Introdução

            A inspiração para a história é muito clara. Eu tinha acabado de ir ao Chile e, na viagem, lido On the Road, do Kerouac. Nenhum dos resultados dos outros concursos tinha saído, quando escrevi este conto, por isso minha confiança continuava alta. Quis experimentar um pouco e escrever sobre minhas próprias lembranças, talvez praticar um pouco mais as descrições (minha maior dificuldade, até hoje), na tentativa de melhorar minha técnica de escritor, me tornar um profissional ainda melhor (eu tinha certeza de ser tão bom… sinto falta dessa certeza).

            Escrevi este conto para participar de um concurso de contos da minha cidade, chamado Flor do Ipê. Um dos jurados tinha sido meu professor de literatura durante o segundo grau e sempre elogiava minhas redações. Eu sinceramente acreditei que este concurso estava no papo. Como era um concurso promovido pela universidade, eles não lançariam simplesmente os nomes dos vencedores, mas sim, dariam notas para todos os participantes, por isso, o resultado do prêmio demorou mais de um ano.

            Quando o resultado finalmente saiu, fui olhar com o coração pulando freneticamente. Vi que meu nome não estava entre os premiados. Decepcionado, conferi as notas, na esperança de ter ficado bem colocado, pelo menos. Tirei seis, redondo. Catalão jogara um filho de suas entranhas na sarjeta. Aquela nota quase me fez desistir de escrever. Talvez fosse melhor se tivesse desistido…

Conto

Guilherme já estava há mais de 2 horas no aeroporto de Guarulhos e ainda faltavam outras 3 horas até que saísse o vôo para Santiago. Pegara um voo pela manhã em Goiânia bem mais cedo do que o necessário, mas preferia esperar no aeroporto do que correr o risco de perder o avião. Além disso, esperar nunca fora um problema. Havia previsto o tempo ocioso e, exatamente por isso, não levou nenhum livro. Gostava de ir à livraria no aeroporto, examinar as possibilidades de aventuras que poderiam acontecer no caminho. Em viagens, preferia ler coisas mais leves, nada que o fizesse pensar muito. Depois de ficar olhando para os livros por um bom tempo, optou por uma bonita edição de “On the Road” de Kerouac. Havia visto o filme há poucos meses e aquela ansiedade louca por viver dos protagonistas era emocionante. Algo bem diferente da vida que ele tinha planejado tão cuidadosamente, vida que, agora, parecia tão distante.

Era um bom arquiteto, tinha idéias que além de boas eram originais, porém sabia que nunca chegaria a ser genial e não se importava com isso. Com a ajuda do pai conseguiu bons contatos, portanto, sempre havia algum projeto esperando para ser começado assim que o anterior terminava. Gostava muito do que fazia, por isso não se preocupava tanto em tirar férias. Se tivesse pensado mais nisso, talvez estivesse fazendo essa viagem acompanhado, mas estava sempre preocupado com o dinheiro que precisava para começar a construir sua casa, pagar a festa de casamento, ajudar a noiva a trocar de carro. Essa economia toda foi boa, porque tinha muito dinheiro guardado quando pegou Letícia em flagrante com um homem que ele nunca tinha visto. A primeira reação de choque foi seguida pela fúria, que rendeu ao amante três ossos da face quebrados e cinquenta mil reais por danos morais, pagos relutantemente por Guilherme.

A viagem não fora cuidadosamente planejada. Estava sozinho em casa colocando gelo na mão, após o término do longo relacionamento e viu na televisão um especial sobre o Chile. Desde o longo drama dos mineiros que ficaram aprisionados embaixo da terra por mais de três meses tivera um interesse especial no país. O programa mostrava as diferentes paisagens que iam da Patagônia gelada ao deserto do atacama, passando por lagos cristalinos e vulcões ainda em atividade. Após uma rápida pesquisa na internet decidiu pousar em Santiago, conhecer a cidade, depois alugar um carro e sair em direção a Puerto Montt, pegando o caminho mais longo para poder conhecer as três casas de Pablo Neruda. De lá pegaria o avião que o levaria de volta para a capital, daí para casa. As passagens foram compradas na mesma madrugada que vira o programa, porém só reservou hotel em Santiago. Queria ter a ilusão de liberdade, por pelo menos 15 dias.

