Introdução

Tentei participar de um concurso de contos menor, para tentar aumentar minhas chances de ganhar. O concurso era tão pequeno que esqueci o nome. Obviamente, perdi. A ideia da história veio de uma mulher que conheci. Ela tem três filhos, um ficou paraplégico em um acidente de carro outra nasceu com deficiência mental (ou especial, como diriam os eufemistas). Esses dois filhos moram com ela e é ela quem tem que cuidar deles, sozinha. A terceira filha mora em outra cidade e cobra da mãe a atenção que não recebe. Essa mulher não tem uma vida fácil, mesmo assim, todas as vezes que a vi, ela estava sorrindo.

Um dia, enquanto conversávamos, mais uma vez sorrindo, ela disse: “síndrome do ninho vazio? Nunca terei oportunidade de sentir”. Aquela frase, mesmo dita em tom jocoso, me acertou em cheio no estômago. Fiquei pensando naquilo por semanas. Dessas reflexões, nasceu esse conto.

Conto

            A mulher revirava a terra com as mãos, sentada sobre seus calcanhares. À primeira vista, podia-se pensar que estava completamente nua, porém isso não era verdade. Uma grossa tira de metal envolvia seu pescoço. Este grilhão estava ligado por trinta e três elos de aço a uma pedra enorme. Sim, exatamente trinta e três elos. Ela tinha contado muitas vezes.

            O que mais gostava de fazer era esticar sua corrente até o sentir o metal pressionar sua garganta e impedir o ar de entrar em sua traqueia. Fazia isso pelo maior tempo possível, até que dava um passo atrás, respirava fundo e dava boas-vindas ao ar frio nos seus pulmões. Precisava de um motivo para ser grata.

            Tinha acabado de pressionar o grilhão contra sua garganta e encontrava-se agachada, com os olhos fechados, quando escutou o trovão. Ela abriu os olhos e viu o tempo ficar carregado. Aquelas não eram as nuvens de chuva com que estava acostumada. Pareciam pesadas. Vermelhas. No intervalo de um piscar de olhos, as nuvens estavam acima dela, que estendeu as mãos e sentiu grossas gotas caírem em seus ombros, cabeça, dedos. Demorou a entender que o líquido não era água. Era sangue.

            A chuva engrossou. Ela conseguia sentir o sangue grudando seus cabelos em sua testa, entrando em seu nariz, escorrendo até sua boca. Sentiu o gosto amargo de ferro. Ferrugem. Sangue. De repente ouviu um barulho diferente. Olhou para trás e viu que sua corrente borbulhava. À medida que as gotas caíam, faziam uma estranha reação com o metal que borbulhava e derretia. Ela pegou o sangue e esfregou no seu grilhão, que começou a borbulhar, esquentar e se desfazer. A dor foi incrível no começo, mas parou subitamente. Ela estava livre. Passou os dedos no pescoço e sentiu a pele áspera pela queimadura. Aquilo ia deixar uma cicatriz.

            E daí? Estava livre. Começou a dançar de braços abertos, espalhando o sangue pelo seu corpo. A mulher rodopiava deixando o líquido viscoso lavar suas feridas, então olhou para a pedra. A pedra estava vermelha, o sangue escorria por suas laterais. Parecia chorar. Ela estava livre, só que a pedra nunca sairia dali. Nunca mais veria aquela pedra, que fora sua companheira por tantos anos. A mulher sentiu o coração pesado, abraçou a pedra e começou a chorar.

            Zenaide acordou assustada. Há muito tempo não tinha um sonho tão vívido. Foi até o abajur e acendeu a luz. Pegou a câmera do celular e olhou para o próprio rosto. Não. Não tinha sangue ali. Então que viu as horas. Já eram quase seis. Não fazia sentido dormir de novo. Levantou-se e foi até o quarto da filha, aproximou-se da cama e viu que a garota ressonava. Deu um sorriso e passou a mão na testa da menina, sentindo uma ternura inefável. Ainda pensava na filha como menina. Engraçado como o conceito de “meninez” é volúvel. Tomou banho, depois começou a fazer o café quando ouviu a porta ser destrancada. Uma pessoa sorridente, toda vestida de branco, disse:

            – Oi dona Zenaide. Acordou cedo hoje.

            – Acordei sim Júlia. O café está quase pronto. Você tira o pão de queijo do forno, por favor.

            As duas tomaram café e conversaram. Zenaide preferiu não falar sobre o sonho. Não sabia porquê, queria conversar sobre o assunto ao mesmo tempo que não queria. Era melhor deixar para lá. Júlia começou a contar uma história de sua vizinha e ria da própria história, quando ouviram um barulho agudo vindo do quarto.

