Introdução

            Eu tinha casado de perder concursos. Decidi ganhar. O prêmio Off Flip disponibiliza as obras selecionadas para download gratuito na amazon. Baixei os exemplares dos contos vitoriosos nos anos anteriores e comecei a lê-los, tentando destrinchar as minúcias que faziam de um conto um vencedor. Cheguei na fórmula do conto vencedor. Escrevi com confiança. Perdi.

Conto

– Já pensou em se matar?

            Assim que as palavras saíram de sua boca Carlos se arrependeu. O que Luiz pensaria? Era aquele maldito choro. Pela primeira vez em dois meses conseguia uma noite longe do bebê para relaxar, ver seu time jogar, mas tinha que ter um maldito moleque que não parava de chorar no bar. Aquela merda de som agudo que entra dentro da sua cabeça, aquele som que te impede de ouvir os próprios pensamentos. Será possível que não teria nenhum segundo de sossego?

            Depressão? Não. Não era depressão. Carlos lera os sintomas de depressão na internet várias vezes e tinha certeza de que não era depressão. Acordava cedo todos os dias, ia para o trabalho, fazia piadas com seus colegas, era um dos membros mais participantes das reuniões. Quando chegava em casa, conversava com a esposa sobre seu dia até ela sair para dar aula à noite na faculdade. A mulher era um anjo. Tirava o leite e deixava a mamadeira pronta na geladeira. O garoto estava dormindo e Carlos podia sentar um pouco e assistir televisão. Nesses momentos de solidão, a hipótese aparecia sem ser convidada. Como seria lá do outro lado? Não seria bom deixar todos os boletos do lado de cá e simplesmente sumir. Desaparecer. Ligar o grande “foda-se”. Esse era o maior atrativo. Ligar o grande foda-se. Caso morresse, Ninguém o culparia por não aparecer no trabalho, escutar aqueles malditos fazendo as mesmas piadas todos os dias, ler os terríveis e-mails dos clientes. Meu deus! Os e-mails dos clientes. Carlos aprendera uma gama variada de xingamentos que nunca tinha ouvido falar, alguns muito perturbadores.

 Às vezes pensava em deixar seu celular programado para tirar uma foto no exato momento em que a arma disparasse e enviasse a imagem para o cliente que tinha escrito o e-mail mais deselegante. Isso sim seria uma vingança que valeria a pena. Será que a pessoa se sentiria responsável? Não. O mais provável é que sua foto fosse marcada como SPAM e ficasse para sempre soterrada sob toneladas de lixo eletrônico. Quando estava pensando nisso, o neném começava a chorar.

Os últimos seis meses tinham sido incríveis. Descobrira a alegria de ser pai, ajudava a trocar a fraldas, ficava ao lado da esposa na amamentação, sua mãe ficara encantada com o primeiro neto. Só que a esposa voltara ao trabalho depois da licença maternidade e, no início da noite, eram só ele e Júlio. Ele era tão bonitinho dormindo. Até que, pouco menos de uma hora depois da mãe sair, o garoto começava a chorar. Carlos entrava no quarto, olhava a fralda, tentava dar a mamadeira mesmo assim a criança não se calava. Pegava o bebê no colo e andava para os lados em uma tentativa de embalar a criança, sob o olhar dúbio de Nossa Senhora.

Aquele quadro que a sogra dera de presente era horrível. A imagem tinha um meio sorriso e parecia ver o que se passava no interior da mente de Carlos. Via todos os sites para maiores de dezoito anos que frequentara desde a adolescência, via os pensamentos incautos sob as colegas de trabalho. E o bebê chorando. Chorando. Aquele som agudo fazia o martelo martelar a bigorna dentro de seu ouvido com tanta força que tinha certeza que sua cabeça ia estourar. Ligava o som do quarto, mesmo assim a criança continuava chorando a plenos pulmões. O que os vizinhos iriam pensar? Será que pensariam que ele batia na criança? Será que saberiam que era um bom pai? Ele era um bom pai? Era, não era? Fazia tudo pelo seu filho. Carlos continuava embalando o garoto sob o olhar judicioso de Nossa Senhora que não parava de julgá-lo. Até que começava “Devils and Dust” do Springsteen. Nessa hora o garoto parava de chorar.

Não adiantava colocar a música no começo do choro. Era inútil tentar encurtar o tempo de choro. Aquela uma hora e meia de berreiro era o ritual do garoto para dormir. Era o ritual do garoto para mostrar que sentia falta da mãe. Era o ritual do garoto para mostrar que Carlos era um mau pai. O ritual do garoto para mostrar todas as coisas erradas que Carlos fizera na vida. Então, o garoto dormia e deixava o pai sozinho. Junto com Nossa Senhora. Junto com Bruce Springsteen.

“Eu tenho o dedo no gatilho. Esta noite, somente fé não será o suficiente”. As aulas de inglês que fizera na adolescência tinham valido a pena. Conseguia entender perfeitamente o que a letra daquela música falava. E Bruce tinha feito a letra para ele. Para aquelas noites solitárias. Uma vez, pegou o velho Smith Wesson trinta e dois e levou para o quarto do filho, depois que a criança dormira. Só para sentir o peso da arma. Quando Springsteen cantou que estava com o dedo no gatilho, Carlos colocou o dedo no gatilho. Só para sentir a pressão. “Calma Nossa Senhora. Não precisa olhar desse jeito. É claro que a arma está descarregada. Nunca faria isso. Você sabe que eu nunca faria isso”.