Devido à longa espera conseguiu adiantar-se bastante na leitura e, felizmente, o avião saiu na hora exata. O tempo estava bom e a viagem não teve muita turbulência. Ficou no assento próximo à janela e torceu para ao seu lado sentar uma mulher bonita. O desejo foi atendido, mas a mulher estava com o namorado, ou marido, não conseguiu ver se tinha aliança no dedo. Da próxima vez elaboraria melhor seu desejo. Dormiu a maior parte da viagem, não acordou sequer quando passou o serviço de bordo. A passagem pela alfândega não foi nenhum problema nem se demorou no “duty free”, preferiu deixar as compras para o retorno.

Comprou o ticket do táxi no aeroporto e partiu rumo ao hotel que ficava no bairro Providencia, uma região nobre de Santiago com fácil acesso ao metrô e aos pontos turísticos. Andava com o vidro aberto, sorvendo aquele ar estrangeiro que tinha um cheiro diferente, uma emoção diferente. Absorvia o clima chileno a cada inspiração. Olhou com entusiasmo para o céu e viu a Lua crescente sorrindo para ele. Devolveu instintivamente o sorriso. Alguma coisa dentro dele sabia que depois daquela viagem sua vida não seria a mesma.

            Acordou sem precisar de despertador. Engoliu seu café com velocidade, pediu informações sobre como chegar ao metrô em um “portunhol” razoável e saiu animado. Em pouco tempo caminhava pelo centro examinando o mapa turístico que tinha em mãos. A “Chascona”, casa onde vivera o poeta Pablo Neruda, não era muito longe da estação de metrô de onde descera. Pagou a entrada e pegou o fone que o guiaria pela visita. Dentre as várias opções de língua, estava o português. Colocou-o nos ouvidos e adentrou a casa-museu.

            Depois de começada a visita percebeu que aquela talvez não tivesse sido a melhor escolha para alguém que acabara de ser traído pela noiva. Tudo na casa exaltava o amor do casal que ali vivera. Até mesmo as grades das janelas. Era horrível. Enquanto passeava pela casa só conseguia se lembrar do sorriso de Letícia e do jeito manhoso que ela tinha quando acordava. Pensava naquele tempo, quando ainda iam ao cinema, ela esmagava seu braço durante os filmes de terror. Estas imagens eram sobrepostas pela imagem de outro homem em cima dela. Apesar de ter conseguido segurar o choro, preferiu não terminar a visita. Saiu e foi em direção ao cerro San Cristovão.

            Chegando lá existia a opção de subir pelo “funiculair”, um pequeno trem que levava e trazia as pessoas do topo do monte, porém optou por subir a pé. Precisava da companhia de seus pensamentos por mais tempo e, um pouco de suor, deixaria sua mente mais aguçada. Iniciou a subida deixando o fluxo de imagens boas e ruins fluir. Não fez grandes elocubrações, não procurou uma epifania. Só precisava deixar que aquele fluxo se esgotasse até que, sem perceber, começaria a pensar em outra coisa. Quando concluiu a longa subida só queria beber uma garrafa de água. Sentou-se enquanto degustava o líquido insípido e sentiu a calma que o lugar transmitia. Alto falantes emitiam uma suave música sacra, que combinava com o ar religioso do lugar. Chegou à beirada e viu Santiago inteira abrindo os braços para ele. Admirou por um breve período a vista da cidade, até ouvir o clamor de seu estômago, que já clamava por comida há algumas horas. Nem percebeu que seu plano para pensar em qualquer coisa que não Letícia havia funcionado, porque se percebesse, voltaria a pensar nela de novo. E, também sem perceber o porquê, desceu pelo funiculair.

            Quando saiu do Cerro São Cristovão começou a caminhar em direção ao Pátio Bela Vista, um lugar próximo ao cerro com diversos restaurantes e lojas, como lera em uma matéria sobre o Chile. No caminho, achou um restaurante roxo que lhe chamou atenção…hesitou por um momento, mas decidiu entrar e foi agradavelmente surpreendido. O interior do restaurante lembrava uma hacienda dos antigos filmes de faroeste, tinha até mesmo uma fonte. Letícia adoraria aquele lugar. Por um momento toda a dor que ele suara para fora de si quis voltar, entretanto obrigou-se a aproveitar o momento. Pediu uma cerveja e deixou o barulho da água e a beleza do lugar ajudarem o álcool a inebriar lhe os sentidos.

