Introdução

            Câncer é uma doença que me apavora. Desde a época da faculdade tenho um medo patológico de neoplasia. Não é a doença mais grave do mundo. Não é a doença mais cruel. Ainda assim é a doença que mais tenho medo. Acho que porque, durante meu segundo ano de faculdade, o primeiro paciente que atendi tinha uma neoplasia pulmonar inoperável, sinônimo de sentença de morte, não uma morte qualquer, mas uma morte lenta e dolorosa. Aquele primeiro contato deixou marcas profundas na minha alma, marcas que se refletem na minha escrita até hoje.

            Somado a esse medo patológico de câncer, li um estudo que mostrava que mais de cinquenta por cento dos casais são adúlteros. Um dia, minha esposa tinha que ir para um plantão e, logo antes dela sair, tivemos uma discussão. Uma típica briga de casal, ou seja, uma coisa banal que tomou proporções inimagináveis. Ela foi trabalhar com raiva, eu fiquei em casa com raiva. Sentei em frente a televisão, abri uma cerveja enquanto zapeava os canais. Acabei encontrando uma raridade. Um show de música em um canal que tem música no nome, mas atualmente está especializado em reality shows. Era um artista novo, que eu acreditava não gostar muito, mas o que a verdade era que eu simplesmente não conhecia muito. Nesse dia conheci a canção Photograph do cantor Ed Sheeran. Logo que o show terminou, desliguei a televisão e, sentindo os efeitos iniciais do álcool, comecei a escrever.

            Quando reli o conto sóbrio, gostei do resultado. Poucos dias depois descobri o Prêmio OFF FLIP. Foi necessário editar um pouco o conto, ele tinha ficado maior do que as especificações do prêmio, nada muito dramático. Gostei mais do conto editado do que do original.

Conto

            Três horas da tarde. Finalmente estava sozinho. Tomou um grande gole de whisky e olhou novamente para a foto que segurava na mão direita. Lembrava do dia que ela tinha comprado aquela moldura. A moldura simulava madeira envelhecida, com ranhuras horizontais e uma cor de carvalho realmente bonita. Anita chegara em casa com um sorriso, uma sacola e foi logo para o quarto revirar as antigas fotografias, “comprei isso pra você não esquecer de mim nem enquanto estiver trabalhando”. Voltou segurando a foto na mão e enlaçou um braço em volta de seu pescoço “essa imagem não é perfeita? Para sempre ficaremos aqui, atrás desse vidro, abraçados, nos amando.”

            Agora ela estava a sete palmos. Mas continuavam abraçados dentro daquela moldura.  Na maior parte das fotos de casais existe um terceiro. Quando não é o fotógrafo, é a pose que se obrigam a fazer para eternizar uma imagem de perfeição. Aquela era diferente. Nenhum dos dois viu que estavam sendo observados. Estavam em uma praia inglesa com um grupo de amigos e os dois tinham se afastado um pouco para ficar  sozinhos. O vento cortava de tão frio, ela vestia um casaco branco e o cachecol de lã rosa. Lembrava de tê-la carregado e brincado que ia jogá-la na água, enquanto ela gritava com alegria. Acabou chegando perto demais até que uma onda mais forte veio. Ele bem que tentou se afastar, mas desequilibrou e cairam os dois na areia grossa da praia enquanto a onda molhava suas pernas. Ficaram sentados rindo com força.. Ela deu alguns tapas em seu ombro, enquanto o ajudava a se levantar até que ele se aproveitou e deu-lhe um abraço. Envolveu os braços, os seios e as costas de Anita em seu abraço de urso, a levantou e deu um beijo em sua bochecha enquanto ela gargalhava. Era esse momento que estava na foto. Esse momento que nunca voltaria. Mas eles pra sempre ficariam dentro daquelas quatro paredes cor de carvalho, congelados… apaixonados…

            Tomou outro gole do whisky. Cowboy. Não conseguia sentir a bebida fazendo efeito. Ainda não. Os dedos manchados de nicotina seguravam a moldura com uma força desnecessária. Anita tinha insistido tanto para que ele parasse de fumar, sem sucesso. Agora eternamente sem sucesso. Podia dizer isso. Eterno… era muito tempo…