Não adiantava tentar enganar Nossa Senhora, Ela conseguia ver qualquer pensamento que Carlos tivera na vida. Com aquele meio sorriso. Olhar enigmático. “Calma Nossa Senhora. Vou colocar na boca só para ver que gosto tem.” Sentia o metal frio contra a língua. Sentia o cano da arma tocar o céu da boca. O metal ficava quente rápido. Ele puxava o gatilho. Tec. Um barulho seco. Sem balas. Carlos ainda estava vivo. Este barulho nunca acordava Júlio. Se a arma estivesse carregada seria diferente. Ele começaria a chorar, com certeza. Nossa Senhora só olharia, sem fazer nada. Sprigsteen tentaria cantar para acalmar a criança, até que sua esposa chegasse e visse a bagunça. Sangue e miolos na parede, escorrendo. Talvez, quando ela visse, já tivesse parado de escorrer, só seria uma mancha vermelho escura.

Não. Não podia fazer isso. Guardava o trinta e dois no maleiro, na parte mais alta do guarda-roupa. Depois colocava uma dose de whisky, sentava-se na poltrona de amamentação da esposa no quarto do filho e ficava na penumbra. “Você não é misericordiosa Nossa Senhora. Não tem nenhum pingo de piedade. Fecha as portas do céu para os suicidas. O garoto que foi abusado por quinze anos pelo pai e achou que tomar trinta cartelas de comprimidos era a única solução vai para o céu? Não. Vai pro inferno. O filantropo que doou metade da sua fortuna para caridade e decidiu cortar os punhos porque nunca encontrou amor verdadeiro? Inferno também. Impiedosa Nossa Senhora”

Uma fração de segundo tinha se passado. Carlos sentia gotas de suor escorrerem pelas costas. Luiz pensaria que estava com depressão, que precisava de ajuda. Não. Não era isso. Fora só uma frase. Fora o choro. Por que tinha que ter um neném chorando no bar? Não podia nem ver o jogo do seu time em paz? Essa merda de choro entra na cabeça e não deixa a gente pensar direito. Luiz olhou para o amigo e respondeu:

– Me matar…

Como será que Carlos sabia? Será que era tão evidente assim? Sua esposa estava no final da gravidez do segundo filho. Sua primogênita, Clara, era a alegria da sua vida. Conhecera a esposa no primeiro ano do segundo grau e tivera certeza de que se casaria com ela. Como não se casaria? Ela era tudo o que um homem poderia querer. Bonita, amiga, engraçada, trabalhadora. Moravam em um bairro bem localizado, tinha um carro novo, sua vida estava ótima. Claro que não tinha motivos para se matar. Óbvio que não se mataria. Por quê Carlos perguntara aquilo?

Era o vazio. Tinha que ser o vazio. Todos podiam ver em seu rosto o grande vazio que sentia. Agora tinha certeza disso. Chegava na empresa e o cumprimentavam sorrindo e, como sempre, Luiz sorria também. Era bom sorrir. Tudo estava bem. Pegava o celular e mostrava fotos da garotinha. É. Agora ela está jogando futebol. Olha que linda. O rabo de cavalo foi eu que fiz. Tinha orgulho da filha com suas chuteirinhas amarelas. A garota tinha feito três gols no último jogo. Era um talento nato. Tudo o que sempre quisera. Só que tinha aquela merda. O vazio. Quando ia aos jogos da filha, quando sentava atrás da sua mesa, quando colocava um filme. Não conseguia sentir nada, a não ser o vazio. Parecia só isso que era capaz de sentir.

Estava cortando carne um dia. Era um churrasco. O sol brilhava, as amigas da filha estavam na piscina. A esposa exibia orgulhosa sua barriga de quatro meses de gestação. Seus amigos estavam elogiando o quiosque que fizera para receber mais pessoas em casa. Mesmo assim, a única coisa que sentia era aquela sensação no peito. Uma sensação de nada. Um grande nada dentro do corpo. Um nada que ocupava tudo. A faca de aço inoxidável brilhava em sua mão. Luiz pegou a ponta da faca e fez um corte que ía do dedo mínimo até o polegar. Não sentiu dor. Não sentiu nada. Pegou um pano de prato e enrolou em volta da mão. Um acidente. Claro que sim. Só um acidente. Foi até o pronto socorro. “Como se cortou?” “Estava fazendo um churrasco e escapou.” Mais nenhuma pergunta. O médico deu os pontos e fechou a ferida. Luiz passava a mão pela cicatriz. Engraçado. A cicatriz ainda estava vermelha. Era recente. Carlos estava lá naquele dia. Será que percebera? Será que seu amigo tinha visto o que tinha acontecido e, por isso, perguntou? Será que Carlos sabia das três caixas de remédio tarja preta que tinha comprado? Algumas vezes aquelas caixas eram um alívio. Quando estava em casa sozinho e o vazio parecia ter um peso insuportável abria a gaveta do banheiro e olhava as três caixas, uma ao lado da outra. Aquilo era suficiente. Saber que tinha uma saída o consolava. Desde que comprara as três caixas estava até se sentindo melhor. Por que Carlos perguntava aquilo agora?

– … Não. Nunca pensei em me matar. Você já?

– Também não. Muita Loucura né? – Carlos apontou o dedo para a televisão e continuou – Olha, Acho que vai ser gol.

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