Introdução

            Não acredito em bloqueio de escritor. Talvez isso só aconteça com pessoas realmente talentosas, não sei, o que de fato sei, é que, comigo, nunca aconteceu. Tudo que eu preciso para começar a escrever é a paciência para sentar na cadeira em frente ao cursor piscando e escutar o barulho de teclas sendo apertadas. Agora, para criar uma história do zero, alguma inspiração é necessária. Para isso, existem os parques.

O prêmio Barco a Vapor permitia o envio de até duas obras. Logicamente, pensei: duas obras, dobro de chances. Só que estava sem nenhuma ideia para escrever um segundo conto. Depois de ficar uma meia hora olhando para a tela em branco decidi ir até o parque e fazer uma caminhada. Quando vou me exercitar prefiro correr, só que a corrida requer concentração e concentração atrapalha a inspiração. Por isso, fiz uma caminhada lenta ao longo dos cinco quilômetros do Parque Sabiá, sentindo o aroma fresco que vinha do lago e das árvores. Comecei a pensar nas histórias dos irmãos Grimm, que minha mãe lia para mim na infância quando, de repente, surgiu a ideia para o conto que se segue. Mais uma das minhas obras primas sub valorizadas!

Conto

            Há muito tempo atrás um casal de fazendeiros vivia em uma fazenda afastada da cidade. Não gostavam do convívio de outras pessoas porque eram muito criticados por não terem filhos. O que ninguém sabia era que haviam tentado por vários anos gerar uma criança, sem nunca ter conseguido. Em sua fazenda tinham uma horta, plantavam trigo, criavam galinhas ovelhas e porcos. Para proteger os animais da fazenda do ataque de animais selvagens cuidavam de um leal mastim marrom. O cão imenso pesava 70 kg e era bem tratado pelos fazendeiros, porque fazia um bom trabalho. Até aquele dia não tinham perdido nenhum animal por ataque dos predadores que moravam na floresta em volta da fazenda. O cão era feroz com os invasores e dócil com seus cuidadores. O mastim vivia solto pela fazenda, durante o dia dormia e à noite rondava a fazenda, sempre em guarda. Ninguém, animal ou ser humano, era capaz de entrar na fazenda sem ser notado pelo cachorro.

            Naquele ano, o inverno estava muito rigoroso. A neve cobria o campo, devido às fortes tempestades que assolavam a fazenda. O telhado da casa tinha uma grossa camada de gelo, até os pinheiros da floresta estavam brancos. Os fazendeiros, que viviam há muito tempo naquele lugar, sabiam como se prevenir dos rigores do clima e haviam feito uma grande reserva de alimentos no outono, por isso, na fazenda ninguém passava fome. O mastim fazia sua parte, afugentando os famintos animais que tentavam caçar na fazenda. Em uma noite, a nevasca caía volumosa, mesmo assim o mastim, incansável, continuava sua rota. Foi então que ele viu uma grande loba negra tentando entrar no galinheiro. O mastim investiu com seu corpanzil sobre a invasora, que lutou ferozmente. A loba estava magra e cansada, apesar disso não foi uma luta fácil. Ela sabia que, se não se alimentasse, não viveria para ver a primavera. Mesmo com a perseverança da loba ela não foi páreo para o cão bem alimentado. As mordidas ferozes do cão machucaram a sua carne e em poucos instantes ela estava deitada de costas para o chão com as duas grandes patas do mastim em seu peito. Dominada, a loba disse:

            -Você defendeu seu território com bravura, agora você tem a minha vida. Só que tenho uma filha. Ela nasceu há poucos dias e meu leite não a sustenta porque eu mesma estou faminta. Aqui vocês vivem com tanto, só queria um pouco para salvar a minha filha.

            -Nesta terra eu vivo com meus senhores. Esta casa, estes animais e plantações são deles, por isso não posso te ajudar. A floresta está cheia de animais para caçar. Não vou deixar que fique com nenhuma galinha, mas vou poupar sua vida, pela sua filha.

