Introdução

            É engraçado como algumas vezes nos sentimos conectados com o autor de uma história. Somos capazes de acreditar que conhecemos o autor pessoalmente, e que, de alguma forma feérica, este autor, que nunca ouviu falar de nós, também nos conhece. Acho que, em parte, esse sentimento de conexão foi responsável pela tamanha indignação com a ressente descoberta da onda de assédios em Hollywood. Era impossível imaginar que um diretor tão sensível como Roman Polanski fosse capaz de estuprar uma garotinha de treze anos. Woody Allen, roteirista, diretor e ator no filme Manhathan, foi capaz de seduzir sua enteada e, casar-se com ela. Mas eu… divago.

            Quando li Terra dos Homens, do Saint Exupery, senti uma profunda conexão com o autor. Achei o livro simplesmente sensacional. Há muito tempo tinha ouvido uma teoria da conspiração que dizia que o acidente aéreo que vitimou o autor no final da Segunda Guerra Mundial, na verdade, não teria sido um acidente, sim, suicídio. Quando li Terra dos homens tive certeza de que, nas entrelinhas daquela obra autobiográfica, estava o grito desesperado de um futuro suicida.

            Somado a esta sensação, tinha acabado de ver algumas ilustrações para palavras que não tem tradução para o inglês. Eram gravuras minimalistas tão bonitas, com tantas palavras peculiares. Awarê, uma palavra que exprime o conceito de algo bonito e efêmero, me deixou fascinado. Sabia que precisava usar essa palavra de alguma forma. E usei. Gostei muito do resultado final deste conto. Enviei com uma real animação para o prêmio Off-Flip. Não preciso nem contar para vocês o resultado do concurso, não é?

            PS: Uma curiosidade. O livro, Terra dos Homens, foi traduzido para o inglês como “Vento Areia e Estrelas” (“Wind, Sand and Stars”). Uma das poucas vezes que a “tradução” é melhor que o original. Sempre que penso no livro, penso nele como “Vento Areia e Estrelas”, não como Terra dos Homens. E, obviamente, a teoria do suicídio estava errada. Em 2017, provas fotográficas irrefutáveis foram divulgadas, provando que um piloto alemão o abateu.

Conto

Eu estou lá.

            Estamos voltando da pescaria na traseira da caminhonete do meu pai. Deitados contra o tablado duro, ficamos admirados com as incontáveis estrelas daquela noite sem lua. Uma noite tão brilhante só se pode ver no campo. Mal sentimos os numerosos buracos que fazem a caminhonete pular a todo momento. Estamos hipnotizados pela noite. Eu sinto os dedos dela delicadamente se aproximando dos meus e aproveito aquela oportunidade para apertar sua mão com força. Não dizemos uma só palavra. Não precisamos de palavras. As estrelas com sua língua iluminada, nunca traduzida, falam por nós. Eu não me atrevo a me mover, mal ouso respirar. Deixo que os caminhos leitosos da via láctea nos conduzam ao nosso destino. Sinto sua mão suar enquanto ela massageia a minha com seu polegar. Com a coragem de uma amazona ela apoia sua cabeça no espaço entre minha axila e meus ombros, sem soltar minha mão. Mão direita com mão esquerda. Sinto os cachos de seus cabelos negros brincarem com meu antebraço. Viro a cabeça de lado. Devagar. Vejo as estrelas refletidas nos seus olhos. Nossos lábios se tocam, mas não nos atrevemos a fechar os olhos. Queremos ver aquele momento. Eu vejo que ela vê as estrelas refletidas nos meus olhos também. Estamos na via láctea, voando rumo ao infinito.

            Eu estou lá

            Sinto a areia molhada sob a sola dos meus pés enquanto olho para o oceano sob um céu azul escuro. As ondas trazem mais areia que agora chega até as minhas canelas. Eu não ouço as gaivotas ou as crianças à minha volta. A canção perene do oceano preenche meus ouvidos. Dirijo meu olhar para o horizonte, onde mar e céu se beijam concretizando um amor impossível. O sol aquece as minhas costas enquanto a água esfria minhas pernas. Eu sinto este misto de calor e frescor com meu corpo todo e inspiro profundamente. Me misturo com o ambiente. Fecho os olhos. Meus dedos se espalham pela terra me enraizando no planeta, aprofundando cada vez mais dentro da areia e do oceano, enquanto realizo minha transformação em um amálgama de homem e natureza, não estou sozinho. Deixei de ser somente eu. Sou o conteúdo de um vaso quebrado.  Sou tudo.

