Introdução

            Este conto foi o meu trabalho mais influenciado pela minha profissão. Como endocrinologista, vejo diariamente pessoas ingerindo uma quantidade absurda de alimentos que fazem mal para a saúde. Independente do problema que isso possa acarretar, a maior parte das pessoas não para de comer. É muito mais difícil convencer uma pessoa a fazer uma caminhada de trinta minutos do que tomar um comprimido.

            Tinha sido aberto o edital para o prêmio Flor do Ipê, que é promovido pela universidade da minha cidade. Desta vez, não tive ilusão de que, por ser de Catalão, teria mais chances de ganhar, só queria participar. Nos dias subsequentes, fiquei pensando no que aconteceria se descobríssemos a fórmula da vida eterna. Será que seria uma vida tão feliz assim e, principalmente, será que estaríamos dispostos a fazer o necessário para viver para sempre? Abaixo está minha derrotada resposta.

Conto

            Um bebê sugava avidamente o peito da mãe. A senhora parecia incomodada com a força que a criança usava para sugar o precioso líquido branco e, a todo o momento, mudava a criança de posição. Bruno ficou parado ali, admirando aquela rara cena. Quando fora a última vez que vira um neném?  Vinte anos? Cinquenta? O tempo parecia algo tão irrelevante ultimamente. Ele retirou do bolso da lateral da mochila uma garrafa de plástico transparente, cheia de um líquido verde, e deu longos goles. Como definir aquele gosto? Aquilo era a única coisa que ingerira nos últimos séculos, por isso era incapaz de recordar qualquer outro sabor. Se lembrou de um tempo antigo, quando a única coisa que as mães davam para os bebês era o suco de sálvia. Não era incomum ver “recém nascidos” com trinta ou quarenta anos. Demorou mais de dois séculos para o governo finalmente proibir esta prática. O primeiro gole de sálvia immortalis só era permitido após os 15 anos.

            A mãe terminou de amamentar, levantou-se e foi embora. Bruno ainda ficou sentado no banco da praça, admirando o entardecer. Era tão difícil se mover quando nada te movia. Antigamente as praças tinham grandes gramados com jardins de flores, bem cuidados, que a essa hora exalavam um doce aroma na cidade. Agora era tudo immortalis. Só immortalis plantada em cada vaso, em cada jardim, em cada praça, em cada horta. O céu passou do azul para o rosa do rosa para o negro. Viu ao longe, alguns relâmpagos no horizonte escuro e decidiu tomar um pouco de chuva. Na verdade, ele decidiu não se mover. A chuva era só um bônus.

            As memórias vieram sem serem chamadas, como não tinha nada em que pensar, deixou-as fluir soltas. Aproveitando a liberdade, elas correram livres pelos campos do seu pensamento. Lembrou-se das primeiras notícias sobre a planta que conseguiu ao mesmo tempo mudar o mundo e mantê-lo igual. Um avião caiu na Amazônia há mais de um milênio. Depois de um mês as equipes de busca tinham recuperados todos os corpos menos um. Alfredo Molina. Um biólogo. Três meses após seu enterro (um enterro simbólico onde a família colocou em um caixão roupas, discos, fotos e fez seu ritual de despedida) ele chegou a Alvarães, município do Amazonas, bem nutrido, com a saúde melhor do que antes. Sua diabetes estava curada. Sua miopia desaparecera. Na mochila, ele só carregava um estranho arbusto. Alfredo não era simplesmente um biólogo. Era botânico e afirmava que tinha feito a descoberta do século. Todos o trataram como louco, disseram que o tempo que passou no meio da mata tinha prejudicado seu cérebro, mas quando uma pessoa urbana passa quatro meses desaparecido na selva amazônica e sai de lá com a saúde melhor do que quando entrou, fica difícil ignorá-la.

