Introdução

            Este conto é o maior perdedor de todos. Nunca chegou a participar de um concurso porque não conseguiu passar sequer na minha própria triagem. Quando o escrevi, tinha o plano de manda-lo para o prêmio Off-Flip, só que acabei decidindo mandar um conto que escrevi depois chamado Awarê. Chegaremos até ele.

            Antes de escrever este conto tive um sonho. Acordei com uma inspiração sublime, tinha certeza que uma história se formara inteirinha sem o menor esforço. Comecei a escrever e vi que a inspiração do meu sonho era suficiente somente para o primeiro parágrafo. Foi aí que vi que a inspiração prega peças, em nós que não temos talento. Mas, lembram-se que não acredito em bloqueio criativo? Como estava determinado a escrever um conto, eu iria sim escrever um conto.

            Todos os dias eu via uma garota ruiva, muito bonita, quando ia na academia. Ela não andava, parecia flutuar no recinto. Acabei me perguntando qual seria a abordagem ideal para uma mulher que eu via ser assediada todos os dias. Depois de pensar por algum tempo, decidi que o melhor seria uma abordagem direta. Assim, escrevi esta história.

Conto

            Um ponto. Ponto final. Apesar de Joaquim preferir as inúmeras possibilidades de uma vírgula, aquilo tinha que ser um ponto final. Já devia ter sido há um ano, mas ele não conseguira deixá-la ir. Olhava para a aliança em sua mão, idêntica àquela que se enrolava no seu dedo. O Sol, que se refletia no lago, acertava o metal amarelo e ofuscava seus olhos. A água fria banhando seus pés o acalmava. O álcool lhe dava determinação. Esvaziou a garrafa verde com um último gole e a colocou no chão. Com cuidado retirou a aliança do anelar e a segurou entre o indicador e o polegar da mão direita, enquanto a mão esquerda segurava outra aliança idêntica da mesma forma. Lado a lado. Era como eles deveriam estar, mas a vida tinha outros planos. Pegou um pequeno arame e amarrou as duas alianças juntas. Hesitou. Mais um momento. Inspirou o ar profundamente e o soltou com pesar. Tinha que fazer aquilo. Levou a mão para trás e arremessou as alianças com toda a força rumo às aguas azuis que refletiam os últimos raios do Sol que ofuscava seus olhos. Caiu de joelhos na água fria e segurou a mão esquerda com a direita, observando a ausência do metal amarelo, seu único companheiro no último ano, enquanto as lágrimas caíam fartas pelas bochechas em meio a soluços. Um ponto final, afinal.

            No dia seguinte acordou um pouco mais leve. Um pouco não, muito mais leve. Não devia ter voltado do lago dirigindo bêbado, sabia disso, porém naquela noite precisava da sua cama. Precisava ver se ainda sentiria a ausência ao seu lado na cama. Não sentiu. Quando acordou percebeu que estava deitado na diagonal, usando a cama inteira. Sentou-se, apoiou as mãos na beirada da cama para ficar em pé e olhou para a mão esquerda sem pensar. Uma pequena faixa branca fazia um semicírculo no dedo anelar. O Sol havia bronzeado a mão e lhe deixado um lembrete. Maldito. Decidiu que aquilo não iria abalar seu bom humor. Não hoje. Se fosse ontem algo tão pequeno conseguiria lhe deixar de cama o dia todo, porém agora ele conseguiria superar não só aquilo, mas qualquer outra coisa que o fizesse se lembrar dela. Tinha se despedido da mágoa ontem. Hoje só sentia o calor das boas lembranças. Levantou-se e foi escovar os dentes com uma melancolia feliz nos lábios.

            Chegou ao escritório naquele dia e a mudança interior parecia não ter se refletido no seu exterior. Ninguém havia comentado nada. O que de fato acontecia, era que, seus colegas de trabalho estavam profundamente adormecidos dento de sua rotina, para perceberem sua postura mais ereta, seu andar mais confiante sua barba bem feita ou até mesmo o sorriso que apareceu em seu rosto diversas vezes durante o dia. Melhor assim. Não ter que se explicar foi a benção final do seu ritual de despedida. Trabalhou com rapidez e eficiência suficientes para ficar cerca de duas horas sem ter o que fazer no final do expediente. Passou o tempo na internet e visitou sites de humor que não via há meses. Era bom sorrir. Mais do que isso. Era fácil.

