Introdução

            Tem hora que eu acho que tenho algum problema. Quando vejo alguma coisa que considero completamente idiota, ao invés de ignorar uma voz no meu subconsciente exclama “desafio aceito”.

            Quando não estou trabalhando em um romance, procuro saber quais concursos de contos estão disponíveis, uma forma de escrever algo mais curto e me manter ativo. Estava passando pelas regras de diversos concursos quando me deparei com um concurso de Ribeirão Preto que tinha o seguinte tema: “ainda me aquece o coração o fato de saber que algumas avós de hoje ainda ensinarão as netas a fazer vestidos para suas bonecas”. Achei extremamente machista e de mau gosto. Deveria ter escolhido outro concurso certo? Sim, eu deveria, mas, ao invés disso, enfiei uma boneca de vodu na fuça deles. Perdi com graça.

Conto

            Nada. Nenhum som. A casa estava estranhamente silenciosa. Julie encostou a orelha na porta do quarto da filha e ainda assim não conseguiu ouvir nada. Sem fazer ruído algum, entrou no quarto da menina e a viu sentada, usando fones de ouvido, com os olhos vidrados na tela. Segurava o controle do videogame, enquanto um personagem virtual distribuía tiros que salpicavam a tela com sangue e vísceras. Quando a mãe pegou o controle da televisão, que fora deixado sobre a escrivaninha, e desligou o eletrodoméstico a menina se deu conta de que não estava sozinha. Sobressaltada, viu a reprovação nos olhos da mãe.

            – Já falei que não é para você jogar esse tipo de jogo.

            – Mas mãe, está todo mundo jogando.

             Julie não disse nada, só tomou o fone da filha.

            – Se eu escutar qualquer barulho, eu volto aqui e escondo o videogame.

            – Mas mãe…

            – Nada de “mas”.

            A menina cruzou os braços e não disse mais nada, só ficou sentada na cama com a cara fechada. Quando Julie fechou a porta, escutou o barulho da menina batendo os punhos na cama. Ela sempre fazia isso quando era contrariada. De onde a garota estava tirando tanta violência? Tinha que ser daqueles malditos videogames. Desde que entrara na escola nova tudo tinha mudado. Ela havia procurado os professores para ter alguma pista do motivo da mudança, só que tudo parecia em ordem. Não havia outra explicação. Estava segurando uma xícara de café, quando ouviu a campainha.

            Ao abrir a porta, viu uma senhora negra, levemente acima do peso, com os cabelos crespos amarrados em um coque, segurando uma mala:

            – Mamãe, por quê você não me ligou? Eu teria ido te buscar no aeroporto.

            – Não quis incomodar. Era muito mais fácil pedir um táxi.

            As duas se abraçaram e lágrimas escorreram dos olhos de Julie. Era a primeira vez que Maxine Barbier vinha visitá-la desde que saíra de Nova Orleans, há quase dez anos. Ela estava esperando a chegada da mãe à noite, mas Maxine conseguira antecipar o voo graças à duas desistências.

            – Onde está minha netinha?

            – No quarto… Ela anda muito nervosa…

            – Está indo bem na escola?

– Sim. O problema é o temperamento, não sabe ouvir “não”.

            As duas se dirigiram ao quarto da garota. Entraram no quarto da garota e a encontraram esmurrando o travesseiro. Ao ver a avó, a menina soltou uma exclamação de surpresa e veio correndo abraçá-la. Maxine olhou para sua filha e fez um sinal com a cabeça para ficar a sós com a neta. Julie saiu de mansinho, fechando a porta do quarto atrás de si.

            Amanda se sentou no colo da avó e começou a falar sobre sua escola. A senhora cautelosamente conseguiu conduzir a conversa para o ponto mais importante. Lavínia. A menina era alguns centímetros maior do que sua neta e vinha incomodando sua garotinha há algum tempo. Na última conversa que tiveram pelo computador, Amanda chorou de raiva. Alguém precisava dar um jeito naquilo. Julie infelizmente tinha abandonado suas raízes quando veio para o Brasil. Só restava a velha Maxine para consertar as coisas.

            Depois que a menina cansou de conversar, a avó deixou que a garota ligasse o videogame proibido pela mãe. Claro que não tinha problema, a vovó não ia deixar a mãe brigar com ela. Julie entrou no quarto e viu sua mãe sentada em uma cadeira enquanto a filha jogava o jogo proibido. Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas Maxine a interrompeu. Seria só por hoje. Na manhã seguinte a avó levaria a neta na escola. Julie não precisava se preocupar. Não seria incômodo algum, era bom caminhar um pouco.

            A escola ficava a poucos quarteirões da casa, aproximadamente vinte minutos de caminhada. A mãe a deixava lá de carro, tinha que ir para o trabalho logo em seguida. Já Maxine tinha todo o tempo do mundo. Amanda não gostou da ideia de ter que acordar mais cedo, só que a avó tinha prometido que só iria ensiná-la a lidar com Lavínia se a garota obedecesse tudo direitinho, por isso a menina não reclamou. Na hora marcada Amanda estava pronta para sair.

            Chegaram um pouco adiantadas no colégio. Várias crianças conversavam na porta, algumas brincavam de pegador. Um sedã vermelho encostou e de lá saiu uma garota loira, muito alta para a idade, vestindo uma saia xadrez e a camiseta branca do uniforme. Lavínia. Ela segurava a mão da mãe enquanto o pai esperava no carro. Amanda acenou para a garota, conforme Maxine a instruíra. As duas se aproximaram, com um sorriso amigável. Lavínia, na frente dos adultos, era um anjo. A netinha serviu de intérprete para a Avó, que não falava uma palavra em português. A mãe de Lavínia se chamava Beatriz, estava com um pouco de pressa, mas era um prazer enorme conhecer alguém que vinha dos Estados Unidos. Era uma maravilha que sua neta falasse tão bem inglês. “Não, minha filha ainda não começou a aprender, mas é fundamental nos dias de hoje, não é mesmo?”