            Alfredo disse que sobreviveu comendo somente os arbustos que carregava na mochila. Contou como, após dez dias, perdido, febril, teve uma visão. Ele viu um tuiuiú comer um arbusto para depois sentar-se e virar um ovo. Acordou, do seu sonho e viu que o arbusto que o pássaro comera estava crescendo a sua volta. Ele comeu duas folhas e sua febre passou. Na terceira, sentiu que suas forças voltavam. Na décima folha jogou os óculos fora. Ficou uma semana comendo as folhas e nem o frio nem o calor o incomodavam. Os mosquitos pararam de sugar seu sangue. Além da planta, não comeu mais nada e mesmo assim não sentia fome. Foi então que começou a fazer mudas. Usava pedaços de plástico, cascas de árvore, pedaços das próprias roupa e as mudas se desenvolviam a uma velocidade incrível. Enquanto caminhava pela floresta ele as espalhava por onde passava. Ficava um tempo até que elas crescessem, reabastecia seu suprimento de plantas e depois voltava a caminhar. Dessa forma, ele alegava que conseguira sobreviver e sair da floresta.

            Os cientistas começaram a conduzir os primeiros testes. Alfredo ficava repetindo que aquilo era inútil, aquela era uma propriedade da alma da planta, impossível de ser isolada. Ele estava certo. Em nenhuma parte do mundo conseguiram isolar o que tinha de diferente naquele arbusto. Parecia ser só mais uma espécie de sálvia, como tantas outras. Só que neste caso, se você a comesse pura, ou fizesse um suco, suas doenças desapareciam. Infelizmente, ninguém ficou mais jovem. A visão de um pássaro voltando para dentro do ovo deu a esperança de que Alfredo tivesse encontrado o elixir da juventude. Idosos tomaram quantidades absurdas de salvia immortalis, mas não viram suas rugas diminuírem. Não viram seus cabelos voltar a escurecer. O que demoraram mais de dez anos para descobrir, foi que eles também não viram nenhuma ruga nova aparecer. Descobriram que não conseguiriam voltar no tempo. Só era possível pará-lo.

            Bruno acompanhou as notícias sobre Alfredo de perto. Desde a infância temia patologicamente a morte. Fazia exercícios físicos, tinha uma dieta saudável, tudo na tentativa de prolongar sua vida, apesar de saber que um dia, independente do que fizesse, seu fim chegaria. Quando as primeiras matérias sobre a sálvia immortalis saíram ele sentiu um alívio. Existia uma alternativa para a morte. As primeiras mudas chegaram ao mercado custando mais que um carro de luxo. Ele não se importou e comprou. Começou a cultivar no quintal da sua casa. Seus pais morreram quando tinha vinte anos, agora aos 30, morava sozinho em uma casa de quatro quartos, duas suítes, uma enorme sala de estar além de um quintal espaçoso. Era surpreendentemente fácil fazer com que a planta crescesse. Ele virou o fornecedor local. As pessoas traziam todas suas economias para ele em busca de algumas folhas. Depois de poucos anos, parou de cobrar, já não precisava de mais dinheiro. Foi no seu bairro que a disseminação em massa da planta começou. Era o orgulho dele nos primeiros séculos. Agora, parecia não importar. Ninguém parecia se importar.

            O primeiro a entrar em colapso foi o sistema de saúde. Hospitais ficaram jogados às traças. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas, qualquer profissional de saúde se viu subitamente sem emprego. Para que procurar um médico se bastava comer algumas folhinhas e tudo estava curado? Depois de quase quinze anos veio uma importante descoberta científica. Caso quisesse parar de envelhecer era preciso comer somente a planta. Nos dias que alguém comesse alguma coisa que não a sálvia, esta pessoa não ficaria doente, mas envelheceria aquele dia.  Foi a vez dos restaurantes, padarias, supermercados, lanchonetes, irem a falência.

Era de se esperar que, com tamanho colapso econômico, o caos iria se alastrar rapidamente. Não foi o que aconteceu. Quando se tem comida e saúde ninguém se desespera. Além disso, com literalmente todo o tempo do mundo disponível, qualquer um consegue encontrar uma nova profissão.

