Introdução

            Este é, sem dúvida, meu conto favorito.

            Era uma época em que eu estava lendo muito Jorge Luís Borges. Em uma quinta feira, estava na casa dos meus pais e vi o jornal em cima da mesa da sala. Peguei o caderno que falava sobre cultura e vi uma coluna chamada “A Arte Não Salva”. Comecei a ler porque o título me chamou atenção. No texto, Contardo Caligaris falava sobre como os Nazistas tinham um gosto para arte semelhante ao dele e como isso o incomodava. Quantas vezes não vemos pessoas que são completos idiotas gostarem das mesmas músicas que gostamos, ou dos mesmos livros. Infelizmente acontece. No mesmo dia, saí com um amigo e começamos a falar sobre teologia, um dos temas que mais gostamos de conversar. Quando fui deitar naquela noite, pouco antes de dormir, tive a ideia para o conto. A história apareceu completamente montada na minha cabeça. Senti uma coisa no meu peito que me dizia que aquela história era boa, tinha certeza disso, mas preferi deixar o efeito do álcool passar para ter certeza.

            Na manhã seguinte continuava com a história na cabeça somada a uma sensação de plenitude. Sabia que tinha uma boa história. A escrita fluiu, em menos de trinta minutos tinha o conto completo nas mãos. Estava confiante. Mandei para meus revisores habituais (minha mãe e dois amigos) dizendo que estavam lendo o conto que ganharia o próximo prêmio Off-Flip. Disse isso com confiança. Podia escutar uma voz dentro do meu peito que dizia “esse conto abrirá as portas do mercado literário”. Tive certeza disso. Já podia me ver, em junho, em Parati, recebendo o prêmio e fazendo contatos com os editores que mudariam o rumo da minha carreira literária.

            Aquela voz era uma mentirosa.

Conto

            “… porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.” Deus fechou o livro, pensativo, e o apoiou sobre seu colo. Estava sozinho sentado em uma poltrona azul, sua favorita, perfeita para o seu tamanho. Tirou o livro do colo e olhou longamente para a capa até que enfim o colocou sobre a mesa.  A mesa era branca, ficava ao lado da poltrona, como sempre tinha sido e como sempre seria. Elevou a voz e disse:

            – Gabriel! Venha aqui um instante.

            Uma estranha criatura surgiu na ampla sala, que não tinha portas, paredes ou teto. Uma luz branca sem fonte definida se estendia por toda a sala, também branca, que se estendia até o infinito. A única mobília eram a poltrona e a mesa. Um ser bípede, não um homem, caminhava lentamente. Sua pele passeava do negro para o roxo, depois azul, algumas vezes adquiria escamas em outras parecia ser feita de pedra. A cada passo a cabeça mudava. Leão, águia, cobra, gente. Gabriel tinha a inconstância dos artistas e, apesar de ser o único ser vivo com quem Deus gostaria de conversar, toda esta mudança já estava irritando:

            – Pare de mudar de forma quando conversar comigo.

            A criatura estabilizou sua pele com escamas verdes mantendo uma forma antropomórfica apesar da cabeça de serpente. Deus percebeu que ele balançava incansavelmente o rabo e iria mandá-lo parar, mas preferiu ser um pouco tolerante:

            – Claro Senhor. Sobre o que é esta conversa?

            – Já leu este livro? Disse Deus apontando para Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez.

            – Obviamente não senhor. Nunca precisei lê-los. Quando me criastes, já sabia o conteúdo de todos os livros que foram ou serão escritos.  Sabes disso.

            – Não, não sei. Abri mão da onisciência há éons. Muito chata esta tal da onisciência. Deixa isto para lá. Voltando ao livro. Quem condenou os Buendia a cem anos de solidão? Definitivamente não fui eu. Aparecem um monte de personagens no livro que não são solitários. Porque foram condenados? De onde estes seres tiram estas ideias, Gabriel?

            – Acredito que o destino os tenha condenado. Talvez suas próprias atitudes. Respondendo à sua segunda pergunta, existem vários tipos de solidão e algumas delas são acompanhadas. Desculpe minha arrogância porém, caso não saibas disso, talvez não devesses ter aberto mão da onisciência. Agora, sinceramente, não sei de onde os humanos tiram suas ideias. Só conheço as obras em si.

            – Você não é muito útil não é Gabriel? Vá fazer o que quer que você faça e me deixe em paz.

            A estranha criatura virou as costas sem dizer uma palavra sequer e começou a caminhar, voltando a mudar de forma incansavelmente, até desaparecer. Deus abanou a cabeça negativamente e levantou-se de sua cadeira. Aquele livro tinha mexido muito com ele. Era melhor ficar sozinho um pouco. Começou a caminhar com suas pequenas pernas na direção oposta de Gabriel. Não tinha dado nem 20 passos quando escutou um estalo atrás de si. Virou-se e viu um homem gigantesco em pé. Ele tinha barba, cabelos longos e brancos, ombros largos, vestia uma túnica branca além de sandálias de madeira. O homem viu a sua frente um pequeno anão usando uma bermuda verde, camiseta vermelha e chinelos pretos. Há milênios nada de interessante acontecia naquela sala, por isso, ao mesmo tempo que ficou assustado, Deus não conseguiu deixar de ficar animado:

            – Quem é você? E o que está fazendo aqui?

