Introdução

            A Vivendo de Inventar estava organizando uma antologia de contos românticos. Eu confesso que não gosto muito de histórias românticas. Minha visão de mundo é resumida pelo personagem de Kevin Spacey, Buddy, no filme, O Preço da Ambição: “todos mentem, os mocinhos perdem e o amor não triunfa no final”. Só que nessa vida, temos que fazer o que é necessário. Para ter alguma chance de entrar na seletiva era preciso de uma história romântica, portanto, escrevi uma.

            Usei de inspiração um filme chamado Elsa e Fred que é uma comédia romântica entre dois idosos. Acredito que na história que escrevi, faltou originalidade, mas, sejamos sinceros, ninguém quer originalidade em uma história de amor. O que as pessoas querem é um final feliz. Talvez eu esteja só sendo um cínico filho da puta. Talvez por isso meu conto não tenha sido escolhido para a coletânea.

Conto

            Ciro estava rodeado por conhecidos estranhos. Fazendo acompanhamento há mais de quarenta anos com o doutor Marcos, nenhum dos rostos que aguardavam na sala de espera era inédito. Apesar de nunca ter cumprimentado nenhuma dessas pessoas essa familiaridade com desconhecidos era reconfortante. Não deixava espaço para surpresas. O atendimento demorava um pouco e era até melhor assim, não tinha muito o que fazer em casa. Estava entretido, folheando uma revista velha quando escutou a porta da clínica se abrir e viu um rosto que nunca vira antes. Uma senhora com os cabelos curtos, tingidos de um loiro discreto, vestindo calças de brim marrom, uma blusa verde escura e um casaco vermelho entrou. Usava maquiagem leve, sem sinais de muitos procedimentos estéticos. A pouca importância que dava para as rugas que marcavam seu rosto, compunha a sua beleza. Ao contrário de muitas da sua idade, não tinha muitos sinais de procedimentos estéticos. Ela simplesmente envelhecera bem. A mulher falou com a secretária do doutor Marcos, deu um sorriso para a moça e sentou-se ao seu lado. Apesar da sala não estar vazia, havia várias cadeiras disponíveis. Ela sentara-se ao seu lado propositalmente. Ciro endireitou-se no assento e a cumprimentou com um sorriso.

            Subitamente consciente de si mesmo, ele endireitou-se na cadeira, passou a mão pela barra do casaco e a pousou no colo, sem saber exatamente o que fazer. O perfume cítrico da mulher era delicioso. Estava morrendo de vontade de olhar para o lado, dizer alguma coisa, exatamente por isso não fez nada. Mais uma vez, adolescente. Com toda a naturalidade do mundo ela tocou em seu ombro e perguntou:

            – Sabe se o médico demora muito a atender?

            – Demora um pouco, mas vale a pena. Ele é muito bom.

            – Você é paciente aqui há muito tempo?

            – Sou sim, cliente fiel. Ele foi o médico que acompanhou minha esposa até o fim.

            – Então ele não é um médico assim tão bom.

Ela disse isso com o rosto muito sério, só depois deixar escapar um suave sorriso com o lado esquerdo da boca. Ciro, perplexo ficou com a boca entreaberta sem saber o que dizer por longos segundos até soltar um longo “aaaahhh” e uma gargalhada discreta, quase involuntária. Ninguém brincava com esse tipo de coisa. O humor dela era corajoso. Bom. Ainda sorrindo ele se explicou:

– Ela tinha chagas. Ficou muitos anos sofrendo. Eu venho mais para acompanhar a pressão. Nada muito grave. E você?

– Já quer saber o que eu tenho sem nem saber meu nome?

Mais uma vez ele sorriu. Levantou as mãos em um pedido de desculpas enquanto ela estendeu a mão:

– Cândida. Maria Cândida na verdade, mas prefiro só Cândida. Acho que o mundo não precisa de mais nenhuma Maria.

– Prazer, Cândida, meu nome é Ciro.

– É um bom nome este. Acho que não conheço nenhum Ciro.

O sorriso dela era maravilhoso. Natural. Enquanto apertavam as mãos, a recepcionista chamou seu nome. Ele apontou o dedo para si mesmo e se levantou com um aceno. Seguiu a recepcionista até a antessala onde uma enfermeira o aguardava.

– Como está seu Ciro, tudo bem hoje?

– Tudo bem Gláucia.

Ela colocou o aparelho em seu braço, aferiu sua pressão, depois o pesou, anotou os dados em um papel e complementou:

– Frequência cardíaca normal hoje, seu Ciro? Acho que estou perdendo meu charme…

Ele fez um sinal negativo com os dedos e pegou na mão da enfermeira. De fato, todas as vezes que a jovem enfermeira se aproximava ele sentia palpitações. Nunca teria coragem de ser indiscreto ou indelicado, mas o toque da bela mulher, por mais profissional que fosse, enviava sinais que seu corpo ainda não aprendera a diferenciar. Surpreso consigo mesmo pela mudança, saiu do cômodo e foi se sentar novamente ao lado de Cândida.

– Já?

– A enfermeira vê os sinais primeiro. Só depois é a consulta, agora já não demoram a me chamar.