Pouco depois do colapso dos restaurantes, na Rússia, Bóris Grushenko fez uma importante descoberta. Você podia fazer um coquetel de vodca e immortalis que isso não te envelheceria. Ele já tomava o coquetel há trinta anos. Você não ficava tão bêbado quanto antes, porém ficava com sua consciência levemente alterada. Ficava alegre. Os bares ressurgiram. As boates. As raves. Depois de algum tempo descobriram que qualquer bebida alcóolica, se misturada com a sálvia, podia ser ingerida. A sociedade voltou a fervilhar. Outro fato curioso foi que, menos de cinquenta anos após a descoberta da sálvia immortalis, a criminalidade chegou a zero. A planta parecia inibir a vontade de consumir drogas. Com comida na mesa ninguém se preocupava em roubar. Em cada casa, por mais pobre que fosse, existia um pequeno canteiro onde a sálvia florescia.

O governo só teve que intervir quando serviços básicos começaram a ser interrompidos. Saneamento. Transporte. Limpeza. Educação. Os salários triplicaram e mesmo assim ninguém queria trabalhar. A solução foi encontrada pela Noruega. Ela obrigou os cidadãos a fazerem um rodízio. Cada pessoa tinha que trabalhar dez anos e teria direito a cem anos de folga. Quem desertasse do serviço público obrigatório ficaria preso por cinco anos sem poder comer a planta milagrosa. A pessoa de fato envelheceria cinco anos. Era assustador. Com o tempo a razão falou mais alto. Eram só dez anos. O que significava dez anos em um período de um século. Dez por cento. Todos concordaram que era uma decisão muito sensata. O governo Norueguês foi aplaudido de pé no famoso conselho de Wroclav, onde todos os países do mundo adotaram esta medida.

As empresas privadas também começaram a ter uma diminuição da mão de obra. Ninguém mais queria trabalhar. Trabalhar para quê? O dinheiro parou de ter sentido. As empresas agora cobravam tempo. Quer viajar? Voos domésticos custavam um, depois dois, depois três, depois seis meses de trabalho. Voos internacionais, no mínimo um ano de trabalho, dependendo da distância, até quatro anos. Algumas empresas fizeram promoções de volta ao mundo por dez anos de trabalho. Construtoras seguiram o exemplo. As pessoas agora construíam suas próprias casas. Bastava trabalhar por alguns anos para uma construtora, que depois disso eles te ajudavam a construir a sua própria casa depois.

Especialistas diziam, que com a raça humana livre das obrigações de trabalho, a tecnologia se desenvolveria dez vezes mais rápido. Em menos de cinco anos estaríamos andando em carros voadores. Em dez teríamos conquistado o universo. Não chegamos nem perto disso. Se, para os serviços básicos era difícil conseguir gente, imagina para trabalhos mais especializados. Cientistas tiravam meses para ficar com sua família, por tantos anos negligenciada. Quem estava prestes a fazer a descoberta do ano, interrompia sua pesquisa para conhecer o mundo. Era só voltar para ela depois que terminasse de viajar. A pesquisa ainda estaria lá. Eles só não sabiam era que, o interesse em pesquisar, não. A vida era boa. Todos tinham casas e carros de luxo. O saco da ambição, parecia finalmente cheio.

O mercado alimentício demorou cerca de trezentos anos para ressurgir. No interior da França, Auguste Escoffier descobriu um velho livro de receitas da mãe. Ele tinha 78 anos quando a imortalidade fora descoberta. Sua esposa morrera há dois anos. Seus filhos faleceram em um acidente de carro. Nem ele sabia dizer porque usava a sálvia, ainda assim a usava. Segundo seu relato, disse que ao ler as receitas da mãe conseguiu sentir o cheiro das comidas que ela fazia. Ele sabia que tinha que comer de novo. Infelizmente, a maior parte dos ingredientes se perdera. Todo mundo só cultivava sálvia. Felizmente, algo que Auguste tinha em abundância era tempo. E com tempo, tudo é possível.

