Introdução

A maior dificuldade da carreira de escritor é que você não sabe exatamente o que fazer. Para me tornar médico, estudei, passei no vestibular, estudei, passei nas provas, estudei, passei na residência de clínica médica, estudei passei na residência de endocrinologia, pronto, estava empregado. Já para se tornar escritor, ninguém sabe exatamente o que é necessário. Cada escritor que eu admirava tinha sido descoberto de uma maneira diferente. Fazer uma faculdade de letras não me daria garantia nenhuma de entrar no mercado literário. Foi aí que apareceu a newsletter da vivendo de inventar.

Eles enviavam diversos e-mails onde diziam que iriam ensinar o caminho das pedras para se tornar um escritor de sucesso. Eu, ansioso porque não tinha ganhado nenhum concurso, me sentindo um fracasso porque segundo romance também estava sendo ignorado pelas editoras, resolvi fazer uma tentativa. Abriram uma seletiva para agenciarem três escritores iniciantes e, uma das exigências para ser avaliado, era escrever um conto de horror que envolvesse folclore brasileiro e se passasse em uma tribo indígena.

Tive esperanças de que dessa vez daria certo. Pesquisei uma tribo brasileira pouco conhecida, a tribo Rikbaktsá, um povo que perdeu noventa e cinco por cento de sua população por serem guerreiros ferozes. Li uma tese de mestrado que falava de suas tradições e lendas. Procurei no google maps onde ficava a tribo e quais os rios permeavam a região. Fiquei sinceramente orgulhoso do meu trabalho. Fui rejeitado pela agência.

Conto

– Continue comendo desse jeito e Harãmy vai pegar você Apiwo!

            Seu irmão de oito anos parou de comer imediatamente e esbugalhou os olhos negros, que se encheram de lágrimas. A mãe, ao ver o terror do garoto, disse:

            – Para com isso Mariana, deixa o Paulo em paz. Ninguém vai te pegar não, viu, meu bem.

            Atupi sorriu. Acordara elétrica, ansiosa pelo feriado, porque poderia colocar em prática o que o avô havia lhe ensinado sobre a floresta. Nas últimas semanas estava tão ocupada com provas e trabalhos que mal teve tempo de respirar. Levantou-se e foi ajudar a mãe nos trabalhos de casa para poder ter a tarde toda livre. Arrumou seu quarto, deu comida para as galinhas e lavou os banheiros, relembrando os momentos em que estava no colo do avô, brincando com suas grandes orelhas de pau, enquanto ele a ensinava sobre os mistérios da floresta. A menina de pele marrom e longos cabelos negros sentiu um aperto no peito e os olhos marejarem, mas enxugou suas lágrimas sem deixar a mãe ver. Não era mais criança, não precisava chorar. Terminou suas tarefas, pegou sua capanga e colocou nela três colares, que há muito tempo não usava, para se proteger de Harãmy quando entrasse na floresta. Depois que o pai chegou começaram a almoçar, ouviu seu irmão mais novo chupando os ossos com tanto barulho que não podia perder a chance de passar medo no garoto:

            – Vovô só me chamava pelo meu nome certo e sempre dizia que Harãmy pega meninos que comem fazendo barulho. Não perdoa os chorões também. Ele te imita e depois te pega. Teve um menino que estava chorando no colo da mãe na beira da floresta, Harãmy veio e o imitou uma vez, a mãe não deu importância e ele os atacou. Ela até conseguiu fugir, mas o neném ficou sem um braço.

            Nessa hora seu outro irmão, que tinha dez anos, Nabita, também chamado Rodrigo, começou a tremer na cadeira. O patriarca começou a rir da história da menina:

            – Papai te ensinou direitinho, hein! Eu adorava estas histórias quando tinha 12 anos. Que bom que você se lembra do seu avô e do seu orgulho Rikbaktsá. Sua mãe me disse que está querendo ir para a floresta hoje, não é? Leve seus irmãos. Quem sabe você não encontra o myhyrikoso de seu avô e ele ensina alguma coisa para vocês. Olhe com atenção para os macacos da noite.

            – Não vou levar eles! São chorões e, se começarem a chorar na floresta, vão atrair Harãmy!

            – Então é melhor garantir que não chorem! Porque se quiser sair vai levá-los sim, Atupi.

