Introdução

            Foi feito um estudo que mostrou que noventa e cinco por cento dos motoristas brasileiros acreditam que dirigem melhor do que a média dos motoristas. Outro estudo mostrou que noventa e sete por cento dos professores universitário acham que são melhores do que seus colegas. Em um dos estudos mais interessantes, no curso do SENAI sobre pequenas empresas, todos sabiam que a chance de um negócio fechar no primeiro ano é de cinquenta por cento porém, quando eram perguntados sobre qual a chance do negócio que eles estavam abrindo fechar no primeiro ano, essa chance era, em geral, menor que dez por cento. Por quê estou falando isso? Simples. Nós somos péssimos autocríticos. Mesmo você, sim, você mesmo, você que acredita que tem a autoestima baixa, você se acha melhor do que os outros em algum aspecto, em geral em algum aspecto do cotidiano que te faz, como pessoa, ser melhor do que a média. Em uma opinião totalmente empírica, acredito que as pessoas que autoproclamam sua baixa autoestima, são as pessoas mais arrogantes da face da Terra.

            Eu sei que não sou o melhor crítico das minhas obras. Muitas vezes acho que uma obra é genial quando na verdade é só mais do mesmo. Por isso, gosto dos concursos literários. Eles me ajudam a manter os pés no chão. Eles me ajudam a reconhecer minha insignificância literária. Mesmo assim, só pelo fato de ter esse conhecimento, uma partezinha lá do fundo do meu ser, acredita que, exatamente por isso, sou melhor do que a média dos outros escritores. Vai entender né? Ser humano é uma criatura esquisita.

            Mesmo com toda essa tendência à superestimação pessoal, eu reconheço que o próximo trabalho deixa a desejar. Enquanto o escrevia, achei que a ideia do trabalho era até razoável, porém minha execução estava muito aquém do esperado. Quando vi o resultado final me recusei a mandar este conto para qualquer concurso. Tinha ficado muito ruim. Mas, esta é a trajetória de um escritor sem talento e eu estaria sendo mentiroso se omitisse esta obra. Aqui vai.

Conto

“Mais de quatro milhões de pessoas viram aquilo” pensou Leonardo enquanto caminhava para o metrô. Não conseguia entender um mundo onde quatro milhões de pessoas tinham vontade de ver um vídeo que mostrava uma menina fazendo um escândalo porque teve o rosto arranhado por um cachorro. Quando a filha o chamou para ver o vídeo antes de sair de casa, definitivamente não era aquilo que esperava. Estava tentando entrar em sintonia com sua garota de 14 anos, mas não conseguiu encontrar o humor que fazia sua filha gargalhar. Fingiu algumas risadas para a filha e saiu de casa para trabalhar. Era assustador ver o que as adolescentes gostavam e quem admiravam. Quatro milhões delas… São muitas pessoas.

            Chegou ao escritório mais cedo do que o necessário, como de costume. Trabalhava no escritório do melhor amigo de seu pai desde que saíra da faculdade. Nunca teve dificuldades na profissão, a exercia de maneira dedicada e eficiente, porém não era um apaixonado pela advocacia. Mas não tinha problema. Ele tinha uma paixão e tempo para praticá-la. Era suficiente.

            Por volta de meio dia saiu para almoçar. Almoçava quase sempre sozinho. Gostava de ter um pouco de tempo para conversar consigo mesmo. Comia em um restaurante próximo, que possuía uma varanda de onde podia observar o movimento da cidade. Quando almoçava, deixava sua câmera preparada, à sua frente. Se visse alguma cena que chamasse sua atenção, a tinha rapidamente à mão, para capturar o momento. Não havia feito nenhum curso de fotografia, mas a informação estava amplamente disponível na internet. Neste dia nenhuma cena chamou sua atenção. Mas era bom ter sua companheira por perto.

            Chegou em casa cansado, ansioso por um banho e uma noite tranquila na frente da televisão, mas nesta sexta não seria possível. Sua esposa já estava tomando banho e, assim que saísse, iria começar a apressá-lo. Iriam a uma festa de aniversário de um de seus colegas de trabalho. Tentou aproveitar o pouco tempo de sossego que tinha e fechou os olhos por um momento, esticado na cama. Sua filha iria passar a noite na casa de uma amiga. Provavelmente iam ver a menina escandalosa reclamar da unhada do cachorro de novo. Ela e mais quatro milhões de pessoas.