            Após o almoço saiu andando em direção ao centro da cidade. Aproveitou a alegria da cerveja e passeou sem destino, virava à esquerda em uma rua, à direita na outra, passou por lugares feios, bonitos, mas todos com uma coisa em comum: estavam abarrotados de pessoas e barulho. De repente, virou à esquerda em uma esquina e chegou numa calma rua chamada Paris. Parecia um oásis no meio da cidade. Era possível ouvir o som abafado do trânsito, só que ali as pessoas andavam devagar. Mesmo os carros estacionados eram poucos e os prédios apresentavam uma arquitetura benevolente que parecia harmonizar com o ambiente. Comprou mais uma cerveja em um armazém próximo e recostou-se em uma árvore, degustando a bebida com calma. A claridade do dia ia diminuindo aos poucos, por isso decidiu pegar o metrô de volta ao hotel. Chegou ao hotel, bêbado, cansado, tirou os sapatos e dormiu vestido.

            Os dois outros dias em Santiago não foram tão bons quanto o primeiro. Ele achou que seria mais fácil conhecer pessoas viajando, só que sua timidez o atrapalhava, só conseguia conversar o necessário para pedir informações. A tentativa de ir à uma boate na esperança de conhecer alguém interessante não trouxe resultado. Após um longo período sentado no banco do bar, sem trocar uma palavra com ninguém a não ser o barman, decidiu ir embora. Aquele não era o dia dele. Saiu em direção ao hotel um pouco decepcionado consigo mesmo, porém animado pela promessa que um novo dia em um país estrangeiro trazia…

            Acordou ansioso. Chegara o dia de alugar um carro e partir em direção ao litoral para depois seguir rumo ao Sul até Puerto Montt. Passaria pela região dos lagos, um dos trajetos mais bonitos do Chile, mas não era o destino que o animava. Sim o caminho. Adorava dirigir, andar de carro. Queria se sentir um “Dean Moriarty”, talvez até dar algumas caronas no caminho. O carro era pequeno, mas como viajava com pouca bagagem sobrava espaço. Comprou um mapa das estradas chilenas e estava pronto para partir.

            A estrada era movimentada, mesmo sendo um dia de semana. Era sempre assim no verão, todos buscavam o Pacífico. Reservara um hotel pela internet na noite anterior e fez questão de pegar um quarto com vista para o mar, apesar do preço. Há tantos anos não viajava que valia a pena aproveitar. A estrada era bonita, com uma paisagem diferente daquela que estava acostumado no centro do Brasil. Passava por vinícolas e florestas de pinheiros enquanto subia gradualmente a cordilheira em direção ao poente. Pensou que a serra seria mais difícil, porém naquela região as montanhas não eram tão altas e a viagem foi tranquila.

            Quando chegou ao hotel, foi para a varanda do seu quarto e ficou maravilhado com a visão. O Pacífico se desfraldava à sua frente, revolto e cinzento. Não era uma beleza exuberante e voluptuosa, à la Rita Hayworth, sim uma beleza refinada, estilo Lauren Baccal, com seus dentes suavemente desalinhados e olhar penetrante que conseguiam deixar até Humprey Boggart babando. Abriu a garrafa de vinho que estava em seu frigobar e degustou o horizonte. Inebriado pela beleza sentiu uma inquietação em seu peito que não podia guardar para si. Pegou o laptop e começou a escrever. Escreveu sobre o que sentia e o que via, escreveu sobre si, escreveu sobre o vento e viu como era difícil descrever o céu. Quando o surto de inspiração passou, já era noite e tinha 10 páginas escritas. Ao reler, viu que não estava tão ruim, apesar de precisar de alguns ajustes. Com a sensação de dever cumprido e uma pitada de inspiração ainda sobrando, foi perguntar ao recepcionista onde poderia achar um bom bar por ali.

            Não precisou andar muito para encontrar um lugar legal para tomar cerveja. Naquela noite estava se sentindo confiante. Olhou para uma garota que lhe retribuiu o olhar e devolveu-lhe um sorriso de troco. Foi o que bastou. Com pouco tempo de conversa já estavam se entendendo apesar de não falarem a mesma língua. Ela era peruana, estava viajando com duas amigas há uma semana e ainda tinha mais duas semanas para viajar. Meus Deus, aqueles olhos negros seriam capazes de fazer um homem se afogar. E o jeito que ela tirava o cabelo do rosto para colocá-lo atrás da orelha! Os dois ficaram conversando até os garçons começarem a empilhar as cadeiras. Quando a garota olhou para os lados percebeu que suas amigas já tinham ido embora. Guilherme começou dizendo que podia acompanha-la até o hotel onde as amigas estavam, mas, em um ato de coragem, disse “a não ser que você prefira vir até o meu”. Isabella disse sim.