            O pai saiu dando uma gargalhada e acariciou a cabeça da filha, que resmungou, apesar de ter gostado do afago. Os garotos voltaram a comer e o irmão voltou a chupar os ossos até olhar para a irmã e ler nos seus lábios a palavra “Harãmy” que ela disse em silêncio. Subitamente o garoto largou o osso e falou para a mãe que tinha terminado. Os três levantaram e foram ajudá-la arrumar a cozinha. Atupi lavou a louça, seus irmãos menores secaram, enquanto sua mãe limpava o chão. Depois de terminarem suas tarefas os três saíram correndo de casa e escutaram a mãe gritar de longe para que não se atrasassem para o jantar. Correram pela tribo com os pés descalços no chão de terra batida. Quando chegaram na linha das árvores, pararam próximos de uma castanheira e Atupi disse:

            – Vocês dois vão ter que me obedecer o tempo inteiro, nada de choro. Vamos caminhar na direção do Rio do Sangue, escutei o pessoal dizendo que encontraram myhyrikoso por lá. Aqui vão algumas coisas que precisam saber. Harãmy é do seu tamanho Apiwo e odeia colares. Por isso que trouxe estes três. Eu estava querendo usar todos para ficar bem protegida, mas vou dividir e cada um fica com um. Não se enganem pelo tamanho, ele é mau e gosta de comer carne de gente. Outro que tem andado por aqui é Morebe. Parece que é preto mas não é, na verdade quando aparece escurece. Ele gosta de roubar as araras quando estamos caçando. Não conversem com ele, não importa o que diga, se conversar ele vai levar você e nunca mais vai conseguir voltar para casa. Eu concordo com o papai. Se vovô estiver como myhyrikoso vai ser no formato de um macaco da noite. Então só devemos ter chance de encontra-lo no final da tarde mas, se vermos algum no meio do dia, é mais provável que seja ele, os myhyrikoso não respeitam muito os hábitos dos bichos.

Quando a menina terminou de falar seus irmãos estavam com olhos esbugalhados e sem fala. Ela enfiou a mão em uma parte oca da castanheira e retirou um arco e flecha que havia guardado.

            – Eu que fiz este aqui. Vovô dizia que não era bom entrar na floresta desarmado. Nabita, você pode ficar com meu canivete. Tome, cada um use seu colar agora. E lembrem-se, só vamos usar os nomes em português de agora em diante. Se algum myhyrikoso maligno souber seu nome ele poderá te encontrar na sua casa. Certo, Rodrigo e Paulo?

            – Certo Mariana – responderam em uníssono.

            A garota colocou o arco e flecha no ombro e entraram na floresta com cautela extrema, sobressaltados com cada ruído que ouviam. Seringueiras, castanheiras, guanandis, buritis, com seus grossos troncos se agigantavam na floresta fazendo uma densa cobertura verde que impedia a entrada no sol. Em seus galhos algumas bromélias lutavam por um pouco de luz. A pouca vegetação rasteira facilitava a caminhada. Depois de cerca de 15 minutos, não havia acontecido nada e é difícil manter a cautela se não há sinal de perigo. Apiwo viu uma castanha no chão, a pegou, jogou na cabeça de Nabita e começou a rir. O irmão agredido começou a correr atrás do agressor, tropeçou em uma raiz batendo o rosto no chão, o que fez com que o mais novo começasse a rir mais ainda. Atupi viu que o garoto no chão ia começar a chorar, fez uma cara de reprovação e colocou o dedo na boca pedindo silêncio para depois fazer um gesto mostrando que ele poderia ter seu braço arrancado. Foi até o mais novo e o pegou pela orelha para obrigá-los a fazer as pazes. Como tinham tempo e ela viu que se não fizesse alguma coisa para distrair seus irmãos eles não a deixariam em paz, pegou o arco e disse:

            – Vou ensinar vocês a atirar com o arco, assim como vovô me ensinou.

            Os meninos estavam começando a pegar o jeito quando viram um bando de araras que pousou em uma mangueira:

            – Atu… – começou a dizer Nabita, mas a irmã lhe tapou a boca.

            – Aqui na floresta somente Mariana, está lembrado Rodrigo?

            – Desculpa. Mariana, vamos caçar algumas araras. Precisamos aprender a sobreviver na floresta. Vovô sempre te trazia aqui, mas quando ele morreu ainda éramos muito novos. Você tem que ensinar para a gente.

            – Certo. Acertar um alvo em movimento é muito mais difícil do que um alvo parado. Tem que se prever a trajetória dele e mirar onde ele vai estar e não onde ele está. Aquelas araras estão bem quietas comendo mangas, então não deve ser problema. Vamos lá Rodrigo, você primeiro.