            – Nossa menina acordou. Vamos dar banho nela?

            As duas foram até o quarto e Júlia começou a dizer:

            – Bom dia Robertinha. Como está bonita hoje.

            A menina deu seu sorriso sem coordenação motora. Zenaide podia ver a felicidade nos olhos da filha quando a enfermeira chegava. Júlia parecia gostar do seu trabalho e tinha os braços fortes necessários para fazê-lo. Pegou a menina no colo e a colocou na cadeira de rodas. As duas a levaram para a banheira, tiraram a roupa, depois a fralda. A menina, com suas mãos sempre flexionadas, mexia os braços de prazer, enquanto fazia sons ininteligíveis. Terminado o banho, as duas tiraram a garota da banheira, a secaram, vestiram e colocavam na cadeira. Agora Zenaide estava pronta para ir trabalhar.

            A pensão que recebia após a morte do marido seria suficiente, se fosse só para ela. Porém os gastos com medicação, enfermeira e transporte de Roberta, a obrigavam a trabalhar, mas isso não a incomodava. Até gostava do ambiente de trabalho. As brincadeiras. O convívio com os adultos. O único problema era que nunca podia ficar depois do trabalho com os amigos, ou ir até um bar com os colegas de trabalho. Assim que acabava o expediente tinha que voltar diretamente para casa. Quando atrasava um pouco, Júlia não se incomodava, não houve um dia sequer que a enfermeira não a estivesse esperando com um sorriso. Júlia era uma pessoa rara. Por isso, Zenaide fazia o possível para chegar sempre na hora. Não é fácil encontrar bons funcionários.

            À noite ficavam só as duas. Roberta ficava na cadeira, olhando para a televisão. Gostava dos programas musicais. Quando a mãe tentava mudar de canal a filha se remexia na cadeira e fazia barulhos que demonstravam seu desagrado. Zenaide já se acostumara e deixava a televisão ligada no canal preferido da filha enquanto lia um livro. Era mais calmo desse jeito.

            De repente, o telefone tocou. Era Diana, a outra filha, no telefone:

            – Oi mãe. Está fazendo o que?

            – Estamos eu e a Roberta na sala de televisão.

            – Estão bem. O Mário saiu com os amigos para ver o jogo. Ainda bem que os meninos dormiram cedo hoje.

            – Que bom. Você vem nos visitar no feriado?

            – Então mãe, liguei para avisar que não vai dar. A irmã do Mário vai vir para cá. Por que a senhora não vem também?

            – Você sabe que não posso Diana. Quantas vezes preciso te explicar. É muito difícil viajar com a Roberta.

            – Mãe, sei que Roberta é especi…

            – Deficiente Diana. Especial seria se ela precisasse comer ovos de ganso frescos no café da manhã. Mas não é isso, é? Ela só é incapaz de limpar a própria bunda, pior ainda, incapaz de entender por que isso é necessário.

            – Que isso mãe?!

            – A verdade.

            – Nossa. Desculpa por achar que eu era sua filha também…

            – Ai ai Diana. Achei que esse ciúme já tinha passado.

            – Tá bom, mãe. Deixa pra lá. Mas esse feriado não vai dar. Quem sabe no próximo.

            – Certinho filha. Boa noite, manda um beijo para os meninos.

            A filha respondeu um “tchau” magoado e desligou. Parece que os filhos não crescem nunca. Ela não escolhera a doença de Roberta. Olhou para a menina que balançava a cabeça no ritmo da música e deu um sorriso. Não era muito, mas era alguma companhia. Levantou-se deu um beijo na bochecha da filha e começou a longa jornada de convencimento. Roberta nunca queria desligar a televisão. Zenaide precisava passar a mão na cabeça da filha, beijá-la e explicar que era hora de dormir. Só então podia levar a cadeira até o quarto da menina e passá-la para a cama. Essa era a pior parte. Suas costas não eram tão fortes como antigamente. Em pouco tempo precisaria contratar uma enfermeira para ajudá-la à noite também. Mais uma despesa. Só que não hoje. Com um arranco, tirou a filha da cadeira e a colocou na cama. A menina deu um sorriso ignorante, e a mãe beijou-lhe a bochecha. Depois, pegou seu tablet, os fones de ouvido e foi ver um filme. Se tentasse ver qualquer coisa na televisão a filha acordaria e não a deixaria em paz.

            No dia seguinte Andressa foi falar com Zenaide no trabalho:

            – Oi Zê. Sei que é difícil para você, mas às vezes você consegue alguém para ficar com a Betinha na quinta. Vai ser meu Aniversário, vamos aqui mesmo, do lado da agência, no Blitz. Só beber alguma coisa de leve, não ficamos muito.

