Introdução

            Lembro com clareza o dia que a ideia para este conto foi semeada no meu cérebro. Estava revendo o filme “Antes do Amanhecer” e logo no início do filme o personagem interpretado por Ethan Hawke fala que no dia que sua avó morreu ele conseguiu ver a imagem dela no arco íris formado pelas gotas de água que um regador de grama jogava. Aquela semente ficou muito tempo na minha cabeça. Inicialmente tinha planejado para ser um conto infantil, mas não conseguia fazer o conto funcionar mentalmente, por isso sequer tentei escrevê-lo.

            A ideia ficou lá. Dormente. Até que, em uma noite insone, depois de mais de duas horas sem conseguir dormir, decidi levantar. Tenho a felicidade de ter um bom apartamento que me proporciona uma bela vista das luzes da cidade. Sentei na varanda e comecei a relembrar do dia em que minha avó paterna morreu, meu primeiro contato com a morte. Ainda guardo na memória o momento que entrei na sala de velório errada e vi o corpo de uma estranha no seu repouso final com algodões em suas narinas. Aquela imagem vívida me acompanha até hoje.

            Peguei o computador e escrevi a história. Escrevi sem ter um concurso específico na cabeça. Acabei mandando para um concurso menor, infelizmente não recordo o nome. Ganhei mais uma derrota para a coleção. Pelo menos tirei esta história da cabeça. Enquanto não coloco uma ideia no papel ela fica me perseguindo, implorando para ser usada.

Conto.

            Todo mundo diz que no final da vida você se lembra melhor das coisas que aconteceram na sua infância do que de todo o resto e esta é a mais pura verdade. Você é capaz de esquecer o que comeu no almoço de ontem, mas se lembra perfeitamente o que comeu no almoço quando fez dezoito anos. O que ninguém te fala é que quando se é velho, é possível se lembrar dos cheiros. Engraçado, quando se é jovem é impossível de fato recordar cheiros. Você pode fechar os olhos e visualizar uma lembrança, pensar em uma música e murmurar a melodia, porém não consegue reviver uma fragrância. Pode até ser capaz de identificar um perfume conhecido quando o sente, porém não de fato senti-lo. Na velhice, eu posso. Sinto com clareza todos os cheiros da minha juventude, mesmo que meus quarenta anos de tabagismo tenham acabado com meu nariz. Atualmente passo os dias deitado, olhando pela janela sentindo cheiros infantis, esperando a chegada da minha hora. Ainda bem que hoje está chovendo. Quando está chovendo meu gramado fica embaçado e as gotas de chuva fazem danças feéricas na janela. Ajuda meu tempo a passar. Ajuda a morte a chegar mais perto. Já não penso tanto na morte. Ela me aterrorizava quando eu era jovem. Hoje não mais. Olho para ela mais como uma esperança do que como uma sentença. Aos oitenta anos não consigo nem ir ao banheiro sem sentir dor. A morte não pode ser pior do que a artrite dos meus quadris. Enquanto admiro minhas gotas de chuva dançando na janela, lembro-me do meu primeiro contato com a morte e, claro, me lembro do cheiro.

            Eu tinha seis anos, era um sábado de manhã. O que me acordou não foi o barulho da porta se abrindo ou a luz acendendo. Foi o perfume. Samsara. Fecho os olhos e consigo sentir seu cheiro amadeirado. Minha mãe sentou-se em minha cama, eu já estava acordado, mas mantive os olhos fechados. Senti seus dedos longos acariciando minha cabeça enquanto ela dizia:

            – Joaquim… Acorda meu bem

            Eu até não estava com sono, só que fiz um pouco de manha. Queria um pouco mais de cafuné. Abracei sua perna e escondi meu rosto em sua coxa enquanto ela continuou, dizendo:

            – Filho, você precisa se arrumar. A vovó teve um problema.