            O garoto atirou e não chegou nem perto das araras. Tentou outra flecha, mas só conseguiu espantar os bichos que voaram e pousaram em outra árvore próxima:

            – É assim mesmo, não se preocupe no começo é difícil. Vem aqui Paulo, vamos ver como você se sai.

            O irmão mais novo não tinha força suficiente para envergar o arco e fazer uma boa pontaria. As flechas mal saíram do chão. O menino quis chorar, mas Atupi lhe afagou a cabeça e sorriu. Pegou o arco de suas mãos e colocou uma flecha em posição. A feição da menina mudou na hora. Com um rosto sério, exalou o ar e soltou duas flechas em sequência, cada uma derrubando um animal.

            – Que pontaria A…,digo,  Mariana!

            Apiwo saiu correndo para pegar as araras e a floresta começou a escurecer. Ainda não estava nem perto do pôr do sol, Atupi sabia disso. A garota viu um vulto aparecer na frente do irmão e começou a correr quando escutou:

            – Que rapaz bonito você é, qual o seu nome?

            Quando seu irmãozinho abriu a boca para falar ela conseguiu alcançá-lo e lhe tapou a boca. Sequer olhou para o homem que dizia:

            – Você é uma menina esperta. Que pontaria incrível. Eu posso te ensinar a atirar melhor. Olhe como meu arco é bonito. Eu posso fazer um igual a este para você.

             A garota conduziu o irmão com a boca tapada, pegou uma das araras que estava no chão e colocou na capanga. Deixou a outra onde estava. Começou a caminhar para longe do homem escuro e musculoso, que segurava um grande arco na mão direita. Era possível ver as penas das flechas que saíam da aljava que estava em suas costas e ele continuava falando com uma voz amigável tentando convencê-la a ir treinar o arco, mas a garota continuou caminhando na direção de Nabita, que estava petrificado observando seus irmãos. Lembrou-se do que Atupi havia ensinado e não disse uma palavra. Foi então que começaram a sentir um cheiro muito ruim de fezes, cada vez mais forte, enquanto o vulto começava a ficar mais bravo. A menina olhou para cima e viu um pequeno macaco da noite com uma mancha branca na testa. O bicho a olhava profundamente e parecia fazer um gesto com a cabeça para que eles o seguissem. Atrás dela as folhas das árvores começaram a balançar violentamente com o vento, a floresta ficou ainda mais escura e o vulto gritou:

            – Está se achando muito esperta garotinha, mas eu estava tentando lhe fazer um favor! Continue caminhando na direção do Rio do Sangue. Continue se tiver coragem menina. Existem coisas muito piores do que eu para onde está indo. Você verá. Muito obrigado pela refeição, parece que vai ser a única coisa que vou conseguir hoje.

            Atupi olhou para trás e viu somente o escuro, uma escuridão densa e estranha, mas ainda era capaz de ver um vulto de homem. Os olhos começaram a brilhar e a ficar grandes como olhos de coruja enquanto o vulto diminuía e tudo o que conseguia ver eram os olhos que de repente pareceram se abaixar em um movimento oscilante e saíram pelo ar voando erraticamente como uma borboleta carregando a arara morta para, subitamente desaparecer. O tempo começou a ficar mais claro quando a menina alcançou Nabita e pegou em sua mão. Caminhar em direção ao Rio do Sangue, seguindo sempre o macaco da noite, que pulava pelas árvores à sua frente. Quando chegaram a mais de cem passos de onde encontraram Morebe, o macaco se virou e olhou nos olhos da menina que sustentou o olhar. Atupi começou a sentir uma vertigem, parou de caminhar e fechou os olhos. Em sua mente viu um forte guerreiro com a pele bronzeada, usando um cocar de penas amarelas. Nas orelhas usava dois grandes alargadores de pau e o rosto tinha listras negras tatuadas. Atupi não reconheceu inicialmente o jovem, mas quando reconheceu aquele olhar deu um sorriso e se aproximou. O guerreiro lhe tocou a bochecha direita e disse:

            – Minha netinha ficou muito esperta. Parabéns. Continue caminhando, existe algo que sei que pode derrotar. Lembre-se, algumas vezes, a melhor maneira de derrotar o mal é com outro tipo de mal.

            Atupi abriu novamente os olhos e não viu mais o macaco. Seus irmãos estavam aterrorizados, mas nenhum deles chorava. Ela sorriu tranquila e falou:

            – Ainda bem que eu tampei sua boca bem na hora né? Vamos tomar cuidado agora. Vocês viram o macaco da noite que estava naquela árvore?

            – Não vi mana. Fiquei com tanto medo daquela assombração que, quando você tampou minha boca, eu fechei os olhos também.