            -Agradeço. Vou buscar minha filha para que você a mate primeiro. Depois mate a mim. Deixar que eu saia daqui sem nada é o mesmo que cortar minha garganta. Pior até. Os animais que conseguiram fugir do inverno saíram da floresta e os que ficaram estão bem protegidos, esperando o inverno acabar. Faz dias que não como e não conseguirei caçar com estes machucados. Entre morrer de fome e morrer por suas presas, prefiro a segunda opção.

            O mastim não soube dizer o que aconteceu. Não sabia se era alguma coisa nos olhos ou algo na voz da loba que o fez hesitar. Ele virou as costas, como se fosse deixar aquela loba esquálida morrer de fome. Então, foi ao galinheiro, matou uma galinha velha e gorda e entregou para a loba. A loba, que já contava por certa sua morte e de sua prole, demorou meio segundo para entender o que estava acontecendo. Pegou a galinha com a boca em um movimento brusco e correu em direção às árvores, sem dizer uma palavra. Antes de entrar no meio da floresta, olhou para trás e viu o cachorro altivo que a observava. Fez um aceno com a cabeça e correu para o meio da vegetação.

            No dia seguinte os fazendeiros não notaram a ausência da galinha. Eles tinham muitos animais e aquela era uma galinha velha, que já não botava ovos, quase não era notada pelos donos. Continuaram sua rotina, só que perceberam um fato estranho.  Apesar do dia já estar avançado, o mastim ainda estava acordado. Após a nevasca do dia anterior, era de se esperar que o cachorro estivesse cansado, provavelmente dormindo. Mas o cão andava pela fazenda tentando sentir o cheiro de alguma coisa invisível no ar. Apesar da estranheza, os fazendeiros não deram maior atenção para aquilo. O que o cão tentava farejar ou não era assunto dele. O que eles não sabiam, era que o mastim tentava farejar o cheiro da loba negra vista no dia anterior.  Por algum motivo o cachorro não conseguia esquecer aquela loba magrela que precisava de comida. Mesmo tentando o dia todo, não conseguiu sentir nenhum cheiro até que o cansaço o dominou e ele foi dormir

            Enquanto isso, a loba alimentava sua filha. A lobinha ainda bebia somente leite, mas a carne de galinha que a loba comera havia aumentado o leite da mãe. As duas estavam bem alimentadas pela primeira vez em todo o inverno. Só que a experiente loba sabia que aquela não seria a solução final e, na noite seguinte, levantou-se mais uma vez para caçar. Precisava continuar se alimentando para ter esperança de sobreviver ao rigoroso inverno.  A loba procurou em cada toca e em cada galho por esquilos ou coelhos que pudesse comer, mas não conseguiu encontrar nenhum animal. Conseguia escutar seus irmãos lobos uivando, convocando a alcateia a migrar, mas ela não conseguiria participar de uma jornada longa com uma filhotinha tão pequena. Estava sozinha, na floresta nevada. Após uma semana conseguira nada mais do que dois esquilos, tão magros como ela. A loba sabia onde era o único lugar com comida.

            Quando a loba chegou às redondezas da fazenda, foi logo abordada pelo grande cachorro. O mastim a aguardava há dias, sabia que ela procuraria a fazenda de novo. A loba sabia que não venceria o cão, por isso nem tentou. Alguma coisa no olhar da loba mexia com o cachorro. Ver aquele animal emagrecido e sofrido enquanto ele tinha comida abundante parecia injusto. Nessa noite não havia nevasca, mesmo assim o vento era frio e cortante.