            De repente levou um susto, que o tirou de seu transe. Pousou a foto na escrivaninha e pegou o celular. Era seu filho. O mais velho. Sempre se fingindo de preocupado. Colocou o telefone no silencioso e deixou que chamasse. Não queria falar com ninguém. Nunca mais. Os filhos, de uma forma instintiva já estão prontos para enterrar os pais. Por mais doloroso que possa parecer ver uma criança que acabou de perder a mãe chorando, enquanto a cova é preenchida com terra vermelha, a dor desse garoto não se compara à dor do pai que está enfiando as unhas com força nas mãos para não chorar. Portanto, pra que falar com o idiota do seu filho? Ele sempre achava que tinha todas as respostas. Quando o câncer foi diagnosticado há dois anos ele foi o primeiro a apontar o dedo. “Foi culpa sua, que fumou na cara dela a vida inteira”. Os outros irmãos o seguraram e levaram-no para fora. Marcos ficou em silêncio. Se era culpa dele, porque seu pulmão estava limpo? Por que Deus não dera o câncer a ele? Ele era o fumante, ele merecia morrer. Ela que deveria ter que aplicar a morfina enquanto ele gritava pela dor das metástases ósseas. Era ela que deveria ter que carregar o corpo emagrecido da sala para o carro e de lá para o hospital, após a crise convulsiva. Ela que devia ter sentido os ossos frágeis se mexendo através da pele frouxa, enrugada, sentindo o cheiro de suor e sangue que escorria da boca dele, porque durante a crise seus dentes tinham encontrado seu lábio inferior com violência. Era ela que ficaria a noite passada acordada, vendo a batalha vã das doze costelas se esforçando para colocar um pouco de ar dentro dos pulmões. Era ela que devia ter suspirado com um alívio primitivo quando a batalha finalmente acabasse. Ela deveria ter que escutar o choro dos filhos no telefone. Mas Deus é um cara engraçado e sua diversão é doentia. Todo o futuro que se esforçara para conseguir fumando duas carteiras de cigarro por dia fora transferido dele para ela. E as manchas de nicotina estavam lá. Para mostrar quem era o culpado…

            Pegou a garrafa de encheu o copo de novo e pegou a foto com as duas mãos. Meu Deus, Anita era bonita. Fora bonita. Por mais que nosso cérebro saiba que vamos envelhecer, nosso coração reluta em aceitar isso. Se alguém dissesse para aquela garota loira que as covinhas de seu sorriso iam se afundar e se perder em um mar revolto de pele e rugas ele sabia exatamente o que aquela menina ia responder… “eu vivo o momento, amanhã eu me preocupo com o amanhã.” Anita era assim. Aos 25 anos ela não sabia que 30 anos mais tarde ela ia chegar em casa ao meio dia de domingo e levar um tapa que quebraria seu nariz. Se achava tão esperta, tão sorrateira, mas ele podia lê-la como a um livro. Marcos havia aprendido a reconhecer os olhares da esposa no início do relacionamento e os anos só os deixaram mais evidentes. Há dois meses ele começara a ver algo estranho nos olhos dela quando ela dizia que ia sair. Uma escapada rápida da íris para a direita. Não era necessário ser um detetive para descobrir quando a mulher estava traindo. Bastava ter vontade de saber. Ativou o GPS do telefone dela e foi até o lugar. Na vida real ninguém tem um sexto sentido quando está sendo seguido. Ninguém espera ser descoberto. Todos se acham capazes de fazer o crime perfeito. Quando viu que ela estava na casa do colega de trabalho que ele odiava fez sentido. Seu ódio era certeiro. Seu amor aparentemente não fora. Mas seu ódio nunca o decepcionara. Voltou para casa e esperou ela chegar, com o revólver na mão. Quando escutou a chave ser girada na porta, escondeu a arma embaixo da almofada do sofá. Não teria coragem de atirar. Levantou-se e deixou seu braço descer com toda a força. Ela não lhe deu aquele clássico olhar de “o que foi isso?”. Não foi aquele olhar. Foi o olhar de “ele descobriu”. Ficou deitada no chão, pedindo desculpas com o nariz sangrando. Mereceu o tapa e sabia disso. Anita ficou imóvel, chorando, não dizia mais nada. Não fez qualquer coisa para se defender de outros ataques. Só quando ele disse que ia fazer as malas para sair de casa que ela se levantou, pedindo para que ficasse, nunca mais faria aquilo e toda aquela hemorragia de palavras que o coração classicamente sangra. Quando percebeu que não estava funcionando, pegou o porta-retrato cor de carvalho no escritório, correu para sua frente empunhando a foto como um pastor empunharia a bílblia ao exorcisar um demônio. Entre lágrimas gritou “vamos voltar a ser este casal, nós nos afastamos, me desculpe, eu sinto saudade desse casal, nós somos este casal, não me deixe”. No final ele não deixou. Tinha muito medo de morrer sozinho. Por mais que todas as células do seu corpo gritassem a palavra “corno” em uníssono ele não conseguiu ignorar aquela mulher sangrando e chorando. Não quis abandoná-la. Abraçou-a e ficaram assim por um longo tempo, antes de irem ao hospital. Disseram que ela havia caído, e os médicos não perguntaram de novo. Se tivessem insistido talvez tivessem ouvido a verdade. O merdinha do filho mais velho sabia disso? Não, não sabia. A mãe tinha sido enterrada como uma santa. E continuaria assim.