            Maxine sorriu para a garotinha loura e passou as mãos em seus cabelos.

“Desculpe, foi sem querer. São essas minhas unhas que estão malfeitas”, disse a senhora em inglês, quando a garotinha loira deu um gritinho de dor. Aparentemente dois fios de cabelo tinham ficado presos nas unhas da senhora. Claro que não tinha problema algum. Bia (Beatriz era muito formal, ela insistiu que Maxine a chamasse de Bia) foi embora com um aceno e as duas garotas entraram no colégio. A velha senhora de Nova Orleans guardou os dois fios de cabelo em um frasco de vidro que carregava na sua bolsa e voltou para casa cantarolando uma velha canção que aprendera nos tempos de escola.

Na hora combinada, a avó esperava sua neta. Quando a menina a viu, veio correndo em sua direção, lágrimas escorriam pelos seus olhos. Naquela manhã, Lavínia a empurrara na hora do lanche e todo mundo começou a rir.

– Calma minha filha. Hoje mesmo vamos dar um jeito nisso.

Elas chegaram em casa e foram para o quarto de Amanda. Julie tinha preparado um colchão no chão para a filha dormir e sua mãe dormiria na cama da filha. Amanda insistira para que a avó dormisse junto com ela. Maxine abriu sua mala e tirou dela um grosso tecido marrom fenestrado. Mostrando para a neta passo a passo, começou a preencher o tecido com algodão, costurando nos lugares certos, até a coisa adquirir uma forma humana. Não era difícil. Bastava saber onde cortar e onde costurar. Depois pegou uma coisa que parecia um livro. Era, na verdade, um acervo com vários tipos de tecido. O tecido de algodão branco foi fácil de encontrar. Um tecido xadrez, parecido com a saia que Lavínia usava, foi mais difícil um pouco, ainda assim conseguiram encontrar um parecido o suficiente. O tempo todo, Maxine insistia para que a neta repetisse a canção que cantava. Palavra por palavra. Não, não podia falar errado. Tinha que dizer as palavras do jeito exato que a avó ensinava.

Julie chegou e achou a casa estranhamente silenciosa. Foi até o quarto da filha, viu a luz acesa e a porta aberta. Quando olhou lá dentro um sorriso aqueceu seu coração. A televisão estava desligada, o computador desligado e a menina, sentada ao lado da avó, costurava uma saia xadrez em uma boneca. Amanda levantou os olhos e viu sua mãe, que parecia segurar o choro. A garota levou a boneca até ela, mostrando como ela e a avó haviam feito tudo sozinhas.

– Vou deixar vocês aí enquanto faço a janta.

A avó chamou a menina para perto. Agora era o momento mais delicado. Pegou dois botões pretos e colocou no lugar dos olhos. Pegou os dois fios de cabelo que tinha arrancado da garotinha e os entrelaçou com fios de costura.

– Agora, você tem que cantar sozinha. Do jeito que a vovó ensinou e, enquanto canta, costurar os olhos no lugar certo. Isso. Desse jeito mesmo. Acho que está parecida o suficiente.

Maxine pegou a boneca em suas mãos. Deu um sorriso para a neta. Seu rosto logo se transformou em uma carranca. Suas unhas pareceram virar garras. Ela segurou a cabeça da boneca com força e a arrancou com um movimento seco. A menina se assustou, mais com a crueldade que vira nos olhos da avó do que com a mutilação da boneca, mesmo assim ficou em silêncio.

– Amanhã, você me conta o que aconteceu.

No dia seguinte, Lavínia não foi na aula. Estava internada na UTI. A professora pediu para que todos os alunos rezassem para que sua coleguinha ficasse boa logo. Uma veia tinha estourado em seu cérebro. Não era muito comum naquela idade, mas podia acontecer. As orações foram inúteis. Dois dias depois a menina morreu.

No período em que passou no Brasil, Maxine e Amanda não se desgrudavam. Iam ao shopping, viam televisão, iam ao cinema, faziam tudo juntas. Julie as vezes acompanhava, porém, uma difícil ação da firma, tomava a maior parte do seu tempo. Fora uma benção a visita da mãe ter coincidido com aquele momento tão ocupado no escritório. Os ataques de raiva de Amanda tinham desaparecido. A velha Maxine resolvera o problema.

Tudo que é bom dura pouco. Apesar dos pedidos da filha, depois de dois meses Maxine decidiu que era hora de voltar para casa. Sentia saudade da sua terra natal. Amanda entendeu. Claro que sentiria saudades da avó, iriam continuar se falando todos os dias pelo computador. Julie tinha conseguido entregar o processo antes do prazo e teve tempo de deixar a mãe no aeroporto. No natal se encontrariam de novo.

Quando Julie chegou em casa escutou mais uma vez os barulhos de tiros. Foi até o quarto de Amanda e viu a menina jogando o jogo que havia proibido. Foi até a parede e puxou a televisão da tomada. A garota se sobressaltou, só que desta vez não ficou sentada na cama, emburrada, simplesmente disse:

– Tudo bem mãe. Não vou mais jogar.

A menina foi até a mãe e a abraçou. Julie se abaixou e deu um beijo na bochecha da filha, que passou a mão pelos seus cabelos, para depois dizer que ia dormir. Depois que sua mãe fechou a porta, Amanda abriu a gaveta do criado. Uma boneca sem olhos repousava ao lado de dois botões negros. A menina começou a entoar a canção que sua avó tinha lhe ensinado, entrelaçando os fios de cabelo de sua mãe com os fios de costura.

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