            -Eu sei que não deveria te procurar de novo – disse a loba – só que não consigo achar comida. Minha filha está faminta ainda. Eu tentei caçar, não tem nada que eu possa comer nessa floresta. Aqui na fazenda tem muita comida… por favor…

            Os olhos amarelos da loba brilhavam. O cachorro sabia que se a loba estivesse sozinha iria preferir morrer a pedir comida. Estava fazendo isso pela filha. O mastim a vida toda fora implacável. Nunca importara para ele quem vinha tentar roubar, o invasor era rapidamente enxotado. Só que aqueles olhos amarelos faziam sentir algo que nunca sentira. Ele não seria capaz de negar comida para ela. Não disse nenhuma palavra. Não sabia o que dizer. Foi caminhando em direção ao galinheiro com a loba atrás. No momento em que adentrou o galinheiro e pegou uma galinha com a boca, o fazendeiro o surpreendeu. Não se sabe se o fazendeiro tivera um pesadelo, ou simplesmente precisava ir ao banheiro. O fato foi que o fazendeiro, enrolado em seu roupão, saiu para a varanda e viu o mastim com uma galinha na boca, ao lado do cão, uma loba preta e magra. O fazendeiro pegou a espingarda e foi em direção ao galinheiro. A loba fugiu correndo e se escondeu em um arbusto, enquanto o Mastim olhava para o seu dono, sem abanar o rabo. O cachorro sabia o que aconteceria. A loba não fechou os olhos. Escutou um estampido e viu a neve ser tingida de vermelho. Apertando os olhos, o homem olhou para a linha da floresta. A loba guardou em sua memória aquele olhar, para então sair correndo. Nenhuma lágrima escorreu dos seus olhos.

            Quando chegou em casa, teve tempo de pensar, não só no que acontecera, mas no que aconteceria. Ao matar o mastim, o fazendeiro havia condenado à morte não só ao cão, mas também ela e sua filha. A loba viu sua pequena cria faminta tentar sugar seu peito seco. Em um último gesto desesperado ela foi para fora, com as patas na neve e soltou um longo lamento:

            -Oh Rei do Inverno! Suas provações foram duras e eu falhei em vencê-las. Não consegui alimentar a mim nem à minha filha. Minhas ações levaram um nobre cão à morte e não sou digna de sua misericórdia. Só que o fazendeiro foi cruel com aquele que o protegeu por tantos anos. Peço, pelo menos, que ele seja punido pela sua crueldade. Se possível, também salve minha filha. Sei que eu deveria ter feito isso, mas falhei. Imploro que dê a ela uma chance de sobreviver, para que minha linhagem não acabe. Por favor, Rei do Inverno, escute essa súplica.

            No momento em que terminou de dizer a última sílaba um forte vento sacudiu os pinheiros e derrubou uma chuva de neve no chão. Do nada, surgiu um grande velho barbudo, com um casaco de peles brancas e uma coroa de gelo na cabeça. O velho, apesar da barba e cabelos brancos, tinha os ombros largos e o porte de um guerreiro. Andava com passos firmes calçados com grossas botas brancas. A loba viu que sua prece fora ouvida. Agora, restava saber se seria atendida. O velho começou a falar com uma forte voz grossa:

            -Você me chamou e eu ouvi. Eu sempre ouço. Sua súplica é justa. Mas os fazendeiros sempre suportaram minhas provações com bravura. Eles não foram para a cidade como os outros. Não fugiram de mim, conseguiram prosperar. Entretanto, foram cruéis de fato com aquele fiel cão. Vingança não fará com que sua filha seja salva. Darei uma nova chance a todos. Os fazendeiros poderão mostrar que merecem a vida que levam e você e sua filha terão uma chance de sobreviver. Sei de uma coisa que você não sabe. O desejo mais profundo do coração dos fazendeiros.

            Ao dizer isso o Rei do Inverno tirou uma longa espada que carregava na cintura e apontou para a filhote da loba. Da ponta da espada saiu um cone de vento com flocos de neve entremeados, que atingiram a lobinha em cheio. Quando a mãe olhou novamente para a filha, a lobinha não era loba mais. Era uma pequenina bebe humana. Somente os olhos mantinham o amarelo vivo dos lobos. Rei apontou a espada para a loba e, novamente, o cone de nevasca saiu da ponta da espada, curou suas feridas, colocou um pouco de carne em sua carcaça e pintou uma faixa branca em seu dorso

            -Essa é a minha marca. Os fazendeiros conhecem as velhas tradições, saberão que você foi marcada pelo inverno.  Agora vá e faça o melhor com sua nova chance.