– Então pelo jeito eu só vou sair daqui no final da manhã.

– É provável.

– Sortudo você.

– Não foi sorte. Só acordei cedo. A espera não me incomoda tanto. Não é como se eu tivesse muita coisa para fazer hoje.

– Se a espera não te incomoda, porque você não me cede o seu lugar.

– Não posso fazer isso. Não sou eu quem escolhe a ordem dos pacientes.

– Então porque você não espera aqui comigo?

Ciro ia sair dali, fazer uma caminhada de vinte minutos até sua casa para se sentar em frente à televisão e reclamar consigo mesmo da programação horrível. Pensou por cinco segundos e disse:

– Combinado.

Pouco tempo depois ele foi chamado. Sua consulta demorou menos de dez minutos, ele só precisava mostrar os exames de rotina que fizera. Voltou para o lado de Cândida e conversaram. Começaram com os assuntos mais óbvios, como família, trabalho, para em pouco tempo começarem a falar sobre literatura e cinema. Quando tentava conversar com alguém mais novo a pessoa o tratava como um senil, e só lhe dava atenção por educação. Quando tentava conversar com alguém da sua idade o assunto era só doença, ou fluidos corporais. Era bom ter uma conversa normal. Depois que Gláucia aferiu os dados vitais, de Cândida, ela comentou em tom jocoso que o médico era esperto, queria dar ataques no coração dos velhinhos com a enfermeira bonita”. Ele riu. Era fácil rir ao lado dela. Quando ela foi chamada para a consulta, foi a vez de ele tomar a iniciativa:

– Já é quase hora do almoço. Você tem algum plano?

– Não…

– Vamos almoçar juntos?

– Claro. Estou cansada de comer o resto da comida de ontem.

– Te espero aqui então.

Ciro a esperou por quase meia hora. Primeiras consultas sempre eram mais demoradas. Ela saiu e fez um sinal com a mão para que ele se levantasse. Quando estavam saindo do consultório ela casualmente passou o braço no seu, como se fossem um casal. Ciro sentiu seu coração acelerar enquanto um calafrio percorria sua espinha. Se ela percebeu qualquer coisa, não disse nada. Apoiou por meio momento a cabeça em seu ombro e seguiram até o ponto de táxi.

– Onde vamos almoçar?

– Você que convidou, você decide.

Ele acenou afirmativamente com a cabeça e disse um endereço para o taxista. Fazia muito tempo que não saía, torceu para que o lugar ainda estivesse aberto. Quando chegou no endereço viu o letreiro familiar da Cantina da Nona:

– Melhor macarrão da cidade.

– Eu não como macarrão.

Ciro arregalou os olhos em um susto. Cândida conseguiu segurar a cara séria por dez segundos inteiros, antes de soltar uma sonora gargalhada, enquanto ele soltava um longo suspiro de alívio.

– Você é muito bobo.

– Eu sou bobo? Essa só é a primeira vez que nos vemos. Como vou saber do que você gosta ou não gosta?

– Primeira vez, é? Não parece.

Ela disse isso e colocou uma mecha rebelde de cabelos atrás da orelha, ao mesmo tempo que lançava um olhar com o canto do olho e um meio sorriso. Meu Deus ela era linda.

Os dois saíram pela porta aberta que o taxista segurava. Cândida tentou dividir a tarifa do táxi, mas Ciro fez questão de pagar. Era um homem a moda antiga, mas Cândida disse:

– Dessa vez passa. Mas a conta do restaurante a gente divide. Senão eu vou embora.

Relutante, ele concordou com a cabeça e viu que o braço dela aguardava o seu. Ciro aceitou o convite e entraram de braços dados no restaurante. Pediram uma garrafa de vinho e a tomaram inteira (ainda bem que sua filha não estava lá) depois pediram outra. Talharine ao molho gorgonzola (pai, olha o tanto de gordura) que ele temperou com bastante pimenta e sal (pai, olha a pressão). Ela pediu um espaguete ao molho funghi. Ela provou do seu prato, ele provou do dela. Quando eram três horas da tarde e estavam no meio da segunda garrafa de vinho, Ciro olhou para ela e perguntou:

– Por que eu? A sala não estava lotada, o que fez você sentar ao meu lado?

– Sinceramente?

– Sinceramente.

– Não sei. Gostei do seu rosto? Da sua roupa? Parei de pensar nos porquês há algum tempo. Te vi lá, sozinho, e resolvi sentar lá. Faz alguma diferença?

– Não. Não faz nenhuma.

 Cândida segurou a mão de Ciro, apertou com força e olhou nos seus olhos. Ele segurou o olhar e esfregou a mão dela com seu polegar. Estavam sentados de frente um para o outro. Não disseram nada. Ficaram por longos minutos sentindo o calor de suas mãos. Ela apoiou a cabeça na mão que segurava a de Ciro e levantou os olhos, com um sorriso ao mesmo tempo lúgubre e jovial. Sem querer estragar aquele momento ele não disse nada, só apertou a mão dela com mais força. Ela quebrou o silêncio:

– Nós não teremos muito tempo, não é mesmo?

– Muito? Muito não. Só o suficiente.

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