            Há quanto tempo Zenaide não saía com amigos? Meses? Não seriam anos. Será? Até que se lembrou das velas. Fora no seu aniversário de 50 anos. Dois anos atrás. Júlia nunca podia ficar à noite, tinha que cuidar do neto, mas, não custava perguntar. Felizmente o menino estava viajando com o pai, Júlia disse que Zenaide precisava de um tempo para si, não teria problema algum em ficar até mais tarde.

            Na quinta, Zenaide saiu de casa maquiada. Não importava se só iriam ao barzinho ao lado da agência, não saía de casa nunca, merecia ficar bonita de vez em quando. No trabalho todos a elogiaram. Quando chegaram ao Blitz lembrou-se do que tanto sentia falta. Dos risos, da música, da vida. De repente olhou no relógio. Já eram dez horas. Júlia só podia ficar até dez e meia. Despediu-se dos amigos rapidamente e pegou um táxi. A enfermeira, desta vez, não estava sorrindo quando a patroa chegou. Estava preocupada.

            – Zê, já estava te ligando. A Roberta hoje a tarde começou com uma tosse esquisita. Agora está com febre. Não quis ficar na cadeira nem um pouco.

            Zenaide foi até o quarto e colocou a mão na testa da filha. O rosto dela ardia:

            – Ela está com febre mesmo. Vou levá-la ao hospital. Já está na sua hora Júlia, pode ir que eu resolvo aqui. Muito obrigada.

            – De nada.

            A mãe pegou o telefone e ligou para o serviço de ambulância do convênio. Eles já a conheciam, sabiam que, quando Zenaide ligava era coisa séria. Em menos de quinze minutos chegaram até seu apartamento. Mal chegaram ao pronto socorro e viram que o quadro era muito grave. Quarenta e cinco minutos depois que Zenaide chegara em casa, a garota estava sendo levada para a UTI. Os médicos disseram que era uma pneumonia, ainda bem que a mãe tinha levado a filha rápido até o pronto socorro. Naquela noite, a única coisa que Zenaide conseguiu sentir foi o discreto aroma de álcool no próprio hálito, que multiplicou a culpa que sentia.

            O ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Roberta já estava há quinze dias na UTI e Zenaide tinha se adaptado à nova rotina. O pessoal do Banco propôs dispensá-la de suas atividades, mas ficar em casa, só, seria pior. Na UTI só era permitida uma hora de visita diária. Era melhor continuar trabalhando e deixar a licença para quando sua filha tivesse alta. Na UTI, a dinâmica das visitas se repetia dia a dia. Roberta tivera que ser entubada, aparentemente sua infecção se tornara generalizada, agora o quadro não melhorava nem piorava. Sua garotinha só ficava lá, inerte. O desespero só durara a primeira semana, com a repetição sua mente se adequou à nova realidade. As pessoas do banco, agora, já tinham se esquecido de perguntar pela filha da colega de trabalho. Também tinham se acostumado com a situação. Ao fim da terceira semana de internação, Zenaide tinha a impressão de que Roberta ficaria no hospital para sempre. Não ficou.

Em uma segunda-feira, quando estava saindo para o trabalho, recebeu uma ligação do Hospital. Deveria comparecer imediatamente. O quadro de Roberta tinha piorado. Piorado mais? Zenaide sabia o que era. Só existia uma piora possível

            Quando chegou ao hospital foi conduzida até uma sala, onde sentou-se em um confortável sofá de couro para aguardar a chegada do médico. O jovem doutor, sentou-se ao seu lado disse um monte de palavras ininteligíveis, e somente uma frase que fez sentido: “ela morreu”. O corpo de sua garotinha (ainda se referia à filha de 33 anos como garota) estava na maca, ela poderia se despedir antes que o corpo fosse levado até a funerária. Ela viu sua filha, lívida, deitada na cama fria do hospital. Segurou as mãos da filha e deixou duas lágrimas escorrerem, antes de se virar e sair correndo.

Zenaide chegou até a porta do hospital onde se sentou na mureta do jardim, segurou o rosto com as mãos e chorou com o corpo inteiro. Seus olhos, narinas e boca vertiam uma volumosa quantidade de líquido enquanto seu corpo tremia e soluçava. O que estava matando-a por dentro, não era a dor de perder uma filha. Ela já havia se preparado para esse momento. Só agora ela conseguia entender o significado do seu sonho profético, só agora, sentindo o peso de sua corrente invisível desaparecer, ela entendia a mulher se ajoelhando ao lado da pedra. O que a matava por dentro não era dor, sim culpa. A culpa do alívio

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