            A loba sentiu o vigor voltar ao seu corpo. Aquele animal esquálido que uivara na neve desaparecera, só restara uma grande loba negra com uma mecha de pelos nevados que ia da cabeça até o rabo. Então ela viu sua filha, agora humana, indefesa, enrolada em uma pele branca deixada pelo Rei do Inverno. A loba pegou a filha com a boca caminhou mansamente em direção à fazenda. Sabia o que tinha que ser feito.

            Já era manhã quando os fazendeiros viram a grande loba preta chegando na fazenda. Ao verem a faixa branca no dorso do animal, sabiam que aquilo tinha um significado maior. Até que viram que a criatura carregava um pacote branco em sua boca. Eles demoraram a entender o que era. Ficaram imóveis enquanto a loba se aproximava tranquilamente. Quando o canídeo chegou bem perto e deixou o pacote no chão, os fazendeiros viram que o pacote branco continha uma criança. A fazendeira, ao ver aquele presente de inverno, ficou emocionada e começou a chorar. O fazendeiro segurou suas lágrimas e abraçou a esposa enquanto ela pegava a garotinha no colo. A loba deixou a criança com os novos pais e se deitou na varanda. Só aí que os fazendeiros perceberam que não tinham ganhado somente uma filha. Ganharam também, um novo cão de guarda.

            Aquela manhã foi incomparável naquela fazenda solitária, localizada na mais profunda clareira da floresta. Os fazendeiros exultavam de alegria com a criança. Trataram de pegar um pouco de leite de cabra aqueceram e deram para a menina, que mamou com avidez. A fazendeira brincava com a menina e a abraçava. A criança até já sorria para os novos pais e se divertia com as tentativas deles de entretê-la. Só não chorava.

            O inverno passou rápido com todos bem alimentados e aquecidos. Como nos tempos do mastim, nenhum animal ousava se aproximar da fazenda, agora que a grande loba marcada pelo inverno a protegia. Os poucos predadores, que ousavam tentar abocanhar algum dos bichos, ao ver o tamanho da loba que vigiava, fugiam. Em retribuição, fazendeiros alimentavam-na bem e a respeitavam. Enquanto isso, o deslumbramento por terem conseguido uma filha, ia passando aos poucos. Logo perceberam que a garota trazida para sua casa pela loba era diferente. A garota se desenvolvia muito rápido e, ao final do inverno a menina conseguia andar pela casa toda e dizer algumas palavras. A menina não se assustava, era quieta e obediente, mas inquiria seus pais com seus olhos grandes e amarelos. E nunca chorava.

            Quando chegou o inverno seguinte a situação na fazenda havia mudado. Os animais se multiplicaram sob a vigilância constante da loba. O bebê recebido no inverno anterior já tinha o desenvolvimento de uma criança de quase dez anos. A menina tinha cabelos pretos, a pele muito branca, era magra e formosa. Os fazendeiros a colocavam para fazer quase todas as tarefas, algo que ela sempre fazia com um sorriso no rosto, apesar de alguma coisa inefável em seu olhar. Os fazendeiros pareciam se incomodar com aqueles olhos. Nunca a agradeciam. Como não podiam reclamar, já que o trabalho era feito com perfeição, arranjavam mais alguma coisa para ela fazer. A garota colocava comida para as galinhas, colhia o trigo, fazia o pão, cozinhava o café da manhã, tirava a neve da porta da casa, colocava água para os porcos e lavava a louça. Quando tinha algum tempo livre ela o usava para brincar com a loba lá fora. As duas corriam pela neve, pulavam e, nos raros dias totalmente livres, entravam na floresta e iam até um pequeno riacho de águas velozes que nunca se congelavam, tentar pegar algum peixe. Por mais que estivesse frio, a menina era sempre vista com roupas leves e parecia não precisar dos grossos casacos de pele que os fazendeiros usavam. Além disso, gostava de deixar os cabelos pretos soltos enquanto corria entre as árvores.