            – Eu sou quem deveríeis ser. Na verdade quem deixastes de ser. Carrego comigo a ciência de tudo o que acontece, aconteceu ou acontecerá, ao mesmo tempo. Não estou só aqui. Estou em tudo. Tudo ao meu redor sou eu. Tudo em qualquer lugar sou eu. Em um universo com tantas pessoas acreditando em mim achas que podes simplesmente deixar de ser eu e ser um indivíduo? Mas algo ainda falta em mim, por isso apareci aqui. O único ingrediente que não tenho é Tu. Porque apesar de Tu seres eu e eu ser tudo, de alguma forma não sou tu. Este é o único enigma que ainda tenho e preciso da sua ajuda para decifrá-lo. Como isto é possível? Sou Tudo o que existe. Sou Oceano. Sou Vento. Sou Poeira. Sou Humano. Sou Gabriel. Sou Aqui. Sou Depois. Mas não sou Tu, e somente Tu, podes me dizer o porquê.

            Deus ficou maravilhado, sem entender bem o que acontecia. Se aproximou do gigante à sua frente e olhou para cima. Ele não sorria. Não chorava. Em sua expressão não mostrava qualquer sinal do enigma que o intrigava, somente olhava para baixo, com o rosto vazio. A mesma expressão que Gabriel tinha ainda há pouco. O Anão circundou seu companheiro, encostou em sua túnica e sentiu a textura do infinito. Viu que as sandálias não tocavam o chão. Bateu com a ponta do indicador nelas e não escutou som algum. Uma lembrança muito antiga voltou-lhe a mente. De quanto tempo atrás? Séculos? Eras? O que era esta lembrança na verdade? Sabia de alguma coisa, mas sempre que tentava olhar para ela com os olhos da memória aquilo parecia mudar de lugar. Ficou frente a frente com seu visitante e deu duas puxadinhas na túnica do gigante, sinalizando que ele se abaixasse. Queria ver o olhar que o estranho tinha.

            O gigante se ajoelhou mas ainda estava muito alto, por isso decidiu sentar-se com as pernas em posição de lótus. Deus colocou suas pequenas mãos na face do desconhecido e olhou profundamente em seus olhos. Então entendeu. Ele era sim o gigante. O ingrediente que faltava. O ser onisciente estava incompleto porque não sabia o que fazer com sua onisciência. Não tinha personalidade. Enquanto se olhavam nos olhos, o Anão foi se esvaindo dentro do olhar e começou a se tornar um só com o indivíduo. Em um instante que se prolongou pelo infinito a essência se tornou uma com a presença. Agora Ele Era. Olhou para suas mãos enormes pela primeira vez, por um segundo. Não. Não por um segundo. O tempo não existia. Passado, presente e futuro não tinham significado. Ele Era e Estava. Sempre. Agora. Para todo o sempre agora.

            Olhou para a cima e viu o Nada e estava também no Nada. Mas o Nada é chato. Não acontece nada. Continuou no Nada ao mesmo tempo que se moveu para o Big Bang e o Big Bang não era nada chato. Estrelas e planetas voavam para longe. Longe? Não existia longe. Não existia perto. Tudo simplesmente existia e como Ele era tudo então estava sempre presente em todos os lugares. Onipresente, voou em todas as direções ao mesmo tempo em que já estava no destino aguardando por si mesmo. Já tinha chegado no tempo em que tinha saído. Tempo. O tempo não existe. O tempo não é. Somente Ele era. Em tudo e em todo lugar. Nunca aguardou de verdade porque sempre esteve, estava, estará. Sentiu o desespero de um gnu cuja vida se esvaía e a satisfação da leoa que alimentaria seus filhotes. Correu junto com uma família que se desesperava enquanto perseguia a si mesmo com jorros de lava incandescente. Orou pelo filho que morria de câncer, mas não conseguia parar de multiplicar suas células malignas em um caos organizado e extasiante. Era maravilhoso se multiplicar. Ajoelhou-se e implorou por sua vida, mas simultaneamente apertava o gatilho com um sorriso. A vida era uma equação tão bonita quanto a morte. De repente sentiu que a essência se esvaía dos seus dedos para o infinito. Era tudo menos a si mesmo. Não podia Ser e ser. Gostava de si mesmo, de se divertir, de acompanhar a luta da raça humana, que arrogantemente se achava sozinha no universo. Não queria perder essa luta, mas se continuasse Sendo isso aconteceria. Tinha que abrir mão de Tudo, só assim poderia ser. Se quisesse poderia criar alguém para o seu lugar, porém não teria coragem de colocar todo este peso nas costas de um só. Melhor dividir o fardo. Por dois? Não. Seriam quatro. Sempre foram Quatro. Sempre serão quatro. Gabriel, Miguel, Rafael e Samael. Gabriel saberia e estaria em todos os tipos de arte. Pintura, Literatura, escultura, cinema, quadrinhos, grafite, desenhos, crianças. Miguel estava presente em tudo. Nas árvores, no mar, no vento, nas pessoas, nos animais, nos planetas e nos alienígenas. O tempo não existiria para Rafael, seria sempre agora para ele. Para Samael o fardo mais pesado. Carregaria o Final.

            De repente olhou para suas mãos. Pequenas de novo. Como sempre haviam sido. Passou suas mãos pequenas pela sua camiseta vermelha e pela bermuda verde. Como sempre haviam sido. Levantou os pés para ter certeza de que os chinelos ainda estavam lá e se reconfortou quando sentiu os pés firmes no chão. Não conseguiu conter a alegria de caminhar e correu, por menos de vinte passos, quando viu uma poltrona azul. Sua poltrona favorita. Sentou-se e começou a rir sozinho. Era tão bom ter uma coluna e senti-la se ajustando perfeitamente ao estofado marcado com seu peso. Olhou na mesinha e viu Cem Anos de Solidão. Será que já tinha lido este livro? Acreditava que não. Deus pegou o livro em suas mãos, folheou as páginas e sentiu o cheirinho de literatura. Não, não lembrava de ter lido. Abriu a primeira página e leu: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento…”

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