            Saiu do trabalho e foi direto para a academia. Deixava suas roupas e tênis em uma sacola no porta malas, caso passasse em casa perderia a disposição para fazer qualquer atividade física. Havia começado os treinos há 3 meses e vinha sempre no mesmo horário, mas aquele dia era especial. Desde que saíra de casa de manhã estava com uma coisa na cabeça. Na verdade talvez aquela ideia fosse o motivo de ter ido ao lago ontem e se despedido de sua tristeza. Hoje iria falar com a ruiva.

            Desde que começara a academia Joaquim começou a observar uma ruiva, escultural, que fazia seus exercícios no mesmo horário. Não fazia ideia do nome dela ou do que fazia, mas já havia fantasiado conversar com ela uma dúzia de vezes. A cor vermelha era claramente artificial, entretanto isso não diminuía em nada a beleza dos cabelos cor de fogo. A pele era branca e os olhos verdes, pernas bem torneadas, barriga reta e seios pequenos e rijos. Ainda haviam dois detalhes que deixavam-no extasiado. Uma tatuagem de caveira na coxa direita e uma flor de lótus no braço esquerdo. Joaquim nunca se relacionara com uma mulher com tatuagem e tinha essa fantasia desde que era adolescente, mas simplesmente nunca tinha acontecido. No primeiro dia que foi na academia a ruiva lhe chamara a atenção, porém somente hoje pode ter a real dimensão do quanto aquela mulher o atraía.

            Entrou na academia, trocou de roupa e se olhou no espelho. Não estava mal para um homem de 35 anos. A maior parte do seu cabelo ainda estava na sua cabeça, com a cor original, o preto. Apesar de só ter começado a fazer musculação há 3 meses, mantinha o peso que tinha quando se formou. Não era um modelo porém não era de se jogar fora. Deu o melhor sorriso que pode para o espelho e foi conversar com ela. Sabia que, se postergasse a conversa, a cada minuto sua coragem diminuiria um pouco, até desaparecer. Saiu do banheiro com o coração batendo na boca. Se computasse os 3 anos de namoro, os cinco anos de casado mais o último ano viúvo, há 9 anos não flertava com ninguém. Ela iria perceber seu nervosismo com certeza. Não tinha problema. Tinha tomado a decisão de ser direto. Era melhor não fazer rodeios, pois certamente iria gaguejar se tivesse que improvisar uma resposta:

            – Boa tarde, como é o seu nome?

            – Gisele, e o seu?

            – Joaquim. Me desculpe se eu sou um pouco direto, mas queria saber se você tem namorado?

            – Tenho…

            – Ah. Desculpa incomodar então. Até mais.

            – Até.

            “Que burro. É claro que ela tem namorado. Uma mulher daquela com certeza teria. Além disso a menina é bem mais nova do que você. Uns 8 anos. Talvez mais. O que iria querer com o tiozão?”

Depois desse primeiro ataque de auto piedade se acalmou. Não fazia mal. Pelo menos tivera coragem de ir lá e conversar. Se não tivesse feito isso ficaria se perguntando o que teria acontecido. Sentia-se bem consigo mesmo. Sem perceber começou a fazer os exercícios com um sorriso espontâneo. Fizera o certo, apesar de não ter dado certo. Se dirigiu com calma para a esteira e começou a caminhar. Em menos de cinco minutos a esteira que estava do seu lado esquerdo começou a funcionar e ele ouviu:

            – Quer dizer que não sirvo nem pra ser sua amiga?

            Surpreso, Joaquim olhou para o lado e deu uma risada nervosa. Meio sem jeito e com um leve gaguejar respondeu com a maior firmeza que pode:

            – E E E Eu não quero ser seu amigo. Desde o primeiro dia que te vi não queria ser seu amigo. Além do mais eu seria um péssimo amigo porque iria ficar torcendo para o seu namoro acabar. Provavelmente te aconselharia mal para que de fato acabasse, o mais rápido possível. É possível que tentasse te beijar na primeira oportunidade. Então, apesar de não duvidar que você possa ser uma excelente amiga, eu, particularmente, não quero ser seu amigo.

            – Bem colocado. A maior parte dos homens não é tão sincera. Começam a conversar comigo como se quisessem ser meus amigos. Pouca gente é tão direta

            – Não poderia ser de outro jeito. Estava muito nervoso.

            Ela deu uma olhada rápida para a mão esquerda dele que segurava o corrimão da esteira e disse apontando com a cabeça para a mão de Joaquim:

            – Pelo jeito, apesar de você estar sendo sincero comigo, não está sendo sincero com outra pessoa.

