Introdução

            Gosto de participar do prêmio Off-Flip. Sem qualquer embasamento, acredito que ganhar um concurso promovido pela equipe organizadora da feira de livros de Parati, me proporcionará uma maior possibilidade de fazer contatos úteis, contatos que me ajudarão a fazer minha carreira literária desencalhar. Além disso, é um concurso pago, por isso tem menos inscritos, o que, na minha opinião, aumenta minha chance de vencer. Até o momento, isso não tem dado muito certo.

O conto que enviei, foi baseado em uma história em quadrinhos. A DC comics tem um personagem chamado Rip Hunter, que é um viajante no tempo. Em uma de suas histórias, ele fala que a morte ideal seria ser comido por um dinossauro. Somado a isso, eu sempre fui um cidadão passional. Quando desejo o mal para uma pessoa, eu não desejo que essa pessoa perca o emprego, ou tenha uma diarreia. Desejo a morte. Dessa forma, tenho certeza que algum dia serei atendido. Dessa mistura improvável, apareceu esta narrativa.

Conto

            Leonardo estava confuso. Sua visão estava escura e as únicas palavras que escutava eram ditas em uma língua que não conseguia entender. Gradativamente, a luz voltou aos seus olhos, ao mesmo tempo que os sons começavam a fazer algum sentido. A língua era inglês. Esta era a viagem que sonhara fazer por toda a sua vida. Nova York. O Museu de História Natural. Olhou para baixo, viu dentes afiados cravados no seu tórax e não conseguiu impedir suas memórias de virem à tona. Leonardo olhou para baixo mais uma vez e viu o sangue correndo farto por seus ferimentos. Ele não aguentou. Começou a rir. A vida é uma filha da puta irônica.

            Seu avô tossia no quarto ao lado. Já era a quinta noite seguida que Leo não conseguia dormir por causa da maldita tosse do velho. Abafou a cabeça com o travesseiro, mas mesmo assim a tosse conseguia encontrar o caminho até seus ouvidos. Ela vinha em salvas. Algumas vezes aguda e seca, como seu pai dizia, uma tosse de cachorro. Infelizmente, na maior parte delas, a tosse borbulhava, grossa. Uma tosse de agonia. Ele conhecia todos os timbres que a tosse do avô era capaz de fazer. A única coisa que ele não ouvia era o que mais ansiava. O silêncio. Os médicos tinham falado que não podiam fazer nada. “O pulmãozinho dele não consegue mais respirar direito e o vovô está muito fraquinho para o tratamento. Os doutores deixaram a gente trazer ele para cá, desse jeito nossas orações ficam mais perto dele. Você vai rezar pelo vovô meu bem?” Depois desse dia sua mãe fazia ele e seu irmão se ajoelharem na beirada da cama do avô e rezarem, todos os dias, às cinco da tarde. Isso fora há cinco dias atrás.

            Desde então sua casa ficou uma bagunça. Sua mãe o tirou de seu quarto e colocou um colchão no chão para que ele dormisse no quarto do irmão. Não era justo. Ele era o mais velho. Já tinha 9 anos. Porque o Bernardinho podia dormir na cama e ele tinha que dormir ali? Dois dias depois seus tios chegaram e a casa ficou ainda mais cheia. Tinha fila para tomar banho, fila para ir ao banheiro, fila para comer. Além disso, nunca conseguia escolher o canal da televisão que queria. A tosse, que impedia seu sono, era só a cereja estragada deste bolo amargo. Seu irmão não parecia se importar com nada. Só tinha 5 anos, nem sabia o que estava acontecendo. Enquanto isso, ele ficava ouvindo a maldita tosse do avô. Se os médicos falaram que ele estava morrendo porque ele simplesmente não morria logo. Sem perceber, Leo começou a imaginar seu avô quieto, imóvel na cama. Depois de alguns minutos a tosse parou. Leo sentou-se em seu colchão, assustado. Será que, com o poder do pensamento, ele tinha matado o avô? Pé ante pé, o garoto seguiu pelo corredor até seu quarto. Seu tio dormitava em uma poltrona reclinável, com o abajur aceso e um livro no colo. Não foi necessário se aproximar do leito do avô para saber que ele ainda vivia. Da porta do quarto escutou a ruidosa respiração que borbulhava, do mesmo jeito que a tosse fazia às vezes. Com um suspiro aliviado ele voltou para o quarto e dormiu sua melhor noite de sono dos últimos dias.