            Ao chegarem ao hotel, os dois sabiam o que iria acontecer, entretanto nenhum dos dois sabia por onde começar. Ele abriu a janela e viram o oceano se desfraldando à sua frente. Ela segurou na borda e inspirou o ar marinho, enquanto ele a envolveu por trás e cheirou os seus cabelos. Fizeram amor ouvindo a serenata das ondas e a percussão do vento.

            Pouco antes do amanhecer ela disse que tinha que ir embora, Isabella e as amigas pegariam um ônibus bem cedo. Os dois ainda se beijaram mais uma vez, para nunca mais se encontrar. Ele não conseguiu mais dormir. Estava muito animado para dormir por mais tempo. Decidiu ir à Valparaíso e ver a segunda casa de Neruda. Optou pelo trem. porque o trânsito do lugar para um estrangeiro não parecia ser nada fácil.

            Chegou à La Sebastiana sem dificuldades. A casa era linda, apesar de aquela nem de longe ser a vista do Oceano que mais lhe agradava. O porto ficava bem à frente abarrotado de máquinas e navios cargueiros. Sentou-se em um café e não conseguiu deixar de pensar em Letícia. Fora ela que lhe emprestara “Confesso que Vivi” antes de começarem a namorar. Pensou que ficar com Isabella iria ser uma boa maneira de superar a antiga noiva mas estava enganado. Deixou o lugar e andou a esmo pelo centro de Valparaíso. Quando se deu conta já estava de volta à estação de trem. Voltou para Viña, e foi direto ao hotel. Transformou a tristeza em criatividade. Começou a escrever e as palavras fluíram com a mesma facilidade do dia anterior, apesar de não estar sentindo toda aquela inspiração. Algum tempo depois pegou o exemplar de “On the Road” e foi jantar no restaurante do hotel.

            No dia seguinte conheceu as outras praias de Viña e entrou pela primeira vez no Pacífico. Como a água estava muito fria, acabou saindo logo, optando por ficar em um bar próximo admirando o mar enquanto degustava uma cerveja local. As pessoas pareciam não se importar com a água fria. Surfavam, construíam castelos de areia, as crianças gritavam, corriam, enfim, a praia fervilhava com a vida. Contemplou por um longo tempo até que o dia começou a escurecer. Decidiu ir logo para o hotel, porque no dia seguinte pegaria a estrada novamente

            Antes das sete horas já estava na estrada rumo à Isla Negra. Fecharia o circuito “Neruda” da sua viagem e depois seguiria em direção à região dos lagos. O caminho até lá era curto e sinuoso, com belas paisagens. Antes que se desse conta já tinha chegado ao seu destino. Muito cedo por sinal. A casa só abriria para visitação às dez horas e o relógio acabara de marcar nove horas. Como não havia muito o que fazer na pequena cidade, decidiu conhecer a praia que o poeta observara tantas vezes em sua vida. Chegando lá, entendeu a paixão do poeta pelo mar. O oceano se chocava contra as rochas da margem, com ritmo e violência. Ali, a vista não era de um porto, mas do Pacífico em sua magnitude, com suas águas rebeldes, areia grossa e a música agressiva das ondas. Haviam esculpido um busto de Pablo Neruda com o olhar calmo rumo ao infinito. Ele teria aprovado aquilo. Ficou somente sentado olhando para o mar acompanhado de seus pensamentos. Só que o único pensamento digno de nota foi aquele que não teve: em nenhum momento se lembrou de Letícia.

            Quando olhou para o relógio já eram dez e meia. Levantou-se para conhecer a casa e parou subitamente. Já tinha visto o mais importante. Olhou para frente, viu a varanda da casa, virou-se para ver o oceano. Um leve sorriso lhe veio aos lábios, sem que sequer percebesse. Saiu em direção ao carro para seguir viagem.

            Provavelmente não conseguiria chegar até Pucón, mas queria chegar perto. O trajeto rumo à “carretera” foi lento, apesar de curto. A estrada era estreita e o tráfego pesado. Mas quando finalmente pegou a estrada principal se admirou. O asfalto era invejável e todo o trajeto duplicado, com a cordilheira fazendo-lhe companhia à sua direita. Percebeu que a viagem seria mais tranquila do que imaginara.