            Abri meus olhos imediatamente e a encarei assustado. Vi seus olhos vermelhos e seu nariz inchado. Minha avó estava internada há muitos dias, mas aquele conceito de doença era meio abstrato para mim. Quando fui visitá-la no hospital ela parecia bem, até me deu um abraço. O soro na veia era só pra fazer o remédio e logo logo ela estaria boa. Vovó mesmo disse. Além disso, ela tinha me prometido que ficaria boa e que quando ficasse ia me levar até o zoológico. Em uma promessa da vovó você podia confiar. Minha mãe continuou:

            – Esta noite ela acabou piorando e não conseguiu mais respirar. Morreu hoje de manhã. Nós precisamos nos arrumar para ir ao velório.

            Enquanto minha mãe dizia isso eu vi as lágrimas escorrendo pelas suas bochechas e comecei a chorar também. Ela me abraçou e me afundei no seu pescoço sentindo o cheiro do Samsara, tentando me confortar com aquele perfume. Mesmo de luto ela tinha tomado banho, penteado o cabelo, colocado sua melhor roupa e passado perfume antes de me chamar. Essa era minha mãe. Ela me soltou, enxugou as lágrimas e disse para eu ser um menino bonzinho e me apressar porque não podíamos demorar para chegar ao cemitério. Eu acenei com a cabeça e, no intervalo entre começar a me arrumar e ficar pronto, já me sentia melhor. Engraçado os sentimentos de crianças. Suas alegrias e tristezas são efêmeras. Vivem no intervalo de um momento. Fui correndo para a cozinha tomar café da manhã com um sorriso no rosto, mas quando cheguei lá e vi os rostos dos meus pais consegui lembrar de ficar triste de novo. Sentei e comi o café da manhã com a cara mais triste que consegui, enquanto minha mãe ficava enxugando seu nariz com o lenço e meu pai acariciava suas costas. Na minha cidade não era comum chover em junho, só que naquele dia caía uma garoa fina, o tipo que dura o dia inteiro. Além disso, um vento frio soprava. Parecia apropriado.

            Entrei no carro e vi as gotas de água escorrerem pela janela, seguia meus movimentos com seus dedos. O trajeto de carro não deve ter durado nem quinze minutos, porém me pareceram horas. Eu havia seguido as gotas de chuva, brincado com meus polegares, amarrado e desamarrado meus sapatos duas vezes e ainda assim não tínhamos chegado. Não cantei, entretanto. Sabia que aquele momento não era o momento certo para cantar. Chegamos ao cemitério e de longe vimos a aglomeração. Muitas pessoas de preto, chorando, se abraçando. Minha mãe desceu do carro e me pegou pela mão. Quando chegamos perto das pessoas ela me soltou e começou a cumprimentar os outros parentes que estavam por ali. Eu fiquei quietinho. Minhas tias pegavam minhas bochechas, me beijavam ou pediam um beijo. Beijei a todas. Outras vezes quando elas me beijavam eu limpava imediatamente a bochecha, ou quando me pediam beijo eu virava o rosto. Não naquele dia. Naquele dia eu tinha que ser um bom menino. Mas… ser um bom menino cansa. Depois de pouco tempo ali, encontrei com o Juca. Ele era meu primo, só três meses mais velho, morava na capital e quando nos encontrávamos era brincadeira o tempo inteiro. A gente até tentou ficar quieto, sentamos em um banco perguntei o que ele estava fazendo, ele perguntou o que eu tinha feito. Até que ele deu um tapa na minha cabeça e saiu correndo. O que eu deveria fazer? Ficar quieto? Claro que não. Fui correndo atrás dele, até que ele foi para o gramado, no meio das sepulturas. Parei imediatamente. Não parecia certo pisar ali. Minha mãe ia ficar brava. O problema foi ele me mostrar o dedo do meio e me chamar de maricas. Não aguentei. Saí correndo atrás dele de novo, mas ele era rápido, vi que não ia conseguir alcançá-lo, peguei uma pedra pequenininha do chão e acertei bem na nuca. Ele virou para mim e começou a chorar. Era sempre assim. O Juca me provocava e depois começava a chorar. O maricas era ele. Eu ia voltar para o lado da minha mãe, tentar disfarçar o que tinha acontecido, mesmo sabendo que ele ia contar tudo para minha tia, quando senti um apertão na minha orelha. Meu pai começou a me puxar de volta dizendo:

            – Pelo menos uma vez nessa vida fica quieto menino. Sua mãe está triste. Senta e fica quieto.