Em sua fazenda, conseguiu cultivar açafrão, salsa, cebola, alho, tomate, alface, noz moscada, além de voltar a criar patos, porcos e bois. Na cidade, as pessoas diziam que ele estava louco. Quando queriam punir algum preso, davam um tipo de ração industrializada. Se queria morrer, porque simplesmente não comprava a ração? Seu argumento era simples. Ele não queria morrer. Queria viver. Um garoto de cento e cinquenta anos que morava na sua cidade, que usava a sálvia desde os dezesseis, viu algo além naquele velho. Começou a ajudá-lo no trabalho da fazenda. Juntos, os dois cozinharam a primeira refeição e a dividiram. Magret de Canard. Peito de pato acompanhado de purê de batatas, temperado com sal, alho e pimenta do reino.

Aquela era a lenda. Hoje, o garoto conhecido como Roger Vergé, era o lendário dono da rede de restaurantes “Viva Por Um Dia”. Lá, você pode preparar sua própria refeição e reviver a experiência de comer. O cliente entra, cozinha sua refeição, come, lava sua louça. Alguns gostam tanto da experiência de cozinhar que se propõem a fazer comida para outros. A todo o momento tinha gente querendo trabalhar para o restaurante. Era a única empresa que sempre tinha empregados. Depois de ser taxado de louco, Auguste ficou famoso por ter reinventado o prazer de comer. Ele morreu cinco anos depois de ingerir sua refeição. Roger, hoje um gordo senhor com aparência de quarenta anos, disse que ele morreu sorrindo no paraíso. Um fato interessante é que, quem come a sálvia não engorda, só que não emagrece. Você mantém o seu peso. Se todas as vezes que o indivíduo sai da dieta, come comidas calóricas ele engorda, porque os únicos dias que de fato “passam” para seu corpo são os dias que se come. Por isso Roger era gordo. Por isso a população, gradativamente, estava engordando. Quando alguém queria sair da dieta, não era para comer uma salada verde, sim uma feijoada.

Bruno nunca entrara em um restaurante destes. A morte o amedrontava demais para deixar de tomar a sálvia um dia sequer.

Com o aparecimento da imortalidade, era esperado que a população aumentasse rapidamente. Não foi isso que aconteceu. O corpo de uma mulher grávida tem que passar por várias mudanças durante a gravidez. Quem usava a sálvia immortalis continuamente estacionava o corpo do jeito que estava. Portanto, para engravidar, a mulher tinha que parar de usar a planta. No início algumas estavam dispostas, até que, com o passar dos anos, era raro ver alguma mulher que queria ter filhos. Todas as que não queriam ainda adotavam a superioridade de quem está fazendo um bem para o mundo. “Estamos salvando a Terra”. Por mais arrogante que a frase parecesse, de fato estavam. Pelo menos por enquanto.

Bruno voltou a si. Suas memórias tinham ido bem longe. Só então percebeu que estava completamente encharcado. Sabia que estava frio, mas a planta o protegia do incômodo que o frio causava. Por quanto tempo estivera ali, perdido em pensamentos? Não fazia a menor ideia. As luzes da cidade já estavam acesas e a chuva tinha começado e parado, só restara o cheiro doce de sálvia molhada. Suas roupas começavam a secar ao sabor da brisa noturna. Não sentia a menor vontade de voltar para casa. Seu casarão estava vazio, e as únicas plantas lá eram as mesmas que o rodeavam na praça. Levantou-se e caminhou em direção ao rio. Outro grande benefício da immortalis. Os esgotos estavam mais limpos, além dos dejetos industriais terem diminuído drasticamente, o que resultava em rios mais limpos. Pouco antes de chegar na margem, escutou o barulho de algo pesado caindo na água. Por curiosidade acelerou o passo. Chegou até a pequena ponte e não conseguiu ver nada, apesar de ouvir o barulho de algo se mexendo na água. Desceu as escadas e chegou no passadiço perto da margem. Lá, sob a luz artificial de um dos postes, viu uma garota nadando na água fria. Por um momento ele pensou em pular para salvá-la, só que pareceu que ela não precisava de salvamento. Então disse:

– Ei!

– Oi?

– Você está bem?

Ela não deu resposta, mas Bruno ouviu a água se movimentando cada vez mais perto. A garota chegou perto da margem, e ele percebeu que ela estava nua. A menina, movimentando os pés e os braços para manter-se flutuando disse:

– Estou ótima. Porque?