            Quando chegaram, a festa estava animada. Sérgio, o anfitrião sentava um pouco em cada mesa, tentando dar atenção a todos. Na mesa onde Leonardo estava sentado, dois professores do departamento de artes visuais da faculdade falavam sem parar:

            – Você tem sorte de ser casada com um advogado Ludmila. Essa vida de professor é muito difícil. Nossos salários mal chegam ao fim do mês.

            – Nunca foi fácil viver de ensino no nosso país. Mas o pior não é nem o salário. São os alunos. Eles não se interessam por nada Carlos. Nada mesmo. É muito frustrante.

            – Isso é verdade – interveio Marcelo. Nossos alunos só veem filmes bons quando os passamos em sala. Ninguém se interessa mais pela verdadeira arte. Só querem saber dessa merda que passa nos cinemas hoje em dia.

            – Mas se formos pensar nos grandes cineastas, como Billie Wilder, Alfred Hitchcock, eles eram populares. Talvez nós mais velhos é que não entendamos direito essa arte dos jovens – disse Leonardo, pensando nos quatro milhões de pessoas que o atormentavam.

            – Ah, mas isso não pode ser chamado de arte. A verdadeira obra de arte, é aquela que te emociona. Eu nem tenho vontade de filmar mais. Ninguém vai querer ver. Só querem ver porcaria mesmo. Se o povo gosta de merda então merda no povo – disse Carlos

            – Eu fiz um curta metragem excelente ano passado. Fiz referência a Truffaut e Goddard, mas ninguém entendeu. Foi um fracasso no Youtube.

            – Quanto você investiu em publicidade? – perguntou Ludmila, dando uma piscadela para o esposo.

            – Publicidade é muito caro. Tentei divulgar um pouco pela internet mas não deu muito certo. Já estou ficando igual ao Carlos. Sem vontade de filmar.

            – É muito fácil culpar o próprio fracasso nos outros…

            – Mas não foi um fracasso. Todos que viram adoraram. É só ver os comentários que deixaram. As pessoas cultas que entendem alguma coisa de cinema ficaram apaixonadas pelo meu filme. Só que o povo em geral é burro, por isso não tive muitas visualizações. Não é minha culpa.

            – Como é o nome do seu filme?

            – “O inevitável acaso no metrô”

            – Amanhã vou ver então. Quero ver se vou me encaixar com os cultos.

            – Advogados como críticos de cinema, espero que esse dia não chegue.

            Ludmila tratou de mudar de assunto. Sabia que o marido estava com a resposta na ponta da língua, mais afiada do que nunca, mas ela tinha ido ali para se divertir. Além do que, era obrigada a fala sobre o campus e sobre a burrice a semana toda, pelo menos na sexta feira queria relaxar. Pouco depois Sérgio sentou-se com eles e divertiu um pouco a mesa. Já estava meio bêbado, e fez com que todos o acompanhassem na sua animação. Pelo menos conseguiu fazer com que os dois pretensos cineastas se calassem.

            Na manhã seguinte Leonardo acordou bem cedo. Deu um beijo no ombro nu da esposa e se vestiu. Ligou o computador para ver a obra prima de seu companheiro de festa. Ao final dos malditos quinze minutos que duraram o filme não sabia o que dizer. Pensou em deixar um comentário por educação, mas achou melhor não. Não podia encorajar que aquilo fosse feito de novo. Nunca pensou que conseguisse ficar entediado e ansioso ao mesmo tempo. Ansioso para o final daquela porra de vídeo. Pelo menos só 150 pessoas haviam visto. Era melhor que as quatro milhões de pessoas continuassem a ver os vídeos sobre cachorrinhos que arranham os rostos de suas donas. Pelo menos aquela menina tinha sofrido um arranhão para fazer seu filme. Esse desgraçado continuava com o ego do mesmo tamanho e estava com a cara intacta depois de fazer esse aborto da natureza. Desligou o computador e ligou para a filha. Já estava na hora de ir buscá-la e, além disso, gostava de dirigir pela cidade nos finais de semana. O trânsito era calmo e não existia aquela pressa em chegar, o que deixava os motoristas mais educados.  Quando estava no caminho, ao parar em um semáforo, olhou para a praça ao lado e viu uma senhora sentada alimentando os pássaros. Leonardo odiava os pombos. Eram bichos sujos, fedidos, que transmitiam doenças. Mas ao ver todas aquelas aves rodeando a mulher, e a calma que a senhora as alimentava, um sentimento de plenitude preencheu seu peito. Pegou sua câmera e tirou algumas fotos. Quando estava no trânsito era obrigado a deixá-la no automático, mas não fazia mal. Aquela imagem não seria uma fotografia…

