Introdução

            Eu fracassara nos primeiros concursos que participei. Uma editora tinha enviado sua negativa para meu romance e o restante havia me ignorado. Começava a perceber que a jornada pelo mercado literário seria um pouco mais árdua do que eu imaginara inicialmente. Estava procurando mais concursos de contos para participar quando me deparei com o prêmio Bunkyo.

            O tema do conto inscrito tinha que ser o contato entre o folclore brasileiro e o japonês. Quando estava na faculdade me interessei muito pelas religiões e mitos de diversos países. Tinha ido além da mitologia grega e lido sobre a cultura popular africana, japonesa, indiana, nórdica. Não tinha me aprofundado muito, mas acabei conhecendo muitas criaturas interessante e os tengus tinham me deixado fascinado.

            Criaturas mitológicas, mestres na arte da espada, que, além disso, tinham uma pitada de malícia. Na época que escrevi o conto, estava lendo um mangá chamado Lobo Solitário, uma obra prima em quadrinhos sobre um ronin assassino de aluguel. Somado a isso, na infância, tinha sido um ávido leitor de Monteiro Lobato. Tive certeza de que fora o destino que colocara aquele concurso na minha frente, não a busca do google por “concursos literários”.

Conto

            Takezo não estava em sua cama. Megumy foi acordar o garoto que precisava se arrumar logo para ir à escola, mas não o encontrou. Inicialmente acreditou que o menino acordara mais cedo, talvez estivesse no banheiro, mas em uma busca rápida não conseguiu encontrá-lo em qualquer lugar da casa. Seu coração começou a acelerar e a mulher começou a gritar histericamente.

            – O que foi que aconteceu? – disse Ujio, pai de Takezo.

            – Takezo! Ele não está em lugar algum.

            -Você procurou direito?

            – Claro que procurei. Ele não foi te ajudar no curral?

            -Claro que não. Ele nunca faz isso.

            -Ai meu Deus! Onde será que ele se meteu?

            -Calma que eu vou chamar os rapazes que vieram me ajudar a separar o gado. Vamos encontrá-lo

            Não encontraram. Ficaram o dia todo procurando pelo campo, adentraram o bosque, procuraram no pasto. A mãe avisou os professores, os colegas de sala, além de procurar em hospitais e ir à delegacia, mas o garoto parecia ter evaporado. Após  um longo tempo de trabalho duro, a vida do casal estava começando a ficar mais tranquila. Eles só não contavam com a vida. A vida sempre nos reserva provações quando menos esperamos. O sol se punha, quando a esposa viu o marido voltando do campo acompanhado de dois homens adultos.  Nenhuma criança. Megumy acreditou que conseguiria não chorar mais, que suas lágrimas tinham se esgotado. Enganou-se. Seu marido, quando viu a esposa em prantos, disse:

            -Vamos achá-lo, tenho certeza. Venham rapazes, as lanternas ficam por aqui.

            Após a saída dos homens Megumy ficou novamente sozinha em casa. Tentava repensar os passos do filho, alguma coisa que pudesse ajudá-la. Quando se acalmou, lembrou-se das antigas histórias que seu avô lhe contava. Percebeu que precisava de ajuda. Uma ajuda inumana. A mulher iria procurar todos os meios para encontrar seu garoto. Tirou os sapatos, cuidadosamente colocou as meias dentro, olhou pela janela e viu o monte que ficava a cerca de dez quilômetros da sede. Deixou um bilhete para o marido e saiu descalça na direção do monte. Logo começou a chover. Melhor assim.

             Caminhou com a chuva fria assolando suas costas.  Parou por um momento para tirar o quarto espinho que se alojara na sola de seus pés.  Quanto maior a dificuldade, mais certeza tinha que seu sacrifício seria ouvido. O terreno ficava mais íngreme à medida que adentrava a mata. Ao cruzar o pequeno riacho sentiu alívio misturado à ardência, quando a água fria tocou seus pés. Agradeceu silenciosamente e prosseguiu. O final da subida foi o mais difícil. Uma parede de pedras impunha-se à sua frente. Ela tentava procurar frestas com as mãos e pés, enquanto as rochas eram manchadas pelo seu sangue. Venceu o último obstáculo estoicamente e, quando percebeu, suas roupas já estavam secas. A chuva parara há mais de uma hora, ela sequer percebera. Seus joelhos reclamaram quando se sentou com as pernas cruzadas. Engoliu a dor e disse:

            -Pássaro que anda em forma de homem. Só posso oferecer meu suor e meu sangue em sua honra. Encontre meu filho. Encontre meu filho. Pelo meu suor, pelo meu sangue, encontre a criança perdida.