            – Eu estava com os olhos abertos, mas só vi a floresta ficando escura e mais nada. Ainda não é hora de aparecer macaco da noite mana. Será que era o vovô?

            – Acho que sim Rodrigo. Vamos continuar caminhando

            – Estou com medo, vamos voltar para casa.

            – Agora ainda não podemos voltar. Precisamos chegar até o Rio do Sangue, tem alguma coisa lá que eu preciso resolver.

            – Que coisa?

            – Não sei, mas acho que, quando ver, vou saber.

            Os garotos continuaram andando em direção ao Rio do Sangue, de mãos dadas. A medida que avançavam a atmosfera ficava mais pesada. Instintivamente os três se aproximaram os braços se tocando, quase abraçados. Os pássaros pareciam ter parado de cantar. As cigarras estavam quietas. O silêncio era ensurdecedor. A floresta pareceu ficar escura novamente e o cheiro forte de fezes começou de novo, insuportável. Atupi viu uma cascavel olhando para eles, imóvel. Quando olhou mais atentamente percebeu que diversas cobras os olhavam. Elas não balançavam o chocalho, não se moviam, só ficavam olhando fixamente para o trio, deixando uma trilha clara a ser seguida. Olhou para cima e viu diversos pássaros nas árvores. Gaviões, bem-te-vis, araras, cardeais, corujas, bacuraus, urubus, os mais variados, delimitando uma trilha clara na floresta, a mesma que as cobras. Direcionou o olhar mais para dentro da floresta e viu cutias, antas, algumas onças, todos os observando, mas nenhum animal mostrava qualquer sinal de violência. Só mantinham o olhar fixo nos irmãos.

            – Tenho certeza que todos estes que nos olham são mihyrikoso. Espíritos de pessoas que voltaram para a terra na forma de animais. Estão sentindo o cheiro? Sempre que sentirem esse cheiro na floresta fiquem atentos. Mas existe alguma coisa muito errada aqui. Parece que estão com medo de alguma coisa. Vamos ficar bem juntos. Rodrigo fique com o canivete na mão.

            A garota disse isso, pegou o arco e colocou uma flecha em posição. Continuaram com cautela, até que, de repente, o cheiro desapareceu. O dia ficou claro de novo. Quando olharam para frente viram o Rio do Sangue, com suas águas esverdeadas correndo mansamente. Chegaram às margens do rio e não viram nada que os alarmasse. O sol brilhava, os animais tinham sumido e voltaram a ouvir o canto dos pássaros e cigarras. Atupi continuou atenta, mas seus irmãos relaxaram, em pouco tempo entraram na água e começaram a brincar. A menina ficou observando os dois indiozinhos jogando água um no outro, não resistiu, colocou o arco no chão e entrou na água também. Enquanto nadava resolveu mergulhar. Viu que perto de onde estavam nadando tinha um poço profundo circundado por pedras e lembrou de algo que seu pai havia lhe dito há muito tempo. Saiu da água correndo, pegou o arco e gritou para os irmãos:

            – Saiam da água agora, depressa. Está na hora de voltar para casa.

            Os meninos não estavam entendendo o motivo que fizera sua irmã sair da água tão rápido e demoraram a obedecer. Atupi continuou gritando de maneira imperativa para que saíssem da água. Sabia que nas partes profundas do rio, principalmente naquelas que tem grandes paredões de pedra, Urototok, a grade sucuri, está à espreita. Escutou um barulho de algo muito grande caindo na água e puxou seus irmãos para fora do rio. Viu um vulto se mover na água e disparou uma flecha para em seguida colocar outra em posição. A floresta ficou escura de novo e o cheiro voltou mais forte do que nunca. Olhou para trás e viu seus irmãos caídos no chão de olhos fechados:

            – SSim menina. Vosscê está sscerta. Aqui é um doss meuss lugaress favoritosss – sibilou uma voz saindo do rio. Ela viu a cabeça de uma grande sucuri sair para fora da água e a cobra parecia sorrir. Ela quis correr de volta para a tribo, mas não ia conseguir carregar seus irmãos. Lendo seus pensamentos a criatura disse

            – Corra menina. Deixe sseuss irmãoss aqui. Não tem problema. Sse fizer isssso nada acontesscerá à ssua tribo. Ssse não fizer vou garantir que muita coisa ruim acontesssça. Tenha sscerteza disso.