– Não sei. Quase ninguém nada no rio. Digo, em todos os anos que moro aqui, nunca vi ninguém nadar nesse rio. Fiquei preocupado.

– Você nunca nadou?

– Não.

– Porque?

– Não sei. Nunca tive vontade.

– Não está com vontade agora?

Bruno percebeu que sim, estava com vontade de nadar no rio. Porque aquilo nunca lhe ocorrera antes? Simplesmente dar um mergulho no rio, sentir a água fluindo pelo seu corpo. As águas ali eram calmas, o risco era praticamente zero. Quando fora a última vez que nadara? Cem, duzentos anos? Não sabia. Não fazia diferença. Começou a se despir e a moça afastou-se um pouco da margem, aplaudindo e sorrindo. Por pudor, manteve a cueca. Pegou um pouco de impulso e pulou de ponta na água fluvial gelada.

Ele foi à tona ao lado dela. Dentro da água, podia vê-la melhor. Tinha o cabelo loiro, a pele branca, os olhos amarelos. Abaixo da superfície, dois pontos róseos, ondulados pela água, marcavam os mamilos da garota.

– Está boa não está?

– Está ótima. Porque eu nunca nadei aqui antes? Você vem sempre aqui?

– Não. É a primeira vez. Mas uma coisa é injusta. Eu estou sem calcinha enquanto você está de cuecas.

            Bruno olhou para baixo. Ele tinha muita vergonha. Sempre teve. Nunca fora tão espontâneo como esta noite. Mas alguma coisa estava no ar. Pela primeira vez, em anos, sentiu que estava à véspera de uma descoberta importante, algo que nem ele sabia o que era. Uma sensação refinada de excitamento percorreu seu corpo. Em um impulso ele tirou a cueca e a arremessou em direção à margem. A roupa de baixo caiu na água, a poucos centímetros do alvo e afundou.

            – Pelo jeito você vai ter que voltar para casa sem ela.

            – É. Não faz mal.

            – Sabia que você foi o primeiro a entrar no rio comigo?

            – Mas você disse não tinha o costume de nadar por aqui?

            – Não neste rio, só que já nadei em vários rios. Estou viajando há algum tempo e por toda cidade que passo, eu entro nos rios principais. Muitas vezes ninguém nota. Não tem ninguém por perto. Uma vez uma senhora jogou uma boia para me salvar. A maior parte das pessoas faz igual a você. Só pergunta se estou bem. Você foi o primeiro a entrar no rio comigo.

            Bruno ficou calado. Ela sorriu. Ele sorriu. Não sabia o que dizer, aproximou-se da garota e a beijou. Ela devolveu o beijo, mas só por um momento. Depois o afastou.

            – Como é seu nome?

            – Paloma.

            – É um nome muito bonito. Diferente. Você está viajando há muito tempo?

            – Uma década mais ou menos. Vem, vamos sair. Eu estou com frio.

            A menina nadou até a margem. Quando chegou perto, fez sinal para que ele virasse de costas. Ele sorriu e obedeceu. Depois de um tempo, ouviu:

            – Pode sair. Eu fico de costas agora.

            Ele saiu, se vestiu rapidamente e se aproximou dela. Alguma coisa estava errada. Ela tremia de frio. Ele a tocou no ombro e ela virou-se para ele.

            – Sua casa não é aqui perto por acaso, é?

            – É sim, porque?

            – Estou morrendo de frio.

            – Você não está comendo a sálvia?

            – Hoje não. Vou ficar um tempo sem comer.

            Bruno arregalou os olhos assustado. Como uma pessoa estava disposta a ficar sem comer a planta da imortalidade? Ela viu as perguntas nos olhos dele, porém, antes que ele pudesse falar qualquer coisa, disse que quando chegassem em casa, ela explicaria. Ele se ofereceu para carregar a mochila da garota, como cortesia, e ela aceitou. Bruno seguiu na frente, indicando o caminho. Paloma se aproximou encolhida e Bruno a envolveu com seu braço. Ela aceitou o afago por um tempo, só que deste jeito andavam mais devagar. Paloma o apressou, fazendo-o quase correr.