            A prece pareceu estranha quando dita em português, mas não sabia se os espíritos daqui entenderiam japonês. Para garantir, preferiu falar nas duas línguas. Escutou um forte vento e, ao longe, ouviu uma revoada de pássaros. Continuou com as pernas cruzadas e fechou os olhos com o esboço de um sorriso. Sua prece fora ouvida.

            Atrás da mulher uma sombra moveu-se silenciosamente. Uma sombra que só seria vista por olhos humanos se quisesse. A sombra fez uma reverência à mulher em sua frente sem que ela percebesse. Caso ela tivesse se virado poderia ver uma esguia criatura vestida com um quimono preto, coberta por um manto, também preto. Um olhar atento conseguiria distinguir o cabo prateado de uma kataná escondida no manto, mas a surpresa maior estava reservada para quem encarasse o rosto. No lugar de uma face humana estava um longo bico de corvo com dois olhos negros e profundos. Após a breve reverência, a criatura saiu em disparada rumo à casa de onde a mulher saíra.

            O tengu sabia que, para localizar a criança, tinha que ver o lugar de onde desaparecera. Instintivamente sabia que a casa estaria aberta e onde o quarto do garoto estava. Era uma de suas muitas habilidades, mas nem de longe a mais impressionante. A cama do garoto ainda estava desarrumada, ou seja, o menino dormira ali na noite anterior. A janela fora fechada por dentro, o tengu conseguiu discernir as marcas dos dedos femininos que tocaram-na. A mulher demorara mais de 24 horas para chamá-lo, tinha dúvidas se conseguiria encontrar Takezo com vida, apesar de ter certeza que o encontraria. Abriu a janela com dedos ágeis e empoleirou-se no parapeito. Olhou cuidadosamente o chão próximo da janela e viu marcas sutis, semelhantes a pés, porém com uma forma grotesca, inumana. Conseguiu discernir os rastros que chegaram e os que iam embora. As pegadas, que eram estranhamente grandes, à medida que se afastavam da janela, iam tomando uma forma arredondada, semelhante a cascos. Com seus olhos afiados viu a assinatura sobrenatural nas pegadas da criatura, agora, assim que pousasse os olhos no raptor o identificaria. Seguiu a trilha monstruosa com velocidade.

            À medida que se aprofundava na floresta a trilha ficava mais difícil de ser seguida, mas os olhos hábeis do tengu sempre conseguiam localizar aquela estranha pegada em meio à vegetação coberta de lama, e quando não conseguia, os pássaro apontavam a direção correta. Apesar de não conhecer muitas das espécies que viviam por ali, um pássaro é um pássaro, portanto conseguia se comunicar sem dificuldades. Estava prosseguindo com cautela quando sentiu que estava sendo observado. Ficou imóvel em posição de batalha, com a mão esquerda  pousada cuidadosamente na bainha de sua espada.  Destravou-a com um movimento firme do polegar. O clique ressoou no silêncio etéreo que se fez. A mão direita segurou o cabo da kataná firme, enquanto seus olhos procuravam seu observador misterioso. Então ouviu:

            -Ei amigo. O que você procura na minha floresta?

            O tengu olhou para cima e viu um garoto com os cabelos vermelhos,vestido somente com uma bermuda feita de vegetais, sentado displicente em um galho de árvore. Na escuridão, viu que havia algo de errado com os pés da criatura, porém sabia que aquele não era quem procurava. Disse com firmeza, sem tirar a mão da espada:

            -Vim procurar um garoto. Quem é você?

            -Pode tirar a mão dessa espada – disse o estranho, descendo da árvore com um salto – eu não quero lhe fazer mal, só não gosto de quem vem caçar meus animais.

            -Não vim caçar. Só quero encontrar Takezo. Se você não ficar em meu caminho também não lhe farei mal – disse o tengu soltando a katana.

            -Você é um sujeitinho estranho. É novo por aqui?

            -Minha terra é muito longe. Vim com o espírito dessa família. Não conheço estas árvores, mas os pássaros estão me ajudando. Não terei problemas em concluir minha missão.

            -De fato os passarinhos falaram de você. Mas a criatura que você procura não vai te entregar o menino. E ele não é tão legal quanto eu.

            -Você sabe quem raptou a criança?

            -Sei. Se você morasse aqui, também saberia, assim que visse as pegadas. Você vai precisar de ajuda contra ele.