            Na manhã seguinte Leo acordou com sua mãe esfregando seu rosto. Ela não precisou falar nada para ele entender o que tinha acontecido. Sem dizer nada, abraçou a mãe. Tinha matado o avô com o pensamento, só porque ele tossia. A culpa, mais do que a saudade, o fez chorar compulsivamente no ombro da mãe. Ela abraçou forte o menino e chorou também. Foi um dos abraços mais gostosos que já recebera em sua vida. Se sua mãe soubesse o que tinha feito nunca mais o abraçaria. Ninguém nunca mais o abraçaria. Tornara-se um assassino. Era preciso manter aquilo em segredo.

            Dois meses depois, a morte do avô já quase não o incomodava mais. Estava na casa do vizinho, brincando no quintal com seu amigo e o cachorro dele. O cão era um dócil labrador amarelo, que adorava buscar a bolinha e brincar de pegador. Os dois corriam pelo gramado, ora atrás do cachorro, ora fugindo. De repente, o irrigador do gramado ligou e começou a molhá-los. Ele olhou para trás e viu a mãe do vizinho acenando para ele, para que ele brincasse na água. Naquela tarde tão quente, nada podia ser melhor. O cachorro tentava morder a água e depois corria atrás deles. Um dos jatos do irrigador tocou no seu braço ao mesmo tempo que o cachorro tentava mordê-lo. Os dentes do cão encontraram seu braço. Se tivesse que ser honesto consigo mesmo, teria que admitir que não sentiu dor, só um susto. Mesmo assim, seus olhos se encheram d’água e começou a chorar. Seguiu em direção a escada com três degraus que dava acesso à porta da cozinha aos berros e apertando o braço. A mãe do vizinho pegou seu braço nas mãos e viu que não tinha nenhum ferimento, só um discreto vermelho no lugar onde os dentes do cão tocaram. Ela acariciou o braço de Leo, beijou sua testa e disse para que voltasse ao quintal, podia continuar brincando.

            Ele não queria. Queria voltar para casa. Ela não insistiu e caminhou com ele, afagando a sua cabeça enquanto ele massageava o braço atingido. Sem que pudesse conter sua imaginação, viu Argos, o labrador do vizinho, indo de encontro a um caminhão. Ele afastou a imagem o mais rápido que pode da sua mente, ainda assim a vizinha viu seu rosto e perguntou o que tinha acontecido. A resposta era óbvia. Nada. Pelo menos por enquanto. Agora só restava torcer para ele ter sido rápido o suficiente. Ele gostava de Argos. Infelizmente, uma semana depois, um caminhão vermelho o atropelou quando ele atravessou a rua para pegar a bolinha, duas quadras dali.

