direção à luz, então percebo que a luz está ao meu redor. Pequenas algas vivas emitem um verde fosforescente. Sinto meu coração bater de novo, calmo. Achei a verdadeira fonte da minha alegria. Achei sentido em minha vida. À minha frente consigo ver um círculo vertical. Não um círculo comum, é uma serpente. Uma serpente branca que morde o próprio rabo, um Uróboro cintilante, no meio dele, a Via Láctea dança, com uma forma embrionária no centro, dentro de uma bolsa fechada. Ela olha pra mim e ri. Eu entro no círculo, pé esquerdo primeiro. “Vai Carlos, ser gauche na vida.” Passo pelo portal.

Começo a sentir meus dentes rangerem. Sinto meus pés frios. Estou inteiro com frio. Abro os olhos e vejo a cabeceira da minha cama. O criado mudo está ao lado. Mudo, dessa vez. Olho pras minhas mãos e percebo que tenho a minha idade de novo. Estou acordado. Tenho certeza disso. Olho para o chão marrom e vejo o chão se mover e formar um lobo. O efeito dos cogumelos ainda não passou, mas a viagem acabou.

– Está tudo bem? Por que colocou tênis?

Olho pra baixo e vejo que estou de meias e tênis de corrida.

– Meus pés. Estavam frios.

– Tudo bem?

– Sim. Colocou aquela cerveja que encomendei pra gelar?

– Você acha que é uma boa beber agora?

– Agora não. Mas daqui a pouco sim. É meu aniversário, porra.

A vejo sorrir. Ela sorri um sorriso fácil, sincero. Vejo um halo de luz dourada emanar do cabelo enquanto sua pele translúcida transparece veias azuis. Seus dentes dançam uma dança impossível, e vejo os lábios virarem orquídeas vermelhas.

– O que tá vendo?

– Eu te amo.

Não me canso de vê-la sorrir. Vejo uma quimera em sua esclera, rodando, sorrindo. Minha esposa se aproxima e encosta orquídeas nos meus lábios.

– Eu também te amo.

– Não chora.

– Larga de ser bobo.

Eu a abraço com força e ela afaga meus cabelos. Sinto a textura do arco-íris em sua barriga e sinto o feto mexer dentro do útero. Não, eu não sinto o feto mexer. Sinto a energia do embrião mexer. É impossível sentir o feto mexer com essa idade, mas consigo sentir a energia que envia, a energia que preciso, minha chance de redenção. Levanto, pego minha esposa nos braços e olho nos seus olhos.

– Lidiane, eu te amo.

Enfio minha língua em sua boca e sinto gosto de flores, gosto de verde, gosto de terra, gosto de vida. O gosto do universo. Fazemos amor na Sangria, no espaço entre os universos. Não quero perder o calor daquele corpo. Não quero abrir mão dessa luz. Ela deita no meu braço e começa a brincar com os cabelos do meu peito:

– Depois você tem que me contar como que foi.

– Foi uma experiência definidora de vida. Definidora. Você acredita que no meio da viagem vieram umas citações na minha cabeça. Woody Allen, Elliot Smith, Carlos Drummond de Andrade. Teve até uma pegada História Sem Fim.

– Só você mesmo. Vou querer experimentar.

– Acho melhor começar com uma dose menor.

– Eu também. Teve uma hora que fiquei com medo. Quase te levei pro hospital.

– Teve umas horas que fiquei com medo, mas foi bom. O medo às vezes é bom.

– Tá vendo alguma coisa agora?

– Não. Mas quando a gente tava transando eu estava vendo seus lábios com forma de orquídea. Seus beijos tinham um gosto diferente. Um gosto bom. Um gosto de jardim.

– Eca.

– Não é nada de “eca”. Era vida.

Eu deito de barriga pra cima e sinto seus olhos em mim, curiosos. Sinto o amor que aqueles olhos transmitem. É lindo.

– Você tá com um olhar esquisito.

Me viro para. Ela tem os olhos mais bonitos do mundo.

– Tô mesmo. Não estou normal. Estou bem. Estou conectado.

Ela me beija mais uma vez. Tenho que dizer o quanto ela é importante. Tenho que falar. Ela precisa saber:

– Você me salvou. Acho que, se não fosse você, não teria voltado.

– Voltado de onde?

– Do Universo. Sei lá. Voltado de onde fui.

– Ainda bem que eu tava aqui, então.

– É. Ainda bem mesmo.

Escuto o telefone tocar e nosso refúgio fora do tempo e espaço se esvai. Ela se enrola no lençol, levanta e atende o celular. É minha mãe querendo saber que horas vai ser a festa online. “Daqui a pouco”, ela fala. Sem emitir som algum, vejo seus lábios dizerem pra mim, “posso contar”, eu levanto a mão espalmada pedindo calma. Escuto minha esposa se despedir, entrar no banheiro e ligar o chuveiro. Ela grita:

– Viu o que o burro do nosso presidente falou?

– Nem me fala. Acho que meu presente de aniversário hoje vai ser não olhar nenhuma notícia. Não quero saber nada de corona hoje.

– Melhor mesmo.

Minha esposa sai do chuveiro e eu entro. Sinto a água quente massagear minhas costas. A espuma é só espuma, e vai comportada para o ralo. Nenhuma mandala, nenhuma dança feérica, nenhum movimento anormal. Acho que o efeito passou. Posso abrir uma cerveja quando sair do banho.

Depois que me visto, vou para a sala e ela está arrumando a melhor luz para fazer a chamada de vídeo. Combinou com muita gente. A abraço pelos quadris e ela se encosta no meu abraço. Mordisco o lóbulo da sua orelha e falo:

– Acho que sei o que vai ser o neném.

– Ah é? Como você sabe?

– Eu não SEI, sei. Acho que sei. Acho que é menina. Tenho quase certeza.

– Você viu alguma coisa.

– É. Acho que vi.

– Que doideira. E pensou em um nome?

– Claro que pensei.

– Mentira. Pensou mesmo?

– Pensei, ué. É um nome curto que não tem início nem fim, porque se você chegar no fim e voltar pro começo é igual.

– Como?

– Um palíndromo. Você lê igual de trás pra frente.

– Ana?

– É. Ana. O que acha?

– Gostei. Ana alguma coisa?

– Não só Ana mesmo.

– Simples. Sonoro. Expressivo. Gostei.

– Gostou mesmo?

– Gostei sim.

– Então vai ser Ana.

– Tá. Mas e se for menino?

– Aí não sei, mas acho que não vai ser menino.

– Tem tempo ainda.

Vejo ela sorrir com o canto da boca. Pergunto:

– O que?

– Se você quer um palíndromo, a gente pode colocar outro.

– Ah é? Qual?

– Arara.

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