Introdução

Todos os meses eu faço uma doação para a organização “médico sem fronteiras”. É o mínimo que faço para manter minha consciência de homem, branco, heterossexual e privilegiado, tranquila. Um dia, uma atendente entrou em contato comigo pedindo para eu aumentar o valor da minha doação mensal. Acredito que foi a ligação mais fácil que ela já fez, porque meu salário havia aumentado consideravelmente e eu estava pensando em doar mais. A ligação não durou dois minutos e me rendeu este conto que enviei para o concurso Takeya Mizugaki. O comentário da minha mãe sobre esta obra foi cruel e sucinto. “Previsível”.

Conto

– Boa tarde eu gostaria de falar com o senhor Bruno Gomes dos Santos.

            – É ele.

            – Boa tarde senhor, aqui é da fundação Vidas Secas e, primeiramente, gostaríamos de agradecer sua contribuição mensal de 50 reais, está nos ajudando a levar água para muitas regiões do país que estão sofrendo com a seca.

            – De nada

            – Eu sei que o senhor já colabora bastante, mas gostaria de saber se o senhor poderia nos ajudar ainda mais, aumentando sua colaboração para 60 reais.

            Houve um momento de silêncio antes da resposta. Juliana sabia o que aquele momento em geral significava, mas se surpreendeu:

            – Posso.

            – Muito obrigada senhor Bruno, a nossa fundação agradece imensamente a sua ajuda e qualquer dúvida o senhor pode tirar no site ou ligar para a nossa central de atendimento.

            – OK

            Vendo as respostas lacônicas e o tom de voz melancólico daquela voz tão bonita, Juliana decidiu sair do protocolo pela primeira vez, em 3 anos trabalhando na empresa, e perguntou.

            – Desculpe perguntar senhor, mas o senhor está se sentindo bem?

            – Sim. Me sinto fantástico.

            – Desculpe o incômodo, a fundação agradece, tenha um ótimo final de semana.

            – Obrigado.

            A chamada foi interrompida, mas Juliana não parou de pensar naquela voz. Naquela palavra. Fantástico. Ele não parecia estar fantástico. Parecia estar terrível. Deprimido. Aquele fora o único cliente monossilábico que aceitou a proposta de aumentar a doação. Bruno Gomes dos Santos. Homem. Viúvo. Data de nascimento 13/06/1985. Renda mensal entre 10000 e 30000 reais. Um dos poucos que completou o perfil com foto. Um homem moreno, de olhos azuis, barba cerrada e olhando sério para a câmera. Quando viu o endereço ficou surpresa. Moravam no mesmo bairro. Que coincidência. Entrou no Facebook e encontrou-o rapidamente. Por meio segundo hesitou mas decidiu mandar logo a solicitação de amizade. O pior que poderia acontecer era ele não aceitar. Continuou fazendo as ligações para os demais clientes, tentando tirar o mais melancólico “fantástico” que já ouvira da mente, sem muito sucesso. Depois do longo dia de trabalho, Chegou em casa cansada. Ela, que viera de uma casa cheia, uma família com sete irmãos achava o silêncio de morar sozinha ensurdecedor. Ligou a televisão para ter algum barulho em casa e sentou-se em frente ao computador. Seu pedido de amizade havia sido aceito e ele estava online! Será que tentava puxar assunto? Abriu a aba de conversa com o estranho e olhou para a foto do perfil dele. A mesma foto que ele colocara no perfil do site da fundação Vidas Secas. Ele era de fato muito bonito. Respirou fundo e escreveu a única coisa que foi capaz:

            – Oi.

            – Oi?

            Com a resposta quase imediata seu coração acelerou e ela digitou rapidamente.

            – Você não me conhece. Eu te liguei hoje para aumentar o valor da doação para a fundação Vidas Secas. Você me pareceu tão triste. Quando eu perguntei como você estava acho que foi o “fantástico” mais melancólico que já ouvi. Não sei te dizer porque, mas fiquei curiosa para saber quem você era. Me desculpe por ser tão enxerida.

            Ela aguardou, mas ele não parecia estar digitando uma resposta. Parecia que estava pensando. No que pensava? Será que a estava achando louca? Ela não devia ter feito aquilo. Nunca fizera nada parecido na vida e agora estava pagando uma de louca perseguidora da internet. De repente viu a palavra digitando na aba de conversa dele:

            – Ah. Olá. Juliana você parece uma moça bonita. Acho que nunca tinha sido abordado por uma moça bonita por aqui. Eu não estou triste. Mas também não estou feliz. Desde que minha esposa morreu parece que não sinto muita coisa. Já fazem dois anos, mas ainda não consigo me sentir triste ou feliz. Muito obrigado pela sua preocupação. Você é muito gentil.