            O tengu ponderou em silêncio por um momento. O garoto com os pés estranhos na sua frente, não parecia ser muito poderoso, mas qualquer um que consegue observar um tengu sem ser visto, merece respeito. Além disso, estava de fato em um terreno que não conhecia, procurando um inimigo cujas habilidades eram um mistério para ele, porém que o garoto parecia conhecer. Por mais que confiasse na sua espada, ajuda oferecida de boa vontade nunca deve ser rejeitada:

            -Eu aceito de bom grado sua ajuda, pequeno. Sabe por onde temos que ir?

            -Claro que sei. O Touro Negro não faz questão de se esconder. Ele quer ser temido. Como posso te chamar?

            – Os humanos nos chamam de tengu. Minha família me chama de Karasu.

            -Pode me chamar de Caipora. Me siga… se conseguir!

            O garoto com seus pés esquisitos corria na velocidade do vento. O tengu pulava, pegava impulso nos troncos e galhos, desviando-se com acrobacias, das árvores e arbustos. Não seria deixado para trás. O Caipora foi reduzindo sua velocidade, olhou para trás e colocou os dedos entre os lábios pedindo silêncio ao companheiro. Subiram em uma árvore e quando olharam para baixo lá estava Takezo, dormindo em uma cama de folhas. Parecia um sono agitado, o garoto se debatia sem parar. Ao seus pés um grande homem estava sentado, com uma enorme cabeça de touro, completamente negra, com chifres igualmente negros. A criatura observava o menino à sua frente e tinha algo parecido com um sorriso em seus lábios. O Corvo pulou de seu observatório com agilidade e caiu logo atrás do homem-touro, sentado à sua frente, sem fazer questão de ser silencioso. A criatura à sua frente se pôs de pé em um instante, seus olhos se inflamaram e disse:

            -QUEM É VOCÊ? O QUE FAZ AQUI? VÁ EMBORA!!!

            -Me chame de Corvo. Se você não me entregar Takezo, eu serei sua morte.

            -Pequenino, ousa me desafiar? Há alguns anos eu teria te matado com o olhar. Mas as mães não se lembram mais de mim. Os garotos não temem o boi da cara preta. Mas eu te digo uma coisa… EU NÃO SEREI ESQUECIDO.

            Com esse grito final, o corpo masculino foi se transformando em um corpo de boi, preto como a noite. Era possível escutar o bufar da respiração forte que saía de suas narinas. O Caipora observava, estupefato, a audácia de seu amigo. Não acreditou que ele estava pensando em enfrentar o Touro Negro em um combate.

            O grande animal investiu contra Corvo, que teve somente um instante para se desviar. O rasgo em seu manto mostrou a ele que seu adversário era rápido e perigoso. Quando passou pelo tengu, o touro desferiu um poderoso coice que foi defendido pela katana, manejada habilmente. Quando tentou usar novamente os chifres, Karasu estava preparado e desferiu um golpe certeiro arrancando o chifre direito do touro. Mesmo assim, a criatura não desistiu e acertou a pata dianteira no rosto do adversário. O tengu caiu de costas para o chão e Touro Negro se preparou para esmagar seu inimigo, porém este foi mais veloz e rolou para a esquerda. Quando as patas do touro encontraram o chão macio, o tengu deu um golpe certeiro com a katana e arrancou sua pata direita. O grande bovino foi adquirindo novamente a forma humana, enquanto urrava de dor. O tengu esperou seu inimigo vencido se recompor. O Touro então disse:

            – Só queria que as mães voltassem a cantar minha canção. Não me importo em ser o vilão. Só não deixe que eles me esqueçam.

            Karasu viu quando o Touro Negro abaixou a cabeça, lhe oferecendo o pescoço, mostrando orgulho na hora da sua morte. Ele fora um inimigo honrado. Merecia uma morte honrada. Com um movimento rápido de sua espada decepou a cabeça do animal gritando:

            – Gomenasai

            O Tengu pegou o chifre decepado e colocou nas mãos do garoto, que agora acordava. Sem entender ainda direito o que estava acontecendo o garoto ouviu:

            – Este chifre pertenceu ao seu captor. Ensine seus amigos a teme-lo.

***

            Os primeiros raios de sol estavam aparecendo quando Megumy abriu os olhos. Alguma coisa no vento a fez interromper sua meditação. Olhou para casa e viu um garotinho correndo ao encontro do pai. Levantou-se da sua posição de lótus somente para ajoelhar-se novamente e dizer:

            -Obrigada! Não esquecerei o que fez por mim. Virei a este monte todos os anos, neste mesmo dia, para reverenciá-lo.

            O tengu observou aquela nobre senhora escondido pela sombra de uma grande árvore que crescia no cume do monte. Olhou para Caipora e fez um afago nos cabelos ruivos do garoto. Podia aprender a amar este novo lugar.

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