            O inverno daquele ano não fora nem de longe tão rigoroso quanto o anterior. Houve poucas nevascas e o frio foi menos intenso. À medida que os dias passavam, a convivência entre os fazendeiros e a menina ficava cada vez mais estranha. Eles haviam visto o desenvolvimento assustador daquela menina, que olhava pra eles com seus grandes olhos amarelos e sorria quando a mandavam fazer alguma coisa. E nunca chorava.

Quando se sentavam à mesa de jantar, sentiam que ela estava os observando, testando. Era como se o próprio senhor do inverno olhasse através dos olhos dela. Em pouco tempo ela foi convidada a comer sozinha na cozinha, coisa que a menina aceitou com um sorriso e um olhar. Agora, os fazendeiros comiam e olhavam apreensivos para a porta da cozinha, esperando ver a garota a qualquer momento.

            Na primavera, não só a floresta, mas a garotinha também floresceu. A medida que a neve descongelava ela ficava mais formosa. Um dia, chegou a hora de fazer a primeira viagem para reabastecer os estoques de sal, comprar frutos, sementes e vender os animais que se multiplicaram no inverno, sob a proteção da loba. A fazendeira mandou a menina arrumar a carroça com os produtos para troca, arrear o cavalo, fazer o almoço, tudo tinha que estar preparado para a viagem do casal. Só que, na hora da viagem, o fazendeiro pediu para a mulher ficar em casa e pediu para que a moça o acompanhasse. A fazendeira ficou com ciúme, mas não disse nada. Deixou aquele sentimento dentro dela, o que fez o ciúme se transformar em rancor. Ao chegarem a cidade, todos ficaram assustados com a visão da jovem vestida de branco. A moça parecia deslizar pelas lojas ao lado do fazendeiro. Enquanto eles faziam suas trocas, todos olhavam para a garota, que respondia aos olhares com um sorriso. Se alguém perguntava, o fazendeiro respondia dizendo que ela era uma moça que haviam encontrado faminta na floresta e agora os ajudava na fazenda. A menina sempre confirmava a história com um aceno de cabeça. Quando o fazendeiro foi comprar sementes, deixou a garota na carroça. O filho do dono da loja, que aparentava ter a mesma idade da menina, aproveitou que ela estava sozinha e começou uma conversa. Ela conversava com o garoto animada, contando sobre a floresta cheia de neve, sobre os pássaros e estrelas que ela via na fazenda. O garoto havia tocado no ombro da menina no exato momento que o fazendeiro voltou com as sementes. Ele afugentou o garoto, o ameaçando com uma enchada enquanto vociferava que aquela moça estava sob seus cuidados. A jovem somente sorriu para o fazendeiro. Esta foi a primeira e última viagem da menina ao vilarejo.

Quando o verão chegou, a menina já era obrigada a dormir na cozinha e fazia sozinha todas as tarefas da casa. Dormia em um pequeno colchão sujo próximo ao fogão, mas nem isso conseguia diminuir a beleza da garota, que parecia aumentar a cada dia. Por mais que ela trabalhasse, seu vestido estava sempre alvo, como a neve, e seus cabelos pretos, como a noite. A fazendeira tentava dar o máximo de trabalho para que a menina ficasse mais feia, só que não adiantava. O fazendeiro, começava a jogar olhares duvidosos para as curvas da jovem, curvas que o vestido de verão não escondia. Alheia a tudo isso, a loba corria pelo gramado verde e úmido, aproveitando o tempo livre, já que no verão a comida era abundante e não havia nenhum animal tentando matar as galinhas e porcos da fazenda. Durante as noites mais quentes, apesar do grande número de tarefas a serdesempenhadasna casa, quando todos estavam dormindo, a garota deitava no gramado com a loba e juntas procuravam estrelas cadentes.