            Depois de buscar a filha, passou no mercado para comprar os ingredientes da lista que a esposa tinha lhe dado no dia anterior. Deu sorte de não pegar muita fila para pagar e em pouco tempo já estava em casa. Sua mulher havia acordado e estava bem-humorada depois da noite anterior. Conversaram até Leonardo não conseguir mais segurar a vontade de ir ao sótão. Sua esposa percebeu a animação do esposo que subia as escadas e sorriu. Ele finalmente iria começar algo novo.

            Ao chegar no amado cômodo sentiu o cheiro de guardado que exalava do lugar. Olhou com calma para a luz que as telhas de vidro lhe proporcionavam contrastando com a parede branca na penumbra, ao fundo. As paredes estavam recobertas de telas não emolduradas. O seu favorito era o preto e branco que ficava à sua direita. Até agora aquele era sua obra prima. Mostrava um homem deitado na grama enquanto um cachorro pulava em seu rosto para lambê-lo. Conseguira captar a essência daquela imagem.

            Depois de ver essa pintura, seguiu seu ritual. Caminhou pelo cômodo avaliando cada uma de suas obras. Era estranho pensar que aquele interesse nascera de uma obrigação. Para prestar vestibular fora obrigado a estudar a história da arte. Ao ler sobre os grandes mestres e, principalmente, ver suas telas, ficara maravilhado. Conseguiu conciliar aulas de pintura com a faculdade nos primeiros três anos. Depois disso, apesar de não conseguir continuar com as aulas, sempre que tinha tempo pintava alguma coisa. Em seu escritório pegava seu caderno de esboços quando estava ocioso. Como sua carreira lhe trouxe segurança financeira, pode se dar ao luxo de ir à Europa para ver as telas de seus ídolos ao vivo. Valera cada centavo que gastara para ir ao Prado, Louvre e à National Gallery na Trafalgar Square. Sua esposa o acompanhara em todos os museus pois, apesar de não dividir o interesse do esposo, gostava de ver a paixão com que o companheiro admirava as obras.

            Com calma, ligou o computador que ficava no sótão, para depois ligar o projetor. Projetou a foto na parede branca ao fundo e colocou cuidadosamente o cavalete à luz natural do teto. Não saberia precisar ao certo porque tivera a ideia de tentar pintar as fotos. Algumas pinturas não se pareciam em nada com as fotos que tirava, só que, ao ver as imagens projetadas, conseguia colocar na tela os sentimentos que tivera, os que poderia ter tido e alguns que imaginava.

            As únicas pessoas que haviam visto suas pinturas eram da família. Obviamente todos o elogiaram. Já ouvira diversas vezes que devia organizar uma exposição ou tentar vender seus quadros e, em seus devaneios diários se via rico e famoso em uma exposição organizada para o seu trabalho. Porém, tinha medo de não conseguir os quatro milhões de seguidores que a menina arranhada tinha e um medo mil vezes pior de virar um idiota presunçoso como Marcelo.

            Organizou com cuidado seus pincéis e tintas. Desenhou em um traço firme o contorno da árvore que ficava ao fundo da foto onde a senhora alimentava os pássaros. Começou empolgado, o traço fluía e as imagens automaticamente passavam de sua cabeça para a tela. Até ter que colocar as cores. Não sabia qual era a resposta, mas verde não era o que estava procurando. O suor começou a escorrer pelas suas costas e parecia que não ia conseguir encontrar a resposta. Desceu, tomou um copo de água e roubou um pouco de comida da esposa para depois voltar ao trabalho

Sempre que lia as biografias de artistas, escritores, fotógrafos, via que não era somente um talento natural que tinham, mas uma boa porção de perseverança. Sentou-se em frente à tela sem saber decidir a cor. Fechou os olhos e sentiu o calor do Sol em suas pálpebras. Azul. O sentimento que aquela foto lhe trazia era azul.

Depois de algumas horas olhou para seu trabalho inacabado. Pintara bem hoje. Talvez essa seria a tela que lhe traria o estrelado. Quando organizasse sua exposição, as pessoas viriam lhe perguntar porque escolhera o azul para a folhagem e ele lhes diria, mais do que feliz em explicar seu método criativo. Um dia ele organizaria essa exposição. Um dia…

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