            – Tem água quente na sua casa?

            – Claro que tem.

            – Tem alguma comida?

            – Sálvia?

            – Comida de verdade?

            – Não

            Os dois entraram na em casa e ela rapidamente pediu as indicações do banheiro. Ele mostrou onde era uma das suítes que estava desocupada há muito tempo. Disse para ela que entrasse no chuveiro, em pouco tempo traria toalhas, sabonetes e lençóis para a cama. Bruno preparou tudo, deixou no quarto, fechou a porta e foi, ele mesmo, tomar banho. Deixou a água quente cair pelos seus cabelos e pensou como era estranho. Tinha a sensação de calor, tinha a sensação de frio, só que aquilo não o incomodava. Quem usava a sálvia era incapaz de sentir o frio que Paloma sentira. Mais real do que a própria realidade são as nossas percepções da realidade. Terminou o banho e olhou-se no espelho. Era o mesmo Bruno. Cabelos compridos e pretos. Alto. Magro. Não havia nada de novo ali. Pegou um grosso roupão preto, amarrou os cabelos em um coque e saiu do quarto. Encontrou-a sentada no sofá da sala, vestindo o roupão branco que ele separara para ela, com um livro no colo comendo uma cenoura! Não era um chocolate artesanal ou um refinado prato feito com os melhores temperos. Era uma simples e crua cenoura. A insana estava desistindo de um dia para comer somente uma cenoura. Aquilo não conseguia entrar na sua cabeça. Quando ela se deu conta da presença do anfitrião, ofereceu a cenoura que estava comendo e ele recusou, como Paloma sabia que recusaria. Bruno sentou-se ao lado da garota e, antes que falasse qualquer coisa, ela disse:

            – Agora nós vamos ter a conversa né?

            – Que conversa?

            – Sobre o porquê de eu estar desperdiçando um dia para comer comida normal.

            – Já teve esta conversa muitas vezes?

            – Muuuuiiitttaaasss. Não sei nem dizer quantas. Em todas as casas que fiquei, todo mundo me pergunta isso.

            – Já ficou em muitas casas?

            – Em cada cidade fico em uma diferente. Engraçado. Depois da salvia, as pessoas ficaram menos desconfiadas. É muito fácil arranjar um lugar para ficar. Pelo que eu li, antigamente, quase ninguém abria as portas para um desconhecido. Acho que a planta de fato tem muitas vantagens.

            – Claro que tem. Não morrer é a principal delas.

            – Claro que é. Eu como a sálvia a maior parte do tempo. Para você entender melhor deixa eu te fazer uma pergunta. Quando foi que você leu um livro publicado no último ano? Na última década? No último século? Você não leu. Você não viu nenhum filme recente. Por que? Porque não tem nenhum. Nós vemos as mesmas coisas que os nossos ancestrais. Ninguém produz mais nada. Parece que nada de novo existe Ninguém está interessado em fazer nada, porque a sálvia para o tempo. Então tudo é para depois. Parece que ninguém tem interesse em mais nada. Sabe, sou tão velha quanto você. Já estive em todos os lugares. Já li todos os livros. Este – disse a menina mostrando a capa de “Vinhas da Ira” de John Steinbeck – eu já li umas mil vezes. Todas comendo a sálvia. E sabe o que eu aprendi lendo este livro enquanto comia a sálvia? Nada! Um dia eu tinha voltado de uma noite no Viva por Um Dia. Era uma noite quente. Uma noite calorosa. Eu estava no meio de Crime e Castigo. Cheguei em casa e li a parte em que Sófia se prostitui pela primeira vez. Comecei a chorar. Não sabia há quanto tempo não chorava. Decidi começar o livro do começo e ler até o fim, só comendo comida normal. Aquilo me mudou para sempre. Eu soube então que eu iria morrer. Soube que eu não estava disposta a nunca mais sentir aquela sensação. Queria me sentir do mesmo jeito que me senti lendo aquele livro. Queria sentir o calor da noite de novo. A sálvia não para só o seu corpo. Para sua mente. A gente deixa de amadurecer. Sei lá. Talvez a morte não seja tão ruim afinal. Talvez a sálvia esteja nos privando do melhor momento da nossa vida. Você já pensou nisso?