            “Coitadinho” ela pensou. “Devia amar muito a esposa para ficar tão abalado assim. Como será que ela morreu? Doença, assim, tão jovem? Pode ser, será que eu pergunto? Ou vai ser indelicado?” Juliana pensou um pouco e digitou:

            – Meus sentimentos. Deve ser muito difícil para você. Se você quiser conversar pode se abrir comigo. “Como se ele fosse se abrir com uma estranha total e completa”, completou em pensamento

            – Acho que o mais difícil foi o jeito que ela morreu sabe. Foi assassinada. Estávamos planejando ter filhos quando ela foi encontrada com o pescoço cortado no nosso apartamento. A polícia até hoje não descobriu quem foi o assassino. Nem sei porque estou contando estas coisas pra você. Mas, na foto, você me pareceu ser uma pessoa boa.

            – Eu sou uma pessoa boa. Rsrsrsrs. Desculpe a brincadeira. A polícia brasileira é uma piada. Nossa cidade anda cada dia mais violenta.

            – É verdade. Mas vamos deixar este assunto de lado. Eu iria te perguntar se você tem namorado mas no seu status está como solteira. O que você gosta de fazer?

            – Estou solteira há algum tempo. Gosto muito pouco de sair. Morro de medo dos aplicativos de relacionamento. Tenho medo de encontrar algum tarado.

            – Nunca experimentei também. Como não gosto muito de sair, fico em casa fazendo maratonas de séries.

            – Eu também!! Acho que é mais fácil falar as séries que não vi do que falar as que já vi. Qual está vendo agora?

            Depois de falarem sobre todas as séries já feitas no mundo nos últimos dez anos, o dia já estava quase amanhecendo e Juliana não percebeu o tempo passar. Estava morrendo de sono e em menos de duas horas tinha que estar no serviço. Nunca se sentira tão confortável e confiante com uma pessoa, mas ela precisava desligar o computador:

            – Ei, o papo está ótimo, mas eu tenho que ir. Sabe uma coisa curiosa? Nós moramos no mesmo bairro.

            – Eu percebi isso quando vi o seu perfil

            – O que acha de fazermos alguma coisa no sábado?

            – Você tem alguma coisa programada para o almoço?

            – Não.

            – O que acha de nos encontrarmos no parque da cidade? Lá tem um restaurante muito bom. Meio dia está bom para você?

            – Ótimo. Boa noite… quer dizer. Bom dia. Até mais.

            Que maravilhoso! Há mais de 6 meses que não saía com ninguém. Estava ansiosa como uma adolescente e era maravilhoso. Ele era quatro anos mais velho, uma diferença quase insignificante. Mas agora tinha que lutar para sobreviver à sexta feira. Chegou no trabalho com fundas olheiras que foram notadas por seus amigos e nenhum deles acreditou que ela estava na internet. Mas não importava. Apesar do sono que sentia, não se arrependera de nada. O dia se arrastou e quando, finalmente chegou em casa preferiu nem ligar o computador. Porque se ele estivesse online não resistiria e começaria a conversar. Ela precisava perder aquelas olheiras até sábado. Foi direto para a cama e adormeceu antes de sua cabeça tocar o travesseiro.

            No sábado, acordou cedo e bem disposta. Olhou ao redor e viu roupas espalhadas, louça suja e poeira acumulada. Morar sozinha tinha suas vantagens. Ter que arrumar tudo não era uma delas. Mas nunca se sabe onde o dia vai terminar. Pensando nisso, ligou o som e começou a arrumar a casa com um sorrindo. Fazer uma limpeza no sábado de manhã não era tão ruim assim. Depois de duas horas, sentou-se no sofá de sua casa, agora impecável, tomou um gole de café e sorriu com a satisfação que só uma missão cumprida traz. Tentou ver televisão por meia hora mas estava muito ansiosa. Resolveu ligar o computador e ver se Bruno estava online e, para sua sorte, estava:

            – Oi!

            – Oi Jú. Nosso encontro está de pé hoje?

            – Claro! Com que roupa você vai? Para eu poder te ver de longe.