            Parou para almoçar em um posto na estrada, preferiu comer um lanche rápido para não demorar muito. Quando estava saindo, viu dois garotos com pesadas mochilas nas costas pedindo carona. Havia visto muitos destes aventureiros pelo caminho todo, alguns em grupos outros sozinhos. Teve a sensação de que as rodovias chilenas eram mais seguras que as brasileiras, pelo número de mochileiros que via. Encostou e disse aos dois que entrassem.

            Os garotos agradeceram e colocaram a bagagem no carro. Eram dois argentinos que haviam chegado ao Chile há uma semana com pouco dinheiro e muita animação. Não pode deixar de invejar o espírito dos meninos. Desde pequeno planejara cautelosamente suas ações, quanto da mesada gastaria com doces, quanto compraria em briquedos e quanto guardaria. Seguiu este estilo por toda a sua vida, sempre acreditando que era o jeito certo de se viver. Porém, uma ponta de dúvida algumas vezes aparecia no fundo de sua mente: como seria andar no fio da navalha? Surfar a borda da pobreza, arriscar uma refeição por um dia de viagem a mais. Será que esse estilo de vida seria mais feliz? Mais despreocupado com certeza. Enquanto conversava com aqueles dois estrangeiros em uma linguagem mista de português com espanhol, permeada por muita gesticulação, via naqueles garotos algo que ele nunca tivera. Uma vontade de viajar, desbravar, conhecer. Não, não era isso. Via nos garotos uma vontade urgente de viver.

            Por volta de 6 horas viu uma placa que dizia “Temuco a 30km”. Já estava cansado de dirigir e não tinha pressa de chegar. Os garotos ainda queriam prosseguir viagem, por isso deixou-os na estrada principal antes de pegar a saída para Temuco. Como a cidade não era muito grande nem muito turística, conseguiu um hotel rapidamente. Depois de um breve caminhada pela cidade, deitou-se mais cedo, ansioso por prosseguir viagem no dia seguinte.

            A viagem até Pucón foi curta e, antes do almoço tinha chegado ao seu destino. A cidade estava lotada, sem nenhum lugar para estacionar. Não tinha deixado nenhum hotel reservado, imaginou que, em uma cidade daquele tamanho, não deveria ter problemas em encontrar algum lugar para dormir. Estava enganado. A cidade estava abarrotada de turistas, carros parados dos dois lados das ruas, além de um trânsito absurdo. Quando viu diversos hotéis próximos à avenida principal, decidiu parar o carro em um estacionamento e procurar um quarto a pé.

            Bateu na porta de diversos hotéis e pousadas, porém todas estavam lotadas. Na sétima tentativa conseguiu achar um quarto por um valor muito mais alto do que estava disposto a pagar porém, comparado à alternativa de dormir no carro, pareceu um bom negócio. Quando chegou ao seu quarto não se arrependeu da escolha. Ao olhar pela janela viu o vulcão Villa Rica exalando sua fumaça constante ao longe, e ficou em silêncio, hipnotizado pela imagem. O vulcão era muito mais do que esperava. Fez uma reverência solitária ao gigante nevado e foi conhecer o lago homônimo.

            A visão da margem do lago não deixou de surpreendê-lo. Com todo o movimento da cidade, era de se esperar que as margens do lago estariam cheias, ele só não esperava que estariam tão cheias. A praia estava abarrotada de guarda-sóis. Podia ver lanchas, moto aquáticas, “banana boats”, mulheres tomando sol, crianças brincando na água. Com dificuldade conseguiu encontrar um lugar perto da margem e estendeu a toalha que havia levado. Ficou admirando o lago cristalino (o mais cristalino que já vira) e decidiu entrar na água convidativa. Arrependeu-se em instantes. A água era gelada. Guilherme não conseguiu entender como as crianças brincavam com tanta tranquilidade naquela temperatura. Só queria sair dali para se enrolar em um cobertor, porém se obrigou a suportar um pouco mais. Logo a sensação de frio intenso foi passando e se acostumou com a temperatura da água. Aos poucos o tremor que o frio lhe trazia foi sendo substituído por uma sensação suave de relaxamento. Mergulhou com os olhos abertos para admirar aquela borrada paisagem subaquática por alguns instantes e emergiu revigorado.

            Aproveitou o lago por algumas horas, sozinho, antes de decidir voltar ao hotel. Quando entrou no seu quarto o Villa Rica o convidou a sentar-se e abrir uma cerveja. Com calma o gigante lhe contou sobre a vida que havia levado enquanto exalava a fumaça de seu cigarro ancestral antes de lhe pedir calmamente para que ele contasse uma história. Guilherme, obediente, pegou seu computador e contou.