            O casamento não foi o mesmo depois daquilo. Mesmo após terem feito amor naquele dia, os dois sentiram alguma coisa se partir. O elo começou a ficar mais fraco com o início do caso e terminou de se partir com o tapa. Por mais que naquela noite ainda tivessem conseguido rir do gesso no nariz, o sentimento de cumplicidade não estava mais lá. E o engraçado é que aquele sentimento ressurgiu após dez anos. Não ressurgiu com o nascimento do primeiro neto, com a segunda lua de mel, mas apareceu de repente, junto com o câncer. Só depois do diagnóstico que voltaram a ser o antigo casal de namorados. Quando o médico disse as palavras ela segurou seu braço, enfiando o rosto no seu ombro e começou a chorar. Se ele pudesse colocar o dedo no momento em que voltaram a ser um casal, seria aquele. Após o choque e a tristeza inicial, a rotina começa a voltar. E com a rotina voltaram os sorrisos, as piadas. Aquele dia em que foram experimentar perucas após a queda do cabelo. Não conseguiam segurar as gargalhadas. Cada um acabou comprando uma e foram jantar no restaurante mais caro da cidade para estreiá-las. Lembrava-se do jeito que deram as mãos, até seus olhares e sorrisos se encontrarem. Anita deixou cair uma lágrima, e sorriu de novo, “estava com saudade” disse. Marcos ficou engasgado. A puxou para mais perto e deu um beijo sorvendo a lágrima que escorrera para seus lábios, sentindo o gosto salgado. Foi naquela noite que decidiram fazer uma viagem. Tiveram aqueles quinze dias na Argentina, um mês após o fim das sessões de quimioterapia. Quimioterapia inútil por sinal. Não destruiu uma célula cancerosa sequer. Mas eles tiveram aqueles quinze dias. E aquilo fora especial. Por mais que seus filhos não quisessem que fossem, o casal insistiu. E os filhos viram que estavam errados quando notaram o bom humor e a vida que aquela viagem trouxe para a face da mãe. Que audácia tentar roubar aquele momento dela. E dele também. Marcos merecia um descanso tanto quanto ela. Uma pena que 27 dias depois os sintomas começaram a piorar. Foi diagnosticada a primeira metástase óssea. Começaram as dores que os acompanharam até o fim.

            Esvaziou o copo mais uma vez. Ainda olhava a foto. Repousou-a um momento na mesa para encher o copo de novo. Começava a sentir o álcool alterando seu raciocínio. As lágrimas tinham embaçado seus óculos. Arremessou-os na parede, afinal nunca mais iria usá-los. Deus poderia abençoá-lo com uma parada cardíaca. Naquele exato momento, enquanto bebia seu whisky e segurava a foto com as mãos trêmulas. Seus filhos estavam formados, casados e empregados, ele não era mais necessário. Mas Deus sempre fez ouvidos moucos às suas preces, porque dessa vez seria diferente? Ainda bem que Deus não é o único capaz de conceder paradas cardíacas. Pela última vez repousou a foto e o copo. Tirou o paletó, a gravata e levantou a manga da camisa. Com a gravata fez um torniquete eficiente. Viu as veias de seu braço envelhecido se ingurgitarem com seu sangue espesso. Enfiou a agulha com precisão e usou seu polegar, seu velho polegar manchado de nicotina, para empurrar o êmbolo da seringa.

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