            Atupi sentiu-se tonta, fechou os olhos e começou a ver. Viu o rio à sua frente fazer jus ao nome e correr vermelho como sangue, espesso, os peixes mortos boiavam e eram levados pela corrente. Depois viu a aldeia, diversas casas com as portas fechadas. As pessoas andavam tossindo com pústulas cobrindo seus rostos. Em outro flash viu a mãe, quase irreconhecível devido às diversas feridas na pele, deitada e segurando a mão do pai que começava a tossir. Abriu os olhos de novo e viu a cabeça da cobra, que parecia sorrir, saindo do rio:

            – É isssso que vosscê quer que acontessça? Tudo o que viu pode ssser evitado. Basssta que deixe ssseusss irmãosss aqui comigo. Eu pressciso delesss. Quer ssser resssponsável pela calamidade? Eu sssei que não.

            Atupi estava aterrorizada. Por um momento pensou em sair correndo e deixar seus irmãos com Urototok. Virou-se para a floresta pronta para correr quando viu o macaco da noite com a mancha branca na testa e lembrou-se das palavras que seu avô lhe dissera. Que outro mal ela podia usar para combater a maldita cobra? O que será que ele quis dizer com aquilo? Colocou a mão em sua capanga e teve uma ideia. Parecia um pouco maluca mas era a única que tinha. Virou-se para o rio e disse:

            – Esse pacto que você quer é muito grave. Eu tenho que ter certeza de que se sacrificar meus irmãos você vai deixar a tribo em paz. Vamos dividir uma refeição. Se o pacto for selado dessa forma, saberei que você honrará sua parte do acordo. Então saia do rio em forma de gente para que eu cozinhe uma arara e comeremos juntos.

            Utototok mergulhou no rio e um forte homem saiu da água, mais alto do que qualquer pessoa que Atupi tivesse visto. Ele trazia um sorriso largo no rosto e estendeu a mão para a garota. Ela o cumprimentou, pegou o canivete da mão do irmão e começou a preparar a ave. Tirou as penas, as tripas, cortou a cabeça, os pés e pediu para que seu companheiro acendesse o fogo. O homem coletou alguns galhos secos preparou sua fogueira e acendeu o fogo somente com o toque. Ela espetou a arara em um galho e assou o animal. Depois de pronto ela cortou uma asa para si e deu as costelas para o homem.

            – A carne que está no meio das costelas é a mais gostosa. Mas tem que chupar os ossos para conseguir comer.

            O homem sorriu e agradeceu. Começou a comer seu pedaço chupando os ossos com um barulho bem alto. Atupi começou a comer sua asa torcendo para seu plano dar certo, quando escutou um barulho de ossos sendo chupados atrás de si, sorriu. Urototok, continuava chupando os ossos da costela ruidosamente sem perceber nada. Atupi escutou de novo o barulho atrás de si, dessa vez mais perto. Utotok parecia já estar terminando de comer, quando olhou para frente e viu um pequeno índio atrás da menina e começou a gritar assustado:

            – VOSSCÊ ME ENGANOU MENINA! EU VOU DESSSTRUIR SUA ALDEIA!

            Ela sorriu e se abaixou enquanto Harãmy pulava para cima do grande homem. Viu a pele de seus braços começarem a ficar cheio de escamas a medida que ele tentava mudar para a forma de cobra para se defender, mas fora do rio ele não conseguia fazê-lo. Harãmy arrancou seu braço direito com um movimento firme e mordeu o pescoço fazendo o sangue jorrar de sua carótida. Atupi olhou para os irmãos e percebeu que eles começavam a acordar, saindo do encanto que a Urototok havia lançado. Ela pegou em suas mãos e os puxou para longe do rio em direção à aldeia. Os meninos ainda estavam meio tontos, mas conseguiram seguir a irmã, no começo caminhando, depois correndo. Correram por um longo tempo até ficarem sem ar. Quando pararam para recuperar o fôlego Nabita perguntou:

            – O que aconteceu lá? O que eram aqueles gritos.

            Atupi sorriu em silêncio e envolveu seus dois irmãos em um abraço apertado. Os garotos não sabiam bem o que tinha acontecido, mas sabiam que só estavam vivos por causa da irmã. Ficaram um longo momento abraçados, até que a irmã disse:

            – Vamos, mamãe vai brigar se ficarmos na floresta depois de anoitecer.

            Os garotos caminharam tranquilos até sair da floresta. Nenhum deles viu o macaco da noite que os seguia. Quando saíram da linha das árvores o macaco coçou sua mancha branca e pareceu sorrir. Tinha ensinado bem sua pequena guerreira. A noite começava a cair. Virou-se para a floresta e desapareceu em meio às arvores para esperar o dia em que seria necessário de novo.

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