            Eu estou lá.

            Vejo a imensidão negra que parece estar imóvel abaixo de mim. O vento frio machuca minhas bochechas mas não me incomodo. Amo esta sensação. Pela primeira vez dono de mim. Pela primeira vez, navegando na escuridão dentro de um momento infinito e efêmero onde somente o vento pode me dizer para onde ir. Sinto seu frescor e sua benção. Ele deixa que eu o siga, me mostra o caminho que preciso tomar. O deserto abaixo não parece existir. Somente a noite, acima e abaixo do meu avião. Sinto pena dos pequenos seres que ficam em suas rotinas diárias dizendo pra si mesmo que só fazem o que é necessário para dar uma vida boa para sua família. Não conhecem o que é viver. Não conhecem o que é a vida. Não de verdade. Sobrevivem dia a dia em sua rotina que é a única coisa que os impede de ficar loucos. Não conseguem ver a beleza da loucura. A noite acima e abaixo de mim me diz que não somos mais do que crianças tentando achar uma direção para o mundo. Eu balanço a cabeça em um “sim”, confirmando que aquele segredo fica entre nós dois.

            Eu estou aqui.

            Sinto que o suor da minha testa se evapora antes de tocar a areia. Areia que está nos meus dedos, debaixo das minhas unhas, entre meus cabelos. Não consigo gritar. Não consigo chorar. Minha garganta se fecha e só vejo pequenos pontos luminosos com meus olhos secos. Estas pequenas miragens de estrelas permeiam minha visão apesar do sol que me castiga. Vejo a areia sendo carregada pelo vento, mas não consigo senti-lo. Eu não sinto mais o calor. Não sinto mais a dor. Minhas ilusões e memórias acabaram. Não consigo mais me transportar para dentro delas. É o fim. Não vai demorar muito. Até que… não acredito. De repente eu vejo. No primeiro momento não consigo ver a caravana, ou os camelos. Só consigo ver a beleza efêmera dos homens. Todos os homens dentro daquele rosto. Não consigo identificar uma fisionomia a não ser a da humanidade. Ele é meu salvador. Cinco dias de solidão, de uma escuridão sem esperanças finalmente estão acabados. Eles nos viram. Estamos salvos. 

Awarê.

 Recentemente um amigo me disse que esta palavra em japonês significa um momento fugaz de intensa beleza. Não sei se esta palavra existe ou se é este o real significado, mas esta palavra me fez pensar. Qual momento de beleza intensa não é fugaz? Quantos minutos de beleza são necessários para que não se encaixem nesta definição. Novamente dentro do meu avião observando a imensidão azul que se estende acima e abaixo de mim, há horas, será que esta beleza ainda entraria na definição de fugaz? Olho para trás e acredito que minha vida tenha sido fugaz. Quando examino meu passado, gosto sempre de me imaginar dentro de um avião, um errante celeste buscando um aeroporto, um oásis, um abrigo. Mas eu fui mais do que isso. Menos do que isso. Penso nas rosas que deixei para trás, desamparadas com seus 4 espinhos. Muitas vezes as palavras que escrevi foram usadas para o bem, mas quantas vezes para o mal? Quantas boas ações desfazem uma má ação? Depois de tantos acidentes, tantas vezes o céu me rejeitou e me mostrou que meu lugar era no chão, mas ainda assim um Deus cruel me negou as portas do paraíso para me deixar com esta dor incrível no pescoço. Esta incapacidade de virar a cabeça. Agora a guerra. Sempre a terrível guerra, nos empurrando dos braços de um ditador para outro. Não. Não mais. Após consultar minha psiquiatra engarrafada, cada vez com mais frequência, ela me diz que todo sofrimento tem um fim. É apropriado que o fim seja agora. Não no azul do céu, mas no azul do oceano, que se aproxima com velocidade. É adequado repousar na costa do meu país depois de tantos anos. Além disso, o Mediterrâneo me parece mais íntimo, não tem toda a imensidão do Atlântico ou do Pacífico, por isso me lembra a simplicidade das pequenas cidades. Não deixo notas ou explicações. Já escrevi demais.

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