            Eu sentei. Fiquei quieto. Ficar quieto é muito chato. Não importava quantas vezes eu desamarrasse e amarrasse meus sapatos o tempo não passava. Fui para perto do meu pai e ele colocou a mão na minha cabeça e rodou a mão dois centímetros para a direita. Era o mais próximo de um cafuné que ele era capaz de chegar. Olhou para mim, piscou o olho e disse:

            – Desculpa. Agora é sério. Tenta ficar quieto, por favor.

            Eu fiquei. Por um tempo. Aí o Juca olhou para mim e colocou a língua. Meu pai percebeu meu corpo tremendo para ir até ele e apoiou sua mão na minha cabeça mais forte. Entendi o recado. Fiquei quieto. Depois o Juca me pagava. Meu pai então me deu a mão e perguntou se eu queria ir lá dentro para ver minha avó. Não, não iríamos ver minha avó. Só o corpo. Nos despedir, ele disse. Encolhi os ombros com indiferença e fomos até a sala onde estava o caixão. Quando a vi, a primeira coisa que notei foram os algodões no nariz. Porque alguém colocaria algodões no nariz. Perguntei para o meu pai e ele só disse que era algo que faziam com os defuntos. Cheguei mais perto dela e olhei para seu rosto. Aquilo não parecia ela. Em nada. Minha avó, quando não estava sorrindo, estava mandando a gente calar a boca. Ou me chamando de Quindim. Só ela me chamava de Quindim. Não sei porque, sempre chamara assim. Agora, nunca a tinha visto séria daquele jeito. Séria não. Sem expressão. Aquela face sem vida podia até lembrar a da minha avó, porém não era dela.

            Pouco tempo depois fecharam o caixão e levaram-no até a sepultura. Eu queria segurar uma alça, mas meu pai disse pra eu ficar quieto e que era muito pesado. Eu até fiquei com vontade de dar uma birra, queria muito segurar uma alça, porém me controlei e, mais uma vez, fiquei quieto. Segurei sua mão e fomos caminhando enquanto minha mãe seguia na frente, abraçada em uma das minhas tias. Os funcionários do cemitério baixaram o caixão e começaram a fechar um dos buracos com tijolos. Fiquei assustado e perguntei ao meu pai como minha avó ia respirar. Desta vez ele não me mandou ficar quieto. Olhou para mim e sorriu um sorriso triste.

            – Mortos não respiram filho.

            Olhei para a sepultura enquanto eles a enchiam de terra. Minha mãe soluçava alto na minha frente. Senti vontade de chorar de novo e enfiei a cara na calça do meu pai enquanto ele apoiou sua mão em minha cabeça e girou-a dois centímetros para a direita. Senti o cheiro de amaciante da sua calça ao mesmo tempo que enxugava meus olhos e nariz. Papai não se importou, só continuou com a mão apoiada em minha cabeça. Voltamos para o carro quase em silêncio. Minha mãe soluçava. Sentei no banco de trás e meu pai arrancou com o carro, dando as costas para o cemitério. Fiquei de joelhos e olhei para o banco de trás, a garoa continuava caindo e continuaria caindo até o outro dia pela manhã, mas naquele momento, eu juro, um raio de sol conseguiu furar as nuvens e fez um pequeno arco-íris na janela do carro. Através do arco-íris vi minha avó sorrindo e acenando para mim. Sorri para ela e acenei de volta e, sem saber o porquê, uma lágrima começou a escorrer pela minha bochecha.

            Olho novamente para a janela. A garoa de hoje parece muito com a daquele dia. Até esta janela parece com a janela de trás do carro de papai. Talvez por isso tenha me lembrado daquilo. Deste primeiro contato com a lúgubre donzela. De repente vejo um raio de sol furar as nuvens e um arco-íris se formar em minha janela. Uma garota bonita, jovem, loura, sorri para mim e me chama. Levanto em um pulo, sem sentir meus quadris, e abro a janela. Ela ainda está lá, no meu gramado. Só que meu gramado não é mais meu gramado. Não acaba no muro do vizinho, continua, infinito, verde. Faz sol aqui fora. Chego correndo até a garota que me abraça e me dá um longo beijo na bochecha.

            – Como foi a viagem Quindim?

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