            – Não tinha pensado nisso. Uma camiseta preta e uma calça jeans. Talvez. Não sei

            – Que homem indeciso. Eu vou com um vestido estampado com rosas, sandália branca e uma trança no cabelo.

            – Nossa, isso que é decisão.

            – Se não for assim fico horas para escolher minha roupa.

            – Pode deixar que eu te acho então.

            – Combinado. Deixa eu ir me arrumar então. Beijo

            – Beijo.

            O seu humor só melhorou. Aquele dia seria maravilhoso. Ela podia sentir isso. Tinha uma sensação calorosa que percorria seu corpo todo. Era um sinal do universo dizendo que tudo ia dar certo. Passou a maquiagem, arrumou o cabelo e se vestiu com calma. Chegaria elegantemente atrasada. Quinze minutos no máximo.

            Quando se aproximou do restaurante combinado ele estava sentado em uma das mesas de fora e acenou. Ela retribuiu o aceno com um sorriso e sentiu um leve tremor de ansiedade nas pernas, mas foi eficiente em não deixar transparecer.  Bruno se levantou, a beijou no rosto e disse:

            – É um prazer conhece-la oficialmente.

            – O prazer é meu? Tudo bem?

            – Tudo ótimo. Vamos sentar?

            Ele pedira uma garrafa de vinho. Parecia calmo. Quando ele a cumprimentara não sentiu o menor tremor no seu cumprimento. Não percebeu mãos frias ou suor. Ele parecia senhor de si mesmo. Apesar de não sorrir muito, quando sorria era um meio sorriso encantador. Tinha um ar de mistério naqueles olhos azuis. Bruno parecia ter saído diretamente de um sonho para sua vida. Trabalhava como engenheiro de computação em um banco próximo à sede da fundação Vidas Secas, que coincidência. Ela só percebeu o tanto que já tinham bebido quando ele pediu a segunda garrafa. Demoraram quase duas horas para pedir os pratos. Ela não tinha pressa alguma. Depois de almoçar ainda ficaram conversando. Ele segurou na mão dela quando contou uma história, ela estremeceu. Ele ainda não gargalhara nenhuma vez. Sempre aquele sorriso comedido. Encantador. Segurou de novo sua mão a conduzindo para uma volta no parque após o almoço perfeito. O céu estava azul e o sol brilhava feliz. Caminharam sem pressa, até um banco na beira do lago que ficava à sombra de uma árvore. Antes de sentarem segurou na sua cintura e a trouxe para mais perto. Ela estremeceu e olhou em seus olhos. Azuis. Sentiu a umidade dos lábios dele em contraste com os seus lábios secos, ansiosos. Seu coração galopava, ela tinha certeza de que as pessoas do outro lado do lago podiam ouvi-lo bater. O coração de Bruno parecia calmo. Seu abraço firme. Ela não desejaria estar em nenhum outro lugar do mundo. Ficaram um longo tempo abraçados e admirando o lago. Ela deitada em seu ombro. Quando ele falou.

            – Eu tenho uma adega em casa. Está cheia porque há muito tempo não tenho ninguém com quem beber. Vamos para lá?

            Ela sabia o que aconteceria. Estava desesperada para que ele a convidasse. Sem a menor hesitação respondeu:

            – Vamos.

            O prédio era bonito, com a entrada toda em granito escuro. Quando entraram no elevador ela não esperou que ele a beijasse, envolveu seus braços no pescoço dele e o puxou para si. Adorava o gosto dos seus lábios. A casa dele estava impecável. “Mais de uma pessoa resolveu fazer faxina em casa”, pensou. Ele puxou uma cadeira para ela na mesa redonda de vidro para seis lugares na sala. Retirou um vinho que ela não conhecia da adega climatizada e foi para a cozinha, quando ela viu um abridor em cima da mesa.

            – O abridor está aqui.

            Ele voltou segurando um objeto de madeira com uma lâmina curva com cerca de doze centímetros.

            – Nunca vi um abridor destes.

            – Este é o melhor que tem. Deixa eu te mostrar como funciona             Passou a mão nos seus cabelos e curvou sua cabeça levemente para trás. Com um movimento rápido enfiou a lâmina no seu pescoço e viu o olhar incrédulo de sua consorte. Puxou a lâmina com um movimento brusco e o sangue da carótida de Juliana molhou seu rosto, sua roupa e a parede da sala. Não tinha problema. Com tranquilidade, sentou-se e abriu o vinho escutando-a gorgolejar com seu próprio sangue. Há dois anos não se sentia assim … Fantástico.

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