Se o Castelo no Céu tem o relacionamento que mais gosto dentro das obras de Hayao Miyazaki, Princesa Mononoke tem a mensagem que eu mais gosto,

O texto terá alguns Spoilers

O filme trata da história de um jovem príncipe de uma aldeia rural no Japão que, ao enfrentar um deus-javali, (que se transformou em um tatari-gami, uma espécie de demônio) fica amaldiçoado. Para tentar se livrar da maldição ele parte em busca da origem do javali e acaba encontrando uma aldeia produtora de aço às margens de uma floresta. As pessoas desta aldeia estão sempre lutando contra a floresta. Um dos protetores da floresta é uma loba-deusa que adotou uma menina, chamada de Mononoke hime, princesa Monoke.

            A história se passa no final do século XIX. Eu digo apesar da história não falar de nenhuma data. Por que eu digo isso? Porque, o primeiro canhão de metal surgiu na china em 1290. O Japão foi governado pelos Xoguns, entre 1192 e 1867. Nesse período o imperador exercia mais uma função religiosa do que de governante. A partir de 1867 o Imperador passa a ter uma voz ativa na política e, em um determinado momento do filme nós temos um decreto imperial que pede a cabeça do Shishigami, o Deus máximo protetor da floresta e não um decreto do Xogum. Além disso, ao longo da história percebemos que o Japão está passando por diversos conflitos. Logo após a queda do Xogum, diversas rebeliões eclodiram, com samurais tentando angariar poder para rivalizar com a autoridade do imperador. Por isso coloco o filme no fim do século XIX.

            Uma das cenas mais icônicas do anime é a primeira vez que Ashitaka vê a princesa Mononoke. Ela está sugando o sangue da ferida da sua mãe-loba. Ela, com a boca suja de sangue, olha pra ele, monta em um lobo e desaparece na floresta. Essa cena é incrível. Ao longo da história nós vamos vendo que Ashitaka é um indivíduo sensato. Ele faz amizade com os moradores da floresta e com os moradores da aldeia produtora de aço. O filme está repleto de referências mitológicas. Quando Ashitaka entra na floresta pela primeira vez existem diversos Kodamas, espíritos que habitam as árvores, em geral pacíficos. Shishigami, é o deus da vida e da morte. Além da crença shintoísta de que os animais, rios, árvores tudo pode ser considerado um deus. Essas referências só enriquecem a história.

            Se não gosta de spoiler, melhor parar por aqui.

            Aos poucos, você percebe que, tanto os espíritos da floresta, quanto os homens estão muito mais preocupados em odiar do que em viver em harmonia. Nós descobrimos que o tatari gami que Ashitaka, na verdade, era um antigo deus Javali consumido pelo ódio e esse ódio o transforma em um demônio. Se existe um antagonista em Princesa Monoke não é a floresta ou Lady Eboshi, mas sim o ódio. O personagem principal, tocado pelo ódio do tatari gami, a cada batalha que luta, tem que tomar cuidado para não deixar o ódio se espalhar, porque sabe que o ódio da ferida pode consumi-lo.

            Todo o tempo que temos um embate entre homens e floresta. Percebemos que o personagem principal tenta mediar esse combate, tenta poupar vidas, tenta fazer com que as duas partes se entendam. Quando Ashitaka conhece Lady Eboshi, a líder da aldeia produtora de aço, ele sente uma pontada de raiva. Foi a bala de Lady Eboshi que feriu o Javali e o transformou em tatari gami. Só que ele conhece um pouco mais do caráter daquela líder. Ela salva mulheres que seriam vendidas para bordéis, as acolhe, e lhes dá um sustento. Ela acolhe os leprosos, uma doença que era vista como uma maldição divina, e também lhes dá um trabalho e abrigo, além de tratá-los com dignidade. Essas não são as características de um vilão. O problema é que, Lady Eboshi é obstinada. Gananciosa. Em seu ódio pela floresta, ela esquece a segurança da aldeia para caçar o Shishigami. E o mais interessante. Consegue matá-lo.

Essa pra mim é a maior metáfora do filme. Lady Eboshi consegue decapitar o Shishigami. É um sinal de que os homens podem sim destruir a natureza. São capazes de “vencer” a batalha com a natureza. Só que essa vitória, só traz destruição. Quando o Shishigami perde a cabeça, ele se transforma em uma gosma escura feita de destruição pura, que mata tudo aquilo que toca, seja humano ou animal, seja árvore ou arbusto. Essa onda negra de destruição só para quando o shishigami recupera a cabeça. Ou seja. Quando a natureza entra novamente em equilíbrio. No fim do filme vemos que Ashitaka e Princesa Mononoke se amam, mas ela não consegue esquecer seu ódio pelos humanos, por isso prefere continuar vivendo na floresta. Ele entende que ela precisa da floresta e opta por morar na aldeia de Lady Eboshi, para ficar próximo dela. Uma metáfora de que homem e natureza podem viver juntos.

            Ecologia, além de aviação é um tema recorrente nos filmes de Hayao Miyazaki e ele consegue trabalhar isso sem ser panfletário, sem ser chato. O filme é lindamente desenhado, já vi diversas vezes e, toda vez que vejo me assusto com a beleza da arte.

            Uma coisa interessante é que, o deus Javali que se transformou em Tatari gami, no início, foi atingido por uma bala de ferro, e a dor dessa bala junto com o ódio nos humanos o amaldiçoou. Antes de morrer, ele fala que os humanos vão sentir a dor que ele sentiu. Se a gente pensar no número de guerras que nós humanos travamos, no número de balas que tomaram vidas de seres humanos, acho que a maldição dele deu certo.

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