            No outono as preparações para o inverno começavam, e com isso todos tinham que trabalhar dobrado. Salgavam os porcos, colocavam as frutas em conserva, curtiam o couro, cortavam lenha, colhiam a horta. Era tanto serviço, que os fazendeiros foram obrigados a ajudar. Com o trabalho a velha fazendeira ficava cada dia mais velha, enquanto a jovem fazia suas tarefas com um sorriso e um agradecimento. A velha via o fazendeiro levantar-se no meio da noite e só voltar para  a cama de manhã. Ela sabia o que estava acontecendo. Só não disse nada.

 A loba algumas vezes sumia no meio da floresta só voltando tarde da noite. Mesmo assim não sofreram nenhuma perda causada por predadores selvagens, portanto os fazendeiros não tinham o que reclamar. Como o outono estava se prolongando um pouco mais do que o normal, era esperado que o inverno daquele ano fosse mais frio que o anterior. Isso só fazia com que todos trabalhassem mais e ficassem a cada dia mais mal-humorados.  No outono a loba negra começou a engordar. Inicialmente ninguém notou, a não ser a jovem mulher de olhos amarelos, porém não disse nada. Nos primeiros dias do inverno o peito da loba já estava inchado. Após alguns dias todos viram a loba ficar deitada e bem quieta. Logo os fazendeiros finalmente entenderam o que estava acontecendo. A loba estava entrando em trabalho de parto. Ao ver que a grande loba negra com sua faixa branca nas costas dera a luz a dois lindos lobinhos o fazendeiro ficou possesso.

            -NÃO ACREDITO. Não vamos poder alimentar mais duas bocas nesse inverno. Essa loba irresponsável tinha que engravidar!

            -Não tem problema – disse a fazendeira. – É só pegar aquele saco de linho e colocar os dois lobinhos dentro. Nós podemos soltar os dois no meio da floresta onde ninguém nunca vai achá-los.

            – Você está certa mulher, pegue o saco pra mim.

            A velha voltou com o saco de linho na mão e entregou ao fazendeiro. Assim que o homem pegou o saco a menina pegou na mão do fazendeiro e disse:

            -Você vai deixar aqueles dois filhotes morrerem de fome e frio no meio da floresta?

            -O que mais eu posso fazer, não posso alimentar mais duas bocas nesse inverno. Logo esta fazenda irá se tornar um canil.

            – Tem comida para todos nós. Assim que eles crescerem eles sairão daqui. Lobos são animais independentes.

            -A comida que temos é para mim e para minha esposa. Já temos que dividir com você e com essa loba. Não posso arcar com mais duas bocas para alimentar. Vou pegar os dois lobinhos e soltá-los no meio da floresta.

            O fazendeiro se desvencilhou da moça e caminhou em direção aos filhotes, quando ouviu uma voz rouca dizer:

            -ACHO QUE NÃO!

            O fazendeiro virou para trás e viu os olhos amarelos da garota, só que o rosto ao redor dos olhos não eram mais o de uma garota, mas os de uma imensa loba negra. O homem correu em direção à sua espingarda, só que a loba foi mais rápida. A fazendeira viu as paredes tingidas com o sangue de seu marido ajoelhou-se e pediu piedade à loba. A criatura ignorou a velha ajoelhada à sua frente, correu pela fazenda, soltou todos os animais espalhou a comida armazenada ao relento. Depois, chamou sua verdadeira mãe para que voltassem para a floresta. A loba perguntou:

            – O que você vai fazer com a velha?

            Sua filha respondeu, enquanto lágrimas afloravam em seus olhos pela primeira vez em sua vida:

            – Vou fazer por ela, o mesmo que ela fez por mim. Nada.

            Uma figura familiar pairava no ar, observando a alcateia retornar para a floresta. Ele repousava a mão esquerda na enorme cabeça de um cachorro marrom e sua mão direita no punho da espada. O Rei do Inverno virou-se para o cão e disse:

            – Você acertou ao salvar a vida daquela loba, não foi mesmo?

            O mastim não disse nada. Só observou a imensa loba com a faixa branca no dorso entrando na floresta ao lado de sua filha mais velha, seguida pelos dois filhotinhos, sentindo saudade daquilo que nunca teve.

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