            Quando ficou sabendo da morte, mais uma vez sentiu-se culpado. Estava com a cabeça enfiada no travesseiro chorando quando um pensamento lhe passou pela cabeça: era capaz de prever o futuro ou de fato sua mente matava as pessoas? Talvez sua imaginação não matasse, só conseguia ver o que já estava fadado a acontecer. Para diferenciar era fácil. Infelizmente, era preciso fazer um teste. Jaime era um menino odioso. Todas as vezes quando chegava na escola, Jaime derrubava seus livros. Além disso, o apelidara de Nariga. Todo mundo agora só chamava Leo de Nariga. Ele odiava. É claro que ria quando diziam isso, mas no fundo odiava. Tinha que ser em um lugar próximo, onde poderia testemunhar a morte e ter certeza de que acontecera do jeito que imaginara. O pai de Jaime era amigo do seu. Às terças ele passava na sua casa e os levava para o futebol. O que mais dava raiva era que, perto dos adultos, o menino era um santo. Ele imaginou Jaime esquecendo de colocar o cinto. Seu pai freava bruscamente para evitar um buraco e o garoto atravessava o para-brisa.  Uma boa morte. Uma morte rápida. Agora, todas as vezes que ia para o futebol, Leo colocava o cinto. Infelizmente, Jaime também. Até que na segunda semana depois do seu pensamento, sua nêmese não colocou o cinto. Estava tomando um sorvete e seu pai disse que, assim que terminasse de comer, era para colocar. Leo checou se o cinto estava apertado e se segurou no banco da frente. Antes que o menino acabasse de comer, seu pai viu um bueiro aberto e pisou violentamente no freio. Jaime atravessou o vidro da frente do carro e aterrissou no asfalto, morto.

            Ao mesmo tempo que aquilo era assustador, era maravilhoso. Leo tinha consciência do quão terrível aquilo podia ser. A morte de Argos fora acidental, portanto, era preciso tomar cuidado com o que pensar. É claro que lhe passou pela cabeça imaginar coisas boas. Ganhar na loteria. Beijar a garota mais bonita. Fazer o gol da vitória no último minuto. Não funcionava. Só funcionava com a morte. Já que esse era seu dom, não fazia sentido não o usar.

 Uma noite, na faculdade, ele bebeu demais e dormiu no banheiro. Um colega abaixou suas calças, tirou fotos e espalhou para todo o campus. Este garoto morreu bêbado, coberto de fezes, urina e vômito no chão do mesmo banheiro onde tirara as fotos embaraçosas. Leonardo casou-se aos 31 anos. Uma cerimônia maravilhosa. Cinco anos depois, sua esposa morreu de pneumonia, agonizando na UTI. O amante foi a óbito porque teve uma gangrena no pênis. Os médicos nunca tinham visto algo parecido. Um colega de trabalho foi promovido, o chefe disse que Leo era a segunda escolha. Este colega teve uma morte tranquila enquanto dormia. Já o chefe, aquele maldito canalha, mereceu cada umas das 17 facadas que o assaltante lhe deu.

            Um dia, algo lhe ocorreu. E se acidentalmente imaginasse sua própria morte, do mesmo jeito que fizera com o cachorro? Neste exato momento um pensamento pareceu querer vir até sua mente e Leonardo começou a contar até dez, vinte, trinta, o mais rápido possível. Falando alto era mais fácil espantar qualquer pensamento. Antes de pensar, era necessário um plano. Foi aí que teve a ideia perfeita. Imaginou-se velho, com dentes de tiranossauro cravados no peito. Era claro. Era óbvio. Como seria possível tomar uma mordida de dinossauro, se dinossauros não existiam. Naquele dia, teve certeza que viveria para sempre. Sentiu-se leve, feliz consigo mesmo. Aquela talvez fora a melhor ideia que tivera, a melhor ideia de todos os tempos. Pelo menos, fora isso que pensara na época.

            Agora, aos 78 anos, Leonardo olhava para baixo e via dentes de tiranossauro cravados profundamente em seu tórax. Viu as pessoas tentando estancar o sangue, algumas acariciavam sua cabeça. Seguranças começaram a fazer um círculo em torno dele, protegendo o perímetro. Quando começou a rir, até os seguranças olharam para trás. Era preciso admitir. Aquilo era engraçado para cacete. Todos deviam estar se perguntando como a cabeça do dinossauro, imóvel há anos, caiu em cima de um turista. Começou a tossir, e sua tosse borbulhou. Borbulhou sangue. Parecida com a do avô. A vida, de fato, é uma filha da puta irônica.

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