            – Talvez não tenha nada depois dessa vida.

            – E será que isso é tão ruim

            – Eu gosto da minha vida.

            – Gosta mesmo? O que você gosta tanto sobre a sua vida? Você já viu o mundo, mas qual lugar te emocionou? Você já leu vários livros, qual o seu preferido? Qual foi seu dia favorito? Quando foi que você sentiu um frio na barriga? Além do mais, não é como se eu estivesse com pressa de morrer. Só gosto de viver de vez em quando. Eu ainda como a sálvia, na maior parte do tempo. Acho que não devo ter ficado, no total, nem um ano sem comê-la.    Bruno abriu a boca para responder, mas ficou calado. O que ela estava falando, ao mesmo tempo fazia e não fazia sentido. Ela olhou para ele, os olhos brilhando de esperança. Ele olhou para ela, com um olhar de incompreensão.

            – Sabe, você foi o primeiro a entrar no rio comigo.

            – Você disse isso.

            – Quem sabe… – ela disse pensativa. Talvez aquilo significasse alguma coisa. Em todos esses anos nenhum comedor de sálvia immortalis tinha se disposto a entrar em um rio com uma estranha, só por entrar. Só por não ter nada melhor para fazer. Ela não podia ter certeza, mas tinha que tentar. Aquela era a chance. Talvez a única.  – Sabe o que eu nunca fiz enquanto não estava comendo a planta?

            – O que?

            Ela não respondeu. Abriu um pouco o roupão e beijou-lhe a boca. Ele sentiu o calor dos lábios da menina. Sentiu lascívia. Bruno começou a beijar o corpo dela. Inteiro. Ali mesmo, no sofá os dois transaram. É claro que ele gostou, só que ela estava em um nível totalmente diferente. Paloma parecia estar sentindo coisas que ele só podia sonhar em sentir. Depois do ato, eles foram para sua cama onde a garota dormiu, quase instantaneamente. Ele ainda não estava com sono. Ficou passando a mão nas costas de sua companheira e seu coração pareceu bater diferente. Uma batida. Só uma. Uma batida errada. Certa? Talvez. Algo parecia estar ali. Ele precisaria cavar um pouco se quisesse descobrir o que era. Deitou-se, colocou as duas mãos sob a cabeça e olhou longamente para o teto. Ainda estava com uma sensação estranha. Aquela sensação de estar quase resolvendo um problema de matemática. Algo estava lá.

            Bruno demorou. Muito. Ficou muito tempo deitado. Sabia o que precisava fazer, só que era necessário juntar coragem. Depois de mais de quatro horas, revirando na cama sem dormir, decidiu levantar-se. Paloma dormia ainda. Deu mais uma olhada para a cama e seguiu em direção ao quarto que ele preparara para a visitante. Lá, encontrou a mochila dela. Sem pudor algum abriu-a. No meio de roupas, maquiagens, produtos de higiene pessoal, em um saco plástico, encontrou duas cenouras. Abriu o saco pegou uma e deu uma mordida. O vegetal era crocante. Não, aquilo não era um manjar dos deuses. Só era comida. Mordeu de novo. Seu estômago pareceu pedir mais. Só um pouco mais. Deu mais uma mordida, sentindo a cenoura estalar em sua boca. Escutou um barulho e viu Paloma na porta do quarto, olhando para ele.

            Com lágrimas nos olhos, ela sorria.

Nenhum pensamento

  1. Adriano, que delícia (será a cenoura?) de leitura. Eu costumo dizer que gosto dos textos que sinto no corpo, e esse é de uma velocidade sufocante. Não é pressa por terminar a leitura, é uma velocidade, como se você, de alguma maneira, tivesse conseguido mexer na passagem do tempo (engraçado que só depois que eu comecei a comentar foi que me dei conta disso), enfim, vou precisar pensar nisso que estou sentindo após essa leitura.

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