Iniciou seu relato escrevendo sobre a vontade de viajar. Começou a contar a história desde o princípio e percebeu que o nome Letícia apareceu somente em uma fração do que imaginou inicialmente. Começou escrevendo sobre o Chile e terminou escrevendo sobre si. Quando terminou, releu o que escreveu e uma lágrima de alívio escorreu do olho direito. Sentindo-se pela primeira vez inteiro em muito tempo, adormeceu.

             Pela manhã foi conhecer os Olhos do Calburga para depois ir às termas. Aproveitou a noite em um bar sozinho, não mais solitário.  Com o avançar das horas encontrou um grupo de ciclistas que estavam indo na manhã seguinte à Puerto Varas. O grupo de cinco jovens brasileiros estava viajando há três meses de bicicleta. Paravam quando queriam parar e continuavam quando a estrada chamava. Ficaram um longo tempo conversando até que os garotos decidiram voltar ao hotel para poderem acordar cedo no dia seguinte para viajar.

            Guilherme decidiu ficar no bar até a madrugada e pagou o preço por isso. Sua cabeça latejava pela manhã. Depois de tomar o café e dois analgésicos dormiu de novo. A tarde havia pensado em subir o vulcão, mas desistiu. Não conseguiria fazer nada com aquela ressaca. Foi ao lago, mas rapidamente voltou ao hotel. Decidiu descansar para a viagem a puerto varas e pensou que seria bom se encontrasse novamente os ciclistas.

            Após a curta viagem viu o lago Llanquihue com o vulcão Osorno dormindo ao fundo. Chegou já na hora do almoço e escolheu um restaurante à margem do lago. No dia anterior reservara um hotel na cidade pela internet, para evitar a dificuldade que tivera em Pucón. Próximo à entrada da cidade havia visto um outdoor que dizia: “aqui começa a Patagônia”. Sentiu uma pontinha de tristeza. Ali era só o começo da terra do fogo, mas o fim da sua viagem. Puerto Montt, onde entregaria o carro e pegaria o avião de volta para casa, era a cerca de 40 minutos dali.

            Após deixar as malas no hotel foi conhecer os saltos de Petrohue e o lago Esmeralda, que supostamente tinha a melhor vista do vulcão. Pegou uma bela estrada que margeava o Llanquihue para chegar ao seu destino. Os saltos não o impressionaram, já o lago fez jus ao nome. A cor verde irradiava das águas calmas, enchendo os olhos e os corações dos visitantes. Fez um pequeno passeio de barco pelo lago, com o Osorno se elevando majestoso ao fundo. Em um ponto mais afastado da praia, viu uma casa de madeira de uma beleza singela, observando o lago. A casa parecia convidá-lo a ficar e conhecer a magia da mata que circundava as águas esmeraldas. Olhou longamente para aquela casa, até ela finalmente sumir de seu campo de visão. Já era hora de voltar ao hotel.

            À noite, saiu a pé, caminhando à margem do Llanquihue. Viu o cassino mas não teve a menor vontade de entrar. Caminhou por alguns minutos até que viu o grupo de ciclistas que conhecera em Pucón sentados em um bar. Quando o viram convidaram-no a se juntar a eles. Guilherme não hesitou. Conversaram animados sobre como fora a viagem de bicicleta e sobre as preparações que estavam fazendo para enfrentar a “Carretera Austral”.

            Em algum momento da conversa surgiu o assunto de como fazia falta um carro de apoio. Guilherme tinha dinheiro sobrando. Não estava com a menor vontade de voltar para casa. Sem perceber se ofereceu. Trocaria a passagem pelo site hoje à noite e substituiria o carro pequeno por uma caminhonete 4×4 em Puerto Montt. Podia prolongar sua viagem por mais quinze dias. Talvez um mês. O projeto em que estava trabalhando não era difícil, conseguiria fazê-lo na estrada. Todos ficaram animados com a decisão do companheiro e o aceitaram como um deles. Mais um viajante andando sem rumo pelas estradas chilenas. Guilherme saiu do bar exaltado e combinou de encontrar com o grupo dois dias depois em Puerto Montt. Quando chegou ao hotel entrou na internet  para olhar em qual cidade poderia entregar o carro e pegar o avião para ir pra casa. Subitamente parou e percebeu uma coisa. Ele não pretendia voltar mais.

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