            Ele sorriu, um pouco encabulado, mas respondeu com mais segurança.

            – Eu fui casado. Quatro anos e meio de felicidade seis meses de inferno.

            – Tão ruim assim?

            – Os piores…

            – Então por isso que você não perdeu tempo em procurar outra?

            – Ah, mas eu perdi muito tempo antes de procurar outra. Minha esposa morreu há um ano. Teve leucemia. Seis meses indo e vindo de hospitais. Foi um longo sofrimento para nós dois. Dou graças a Deus por não termos filhos. Criança nenhuma deveria passar pelo que nós passamos. No último ano fiquei andando com minha aliança na mão e a dela no bolso. Não estava preparado pra me despedir definitivamente. Acredite você ou não, foi quando te vi, há três meses que algo mudou em mim. Eu precisava de um pouco de beleza na minha vida. Ontem decidi tirar a aliança. Na verdade joguei no lago. A minha e a dela juntas. Foi na margem daquele lago que nos conhecemos e nada mais justo que o símbolo do nosso amor descanse lá. Preferi trazer comigo só minha memória.

            – Nossa – engasgou Gisele – desculpa. -Uma lágrima escorreu do seu olho direito e ela limpou rapidamente.

            – Não precisa se desculpar. Você não tinha a obrigação de saber. Além do mais nossa história, apesar de curta, foi boa. Eu viveria aqueles seis meses de novo se esse fosse o preço a pagar para viver mais oito anos com minha esposa. Foi um período muito bonito e não fazia sentido me lembrar deles com tristeza. Hoje eu consigo ver isso.

            – Você sempre sabe o que falar?

            – Hahahaha. De jeito nenhum. Sempre gaguejo. Mas hoje não. Estou me sentindo bem. Ontem eu consegui colocar a tristeza pra trás. Engraçado como rituais idiotas nos fazem sentir melhor não é?

            – É. Não sei se foi idiota. Foi necessário. Além disso, olha como você está. Parece muito bem. Que história bonita essa sua.

            Ficaram em silêncio. Um silêncio pesado. Ninguém sabia o que dizer, até que Joaquim perguntou:

            – Suas tatuagens são bonitas. Alguma história por trás delas?

            – Mais ou menos. Sempre gostei da religião budista. E nela existe o sutra de Lótus.

            – Conheço.

            – Pois é. Aí resolvi desenhar essa flor no meu braço. Acho ela muito bonita. Agora a caveira é rock n’ roll !!!

            Ao dizer as últimas palavras Gisele levantou o dedo mínimo e o indicador fazendo a velha maldição italiana que virou símbolo do rock e riu.

            – Boa. Tem hora que eu queria fazer uma tatuagem. Tem hora que não quero. Sei lá.

            – Se você quisesse ser meu amigo eu te levaria pra fazermos uma.

            – Agradeço o convite mas ainda não quero ser seu amigo. Já pensou, ficar olhando pra tatuagem e lembrando de você com outra pessoa. Que tortura! Você é cruel.

            – Eu sou maligna. Disse esfregando as mãos e sorrindo.

            A conversa continuou. Eles tinham muito em comum. Gostavam de rock, Tolstoy, cerveja. Ficaram na esteira por mais de quarenta minutos, sem ver o tempo passar. Joaquim poderia ficar ali a noite toda. Era até melhor que ficasse. Em casa não tinha ninguém esperando por ele. Mas quando ela olhou no relógio e viu quão tarde era disse:

            – Nossa, me desculpe, tenho que ir, já estou atrasada. Foi um prazer te conhecer, meu não amigo.

            – O prazer foi meu, não amiga. – disse ele estendendo a mão sem parar de caminhar.

            Ela foi ao banheiro e ele a observou enquanto se afastava. Fora um bom dia. Fora uma boa conversa. Estava feliz, e nada poderia tomar aqueles quarenta minutos que tivera. Se sentiu tão disposto que começou a correr. Estava se concentrando em não perder a passada enquanto seus pulmões queimavam quando, de repente ela estava na sua frente, sorrindo. Ele diminuiu a velocidade da esteira e voltou a caminhar. Ela esperou e lhe estendeu um papel:

            – Me liga amanhã. Acho que eu e meu namorado vamos brigar hoje.

            Joaquim pegou o papel e acenou para a mulher que se afastava. Aquele dia fora bom. Aquele dia fora incrível. Aquele dia fora sua letra maiúscula depois do ponto final.

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