Eu aposto que era um dia bonito. O Sol brilhava contra o céu azul escuro, por isso um casal decidiu passear em um parque próximo à Belo Horizonte. Eles estavam distraídos com a beleza da natureza, quando um bandido armado os aborda. Ameaça a mulher. O homem se enfurece. Em um momento de insanidade, tenta contra-atacar o bandido, esquece que o bandido está armado. O bandido dispara seis tiros contra o homem, ainda assim o homem não morre. Só cai. Agonizando, ele vê o bandido violentar a mulher, repetidas vezes. Amedrontada, ela não tenta se defender, já viu que o pior, de fato, acontecer. Mesmo satisfeito seu instinto primordial, seu desejo por violência continua. Agride o rosto da mulher com socos e pontapés, para depois jogá-la em um precipício de mais de cinco metros. O bandido sorri para o homem moribundo e desaparece sob a luz do Sol que continuava brilhando, impassível, contra aquele lindo céu azul escuro.

            Eu consigo ouvir as maldições não ditas do homem que agoniza. Ele não verbaliza, (está muito fraco para isso) só pensa: “vou te matar”, “Vou te caçar até o final do mundo”, “o que é seu está guardado”. Acredita nas suas maldições. Somente o ódio é capaz de mantê-lo vivo. De repente, uma luz de esperança preenche o coração daquele homem que agoniza. A mulher, que ele dera como morta, surge do abismo. Ela, apesar do rosto machucado, não apresenta nenhum ferimento grave, por isso consegue arrastá-lo até o carro. Infelizmente ele perdeu muito sangue. A visão encantada de sua amante, viva, “não acredito, ela está viva”, faz com que o homem baixe a guarda. A esperança se infiltra na barreira de ódio, única coisa que o mantinha vivo. Ele morre. A mulher chega ao hospital com o cadáver do seu amado, implorando que a vida dele seja salva. Não tem jeito. Então ela vai até a delegacia. Implora por justiça. “Qual o nome do atacante?” “Qual a altura dele?” “Onde vocês estavam?” “O que estavam fazendo?” “Por quê estavam lá?”

            “Não sei”. “Não sei”. “Não sei”. “O dia estava tão bonito…”

            “Vamos fazer o possível, mas as chances são pequenas”

            “Eu sei”.

            O bandido nunca foi capturado. O homem morreu. A mulher, com medo, não consegue sair de casa. Sabe o que é mais triste em toda esta história? Não, não é o fato de que ela é real. É o fato de que é corriqueira. Quando pesquisei um caso para escrever esta introdução, digitei no meu site de buscas preferido somente “namorada estuprada na frente de namorado assassinado” e escolhi a melhor (pior) história de um vasto buffet macabro. A verdade, que recusamos a aceitar é: a vida não tem sentido. Nos apegamos a colóquios imberbes que nos confortam. Palavras vazias que nos enganam. Deus. Destino. A vida (morte) não se importa com nenhuma destas palavras. Ela simplesmente segue seu fluxo caótico e inexorável. Destino é um presente que o Papai Noel esqueceu de entregar. Deus existe, aquele maldito pirralho com uma fazenda de formigas.

            Os contos aqui reunidos, são diferentes da vida. Eles fazem sentido. Cada rifle colocado na parede no primeiro ato, é disparado, ao final do segundo ato. Na literatura não podemos nos dar ao luxo de ser caóticos. Precisamos amarrar todas as pontas soltas, afinal, vocês esperam um enredo coeso. E, mesmo eu tendo explicado que a vida não faz sentido algum, que fatos horríveis acontecem totalmente ao acaso, vocês não aceitam palavras ao acaso neste texto, afinal, este ainda é um texto literário. Por isso, eu escuto você gritando aí no fundo, “então por que diabos você colocou aquela merda de começo?” Calma. Eu explico.

            As histórias seguintes, parecem ter sido compiladas sem sentido algum. A esmo. Como a vida. Mas, eu sei que não é isso que vocês esperam. Sei que vocês esperam mais de mim como autor. Por isso eu coloquei uma ligação entre todas as histórias. Um elo mais forte do que qualquer liga de titânio. O fracasso. Somente o fracasso é capaz de manter esta coletânea reunida, assim como somente o ódio conseguiu manter aquele homem vivo por tanto tempo. Assim como aquele ódio, o fracasso é um elo efêmero. Vago. Não é bom o suficiente. Morre. (Eu espero).

Cada uma das minhas estórias perdeu um concurso e a cada derrota eu jurei vingança aos meus juízes. Agonizando eu esbravejava maldições mentais, arquitetava minha amarga vingança contra meus algozes. “Quando minha carreira literária me alçar ao status de fenômeno de vendas vocês vão ver.” “Cada um de vocês sentirá o cheiro ácido dos meus testículos.” Isto não aconteceu. Minha carreira morreu antes mesmo de nascer.

            Desta sequência de derrotas trago para vocês meus perdedores. Sabe o que é mais triste destas derrotas? Não, não é a próxima derrota que se segue (seguirá). Minha maior tristeza é a maldita esperança. Sou como vocês. Sou humano. Gosto de me apegar a algumas centenas de história de sucesso e convenientemente esquecer dos milhões de fracassados. Escrevo esta introdução na esperança de ser como aquela mãe solteira de trinta e sete anos que virou autora do maior best seller do mundo. Conscientemente sei que esta não é minha história. É mais fácil encontrarem, anos após minha morte, uma obra prima escondida em uma lata. Isso, depois do jornal ter escrito